O futuro da liderança está diretamente ligado à capacidade de lidar com problemas e até buscá-los. É o que defende Alberto Roitman, sócio-fundador da Escola do Caos.
Em entrevista ao programa Humanamente Possível, do NeoFeed, Roitman criticou o modo com que a sociedade ocidental lida com percalços. Na visão dele, em vez de evitá-los, o ideal seria entender que os obstáculos são fonte de autoconhecimento e aprendizado.
“Na nossa sociedade ocidental, aprendemos a evitar o caos. Não gostamos, inclusive, de levar problema para os nossos chefes, porque inclusive se confunde o carteiro com o gerador do problema. Então, deixamos de lado aquilo que talvez seja o maior combustível que temos para se desenvolver, que é justamente gostar de problema”, afirmou Roitman.
Para ele, as pessoas mais incríveis do mundo não são as isentas de problemas, mas sim aquelas que conseguem desenvolver habilidades depois de passarem por situações difíceis.
“Aprendemos a evitar o caos, como sendo um grande instrumento de incompetência. E é ao contrário”, disse. “O caos é sexy. Ele é visto como dor, mas também pode ser energia. O que diferencia os líderes do futuro é a capacidade de transformar desordem em inovação.”
Roitman também desafia um dos dogmas mais repetidos no mundo corporativo: a ideia de que líderes devem decidir sempre pela razão. “As piores decisões que eu tomei na minha vida foram decisões racionais. Hoje, estimulo todo mundo a tomar decisões emocionais.”
Apesar disso, ele rebate a ideia de que as empresas podem ser comparadas a famílias. Essa clareza é fundamental, segundo Roitman, para combater um problema que corrói organizações por dentro: a liderança tóxica, legitimada, muitas vezes, pela entrega de resultados.
Ao analisar o cenário atual, Roitman defende que a sigla VUCA, criada nos anos 1980 para explicar um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo, não traduz mais a realidade. Para ele, vivemos em um ambiente BANI, acrônimo em inglês para as palavras frágil, ansioso, não linear e incompreensível.
“O mundo BANI é uma demonstração que a gente vive uma quantidade de estímulos absurda. Você recebe por volta de 1.500 informações num dia, mas a nossa capacidade cognitiva só agrega 15. Então, eu queria ter as 1.500 sensações, mas vou acabar sendo superficial. O mundo BANI é um mundo que descreve a superficialidade”.
Na visão do empresário, o grande desafio do presente e do futuro é cultivar líderes capazes de transformar o caos em energia criativa, que decidam com emoção, rejeitem a toxicidade e encontrem profundidade em um mundo marcado pela ansiedade e pela pressa.