Em toda grande metrópole do mundo é sempre a mesma coisa. Os metros quadrados que buscamos para morar ficam cada vez mais caros, os deslocamentos da moradia até o trabalho mais penosos e o contato com amigos e familiares mais raros. As cidades vão crescer e se tornar ainda mais complexas e caras. Ei, Hong Kong e Tóquio, nós seremos vocês amanhã!

Como uma resposta a esse cenário, uma movimentação diferente surgiu no começo deste século. O Coliving é uma evolução dos projetos de co-housing – conjuntos de unidades habitacionais que compartilham determinadas áreas comuns, como cozinhas, lavanderias, espaços de lazer e serviços, que começaram a surgir na Dinamarca, ainda nos anos 1970, e se espalharam pela Europa.

Basicamente, Coliving é a substituição da ideia de “ter mais” por “usar melhor”. Da mesma forma que percebemos que usufruir a mobilidade que o carro oferece é mais inteligente e necessário do que ter um na garagem, notamos que, entre ser dono de uma unidade habitacional – arcando com todos os custos que isso implica – e compartilhar espaços que sejam mais confortáveis e adequados, a segunda hipótese começa a ficar cada vez mais atraente.

Para nós brasileiros, essa ainda é uma ideia aparentemente distante ou, ao menos, minoritária. A pesquisa realizada com exclusividade pelo instituto Ipespe, do cientista social Antonio Lavareda, para o Movimento Coliving, evento promovido pela Vitacon, mostra que os paulistanos pensam sobre o tema.

Há boas surpresas ali, como as respostas de 30% dos entrevistados que considerariam morar com algum grau de compartilhamento. Cometendo a ousadia metodológica de, apenas como exercício, projetar esse dado para o País, 63 milhões de pessoas estariam dispostas a aceitar o Coliving.

O estudo também mostra que os brasileiros estão em sintonia com as mudanças que o mundo conectado traz em vários aspectos de nossas cidades. Desde a racionalização das demandas de transporte até o conceito de unidade habitacional e de desenho urbano.

Mas, o que merece mais destaque, é a perspectiva de conseguir integrar à cidade uma parte significativa da população, que hoje gasta horas e horas de seu dia deslocando-se no vaivém casa-trabalho. Assim, reduziremos os trajetos de forma radical, melhorando a condição geral de morar.

Uma pesquisa do instituto Ipespe mostra que 30% dos paulistanos considerariam morar com algum grau de compartilhamento

Esse modelo de moradia também impacta o mercado imobiliário quando unidades menores e mais eficientes são criadas e boa parte das áreas, antes privativas, pode ser compartilhada. Como resultado, há redução dos custos condominiais de aquisição, locação e manutenção dos apartamentos. Além disso, elas promovem uma vida social intensa, que se relaciona diretamente com saúde, bem-estar e longevidade da nossa população.

Um conceito mais amplo de Coliving, que se adapte ao nosso contexto, com os benefícios de acessar e usufruir, nos permite projetar uma solução inteligente para o déficit habitacional do país, principalmente, para as classes menos favorecidas. Precisamos debater e aprimorar tudo isso.

*Alexandre Lafer Frankel é CEO da Vitacon e autor do livro “Como viver em São Paulo sem carro”.

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