O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou, na manhã de segunda-feira, 9 de fevereiro, que tem enfrentado dificuldades em explicar para executivos e investidores estrangeiros como o episódio do Banco Master, que causou um dos maiores rombos da história recente do sistema financeiro do Brasil, tem gerado tanta repercussão fora da bolha do setor bancário.
Em uma analogia com o mundo do futebol, o presidente do BC disse que o banco estava longe de ocupar um papel relevante na elite entre as principais instituições do País, pois ele respondia por menos de 0,5% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional (SFN).
“É como se fosse um time da terceira divisão. Mais difícil foi para quem teve de liquidar o Bamerindus, o Econômico, o Nacional, que eram bancos que tinham relevância sistêmica”, disse Galípolo, em evento promovido pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC), em São Paulo.
“Quando a gente entende que é um tema que transcende a questão da regulação e estabilidade do sistema financeiro, e é isso que está chamando a atenção da sociedade, o Banco Central deve fazer o que a legislação manda, que é colaborar com a Polícia Federal e Ministério Público”, explicou.
Segundo o presidente da autoridade monetária, o BC identificou, em novembro de 2024, dificuldades de captação e problemas de liquidez do banco. Para isso, chamou a instituição, e concedeu seis meses de prazo para que as correções fossem apresentadas.
“A diretoria de fiscalização, que foi quem emitiu essa espécie de ‘cartão amarelo’ para o Master, começou a levantar dúvidas, em janeiro, sobre movimentações de carteira. Seria normal que houvesse venda de ativos, mas isso aconteceu a partir da formação de novas carteiras”, afirmou.
A partir daí, um grupo de trabalho criado pela diretoria do BC não encontrou evidências de que essas carteiras existiam de verdade. A partir daí, foi emitido um documento chamado ‘notícia de fato’ ao mercado. “O Banco Central não notícia crime e sim fatos que precisam ser investigados pela Justiça e Ministério Público”, afirmou.
Essa ação do BC ocorreu em meio ao processo de apuração de uma possível aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Em setembro, a autoridade monetária brasileira vetou a operação. No mês seguinte, então, veio a decretação da liquidação, um dia após o anúncio de que o grupo Fictor compraria a instituição de Daniel Vorcaro.
“Graças ao trabalho, feito em conjunto com o Fundo Garantir de Crédito (FGC), foi possível constituir um processo bem fundamento de rejeição da compra pelo BRB e do voto pela liquidação do Master”, explicou.
Segundo Galípolo, Vorcaro chegou a propor, em setembro, uma espécie de “saída organizada”, no modelo de uma autoliquidação, com a iniciativa de venda para fundos árabes, que não se concretizou.
“Isso não aconteceu e foi constatado que o banco tinha, em novembro, apenas R$ 4 milhões em caixa, com compromissos de pagamento de R$ 120 milhões em CDBs somente naquela semana. Já havia um processo sancionador desde o primeiro trimestre de 2025 porque o banco não estava cumprindo o depósito compulsório”, contou o dirigente.
Na defesa do processo de liquidação, o presidente do BC diz que o trabalho dos técnicos é de buscar, ao máximo, preservar as instituições, e atribuir responsabilidades às pessoas que ocupavam a linha de frente. “Não cabe penalizar a instituição. Ela é vítima de um eventual problema cometido por quem tomou decisões. A investigação do caso do Banco Master é das pessoas.”
Segundo Galípolo, é preciso ter a compreensão de que o problema, no caso do Master, não foi em oferecer rendimentos bem acima do CDI, mas sim na garantia de que esses pagamentos seriam honrados.
Ainda no evento da ABBC, Galípolo também agradeceu o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que tem dado declarações públicas de apoio à autoridade monetária na condução durante o episódio do Master.
Ele ainda citou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o indicou, ainda em agosto de 2024, para o comando do BC. Ele assumiu a cadeira de Roberto Campos Neto, que deixou o posto em 31 de dezembro daquele ano.
“Agradeço a Deus por estar passando por um processo como este tendo o presidente Lula no comando. Não só pela forma como ele reforçou a autonomia do Banco Central e da Polícia Federal, mas pela tranquilidade de que ninguém nos pergunte o que está sendo descoberto”, afirmou.
“A experiência dele, que já passou por muitas crises durante seus governos, é muito importante”, completou Galípolo. Ao contrário do que ocorreu em outros momentos de sua fala, quando recebeu aplausos expressivos, as palmas, após a fala sobre Lula, foram mais contidas pela plateia do evento.