O Brasil é vítima de uma doença grave, que é a crise fiscal, sendo que a condição é agravada por uma profunda crise institucional que atinge os três níveis do Poder. O diagnóstico é do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, destacando que a situação fragiliza o País, que pode viver novas crises econômicas e que não consegue se preparar para crescer.

"O Brasil tem muitas oportunidades para crescer, mas elas são rotineiramente desperdiçadas", disse ele, na quinta-feira, 26 de março, durante participação no South Summit Brazil, evento do qual o NeoFeed é parceiro de mídia. "

Do lado econômico, ele disse que a situação é peculiar. Ao mesmo tempo em que passa por um período de "razoável crescimento", na casa dos 3%, e o desemprego está baixo, as contas públicas estão desarranjadas, resultando em juros muito altos. "A conta não está fechando", afirmou.

Fraga, que também é fundador e chairman da Gávea Investimentos, disse que a situação exige medidas enérgicas e imediatas, algo que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não admite, falando apenas de ajustes pontuais.

Dentre as medidas necessárias estão uma nova Reforma da Previdência, que "precisa ser caprichada", além de uma reforma administrativa, especialmente nos Estados. Segundo Fraga, as duas contas representam quase 80% do gasto primário e precisam ser ajustadas.

Ele destacou que essa agenda não substitui a necessidade de tratar da situação das instituições. Em meio ao escândalo do Banco Master, cujo nome não foi citado na apresentação, Fraga afirmou que o Estado brasileiro foi capturado por alguns atores com agendas particulares e pouco republicanas, com consequências nefastas.

"Muito da desigualdade do Brasil, que é imensa, vem disso, da falha do Estado", afirmou. "Não deixa de ser uma situação de alocação de recursos prejudicada, porque as decisões de gastos são influenciadas por motivos que não são para o melhor desenvolvimento do Brasil."

Segundo ele, a situação também evidenciou a incerteza institucional que o País enfrenta, em todas as instâncias, com decisões estranhas em diversos momentos. "O sistema se protege, as CPIs não andam, e processos param de avançar nas várias cortes", disse.

Essas crises são agravadas pelo fato de que o Brasil cresceu pouco desde o Plano Real, com taxa de crescimento média do PIB per capita de 1,3%, abaixo dos 3,1% apurados nos quase 50 anos até a década perdida de 1980, e que não houve avanços significativos na taxa de investimento e na qualidade da educação.

"Houve uma total falta de foco em educação, o Brasil seguiu com um modelo de economia fechada, não estava se atualizando, submetido às pressões e oportunidades globais", afirmou Fraga. "O Brasil perdeu o trem."

Ainda que reconheça que a situação seja complexa, Fraga disse que os problemas brasileiros são passíveis de conserto. Mas, para isso, ele afirmou a polarização política precisa acabar. "Não acredito que a situação polarizada vai dar uma resposta", disse.

E emendou sua apresentação falando apenas qual a sua preferência para as eleições de 2026: o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, para a alegria do público presente.