O primeiro final de semana depois que o Brasil assumiu a presidência rotativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas mostra o tamanho do desafio que o país tem pela frente.

A presidência brasileira anunciou a realização na tarde deste domingo de uma reunião fechada do conselho, depois que os ataques do Hamas a Israel causaram mais de 900 mortes – das quais pelo menos 600 em território israelense e mais de 300 na Faixa de Gaza.

A reunião ocorre depois de o secretário-geral da ONU, António Guterres, ter condenado “nos mais fortes termos” os ataques iniciados na madrugada de sábado. E poucas horas após o governo de Israel haver se declarado oficialmente em guerra.

Se tem pela frente o grande desafio de evitar a escalada do conflito, a presidência brasileira também conta com a rara oportunidade de comandar, em momento tão delicado, o principal órgão decisório das Nações Unidas.

A diplomacia brasileira se preparou para a breve presidência. Elaborou, porém, roteiro de trabalho para um período de relativa paz. E muita coisa mudou ao longo da semana.

Ao divulgar seus planos para a presidência rotativa do Conselho de Segurança, no dia 2, o Itamaraty anunciou a realização de três reuniões abertas sob a presidência do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

A primeira, no dia 20, para abordar iniciativas regionais para prevenção e solução de conflitos, com o objetivo de chamar atenção do conselho para a necessidade de “reforçar sua atuação para antecipar e resolver conflitos antes de sua eclosão”.

Um “debate aberto sobre a questão israelo-palestina” foi marcado para o dia 24. O dia 25, por fim, foi reservado a uma discussão sobre a Agenda de Mulheres, Paz e Segurança.

O foco da última reunião, segundo o governo brasileiro, estará na busca de “maior e mais significativa participação de mulheres em temas de manutenção da paz e segurança internacionais”.

Esse era o roteiro. Os acontecimentos dos últimos dias, porém, acrescentaram ingredientes que devem tornar mais intenso o período da presidência brasileira.

Nos cinco dias seguintes ao anúncio da agenda, uma mulher recebeu o Prêmio Nobel da Paz – a iraniana Narges Mohammadi, considerada a principal “voz da revolução feminina” em seu país. Atualmente presa, ela é referência na luta pelos direitos das mulheres no Irã.

Logo em seguida ocorreu o mais intenso ataque a Israel já promovido pelo grupo islâmico Hamas – justamente 50 anos depois da Guerra do Yom Kippur, quando o país sofreu um ataque de vizinhos árabes, liderados por Egito e Síria.

Os três debates foram previstos em um momento bem diferente. Eles seriam uma pequena amostra de como o Brasil poderia contribuir para a paz e a estabilidade no mundo.

Afinal, uma das principais bandeiras da política externa do presidente Luís Inácio Lula da Silva é a presença do país, como membro permanente, no Conselho de Segurança.

O debate sobre a necessidade de prevenção de conflitos ocorrerá duas semanas depois do ataque surpresa a Israel. A provável reação do Irã à indicação de Narges Mohammadi para o Nobel da Paz vai anteceder a reunião sobre maior participação de mulheres na agenda global.

E muita coisa ainda pode acontecer no Oriente Médio nos 17 dias entre o ataque inicial do Hamas a Israel e o debate marcado pela presidência brasileira do conselho sobre a chamada “questão israelo-palestina”.

O conflito iniciado neste final de semana vai exigir bastante da diplomacia brasileira. A dimensão dos primeiros ataques indica que o número de mortos e feridos vai crescer muito nos próximos dias. E que muitos países terão de se posicionar diante da nova guerra.

O Brasil já o fez. Em nota divulgada nas redes sociais, o presidente Lula disse estar “chocado com os ataques terroristas contra civis em Israel”. Anunciou que o país não poupará esforços para evitar a escalada do conflito, inclusive no exercício da presidência do Conselho de Segurança.

Lula pediu ainda â comunidade internacional que busque a retomada imediata de negociações que conduzam a uma solução para o conflito, “que garanta a existência de um Estado Palestino economicamente viável, convivendo pacificamente com Israel dentro de fronteiras seguras para ambos os lados”.

A mensagem mostra sintonia com a tradicional posição brasileira diante do conflito – com exceção, é claro, dos quatro anos em que Jair Bolsonaro foi presidente. Basta lembrar das bandeiras de Israel nas manifestações de rua de bolsonaristas.

Haverá, porém, diferenças com países mais próximos aos israelenses. Ao se comparar o texto de Lula à declaração do presidente norte-americano Joe Biden, por exemplo, de total apoio a Israel, não será difícil perceber a diferença de tom.

Assim como na Guerra da Ucrânia, o Brasil provavelmente não estará diretamente alinhado aos países ocidentais no novo conflito israelo-palestino.

Agora, porém, estará em posição de destaque, ao presidir o Conselho de Segurança da ONU.

Na nota em que anunciou a agenda para este mês nas Nações Unidas, o Itamaraty ressaltou que, ao promover o diálogo, as soluções pacíficas e a participação de mulheres em negociações de paz, o Brasil reforçaria sua atuação em busca de paz e desenvolvimento.

“A atuação do Brasil no atual mandato, em especial durante a presidência em outubro, reforça as credenciais do país para assumir um assento permanente em um Conselho de Segurança reformado”, diz o texto divulgado pelo Itamaraty.

As circunstâncias da atual presidência do conselho darão ao Brasil uma posição de liderança que ninguém poderia antes prever. As próximas semanas podem ser muito importantes para o futuro do antigo sonho brasileiro de integrar o conselho de forma permanente.