No dia seguinte ao envio dos documentos do leilão do Tecon Santos 10 pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) para a Antaq, a JBS Terminais - braço da holding que opera um terminal de bandeira branca no Porto de Itajaí, em Santa Catarina, desde 2024 - analisou a possibilidade de participação da empresa no certame que deve ocorrer até o fim do primeiro trimestre.

“Estamos ativos, observando as oportunidades, mas ainda não sabemos o montante de investimentos necessário, a quantidade média de contêineres que seria necessária de operar e as regras finais sobre o leilão para saber se é aderente à nossa estratégia”, disse o CEO da JBS Terminais,  Aristides Russi Jr., em encontro com jornalistas em Itajaí, em Santa Catarina.

Para garantir a segurança jurídica e a viabilidade competitiva do certame, o MPor acolheu as recomendações e determinações do Tribunal de Contas da União (TCU), principalmente aquelas que falam sobre a concentração de mercado. E foi estabelecido um valor de outorga mínima de R$ 500 milhões - bem abaixo dos R$ 6 bilhões previstos pelo mercado, montante que certamente limitaria a disputa a gigantes internacionais do setor.

"Nesse momento, estamos precisando ainda que os papéis estejam disponíveis para todo mundo analisar. O que podemos dizer é que provamos que somos capazes de gerar eficiência e agregar valor na cadeia do nosso cliente”, afirmou Russi Jr.

O executivo disse que espera uma grande concorrência internacional no Tecon 10, mesmo porque não há previsão de outros leilões portuários de grande porte no médio prazo no País.

A participação da JBS Terminais no leilão ganhou força após o longo – e polêmico – processo de elaboração do modelo do edital proposto pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários. E rumores começaram a aparecer sobre uma possível união de forças entre a empresa e a gigante filipina ICTSI no leilão.

Mas o CEO desconversou sobre o interesse da JBS Terminais em fazer parceria com alguma operadora internacional de grande porte, uma vez que o ativo a ser leiloado em Santos tem uma capacidade muito maior do que o terminal que a JBS opera em Itajaí.

No porto catarinense, o terminal da JBS conta com 1.030 metros de cais e quatro berços de atracação em 180 mil m² de área. A infraestrutura inclui ainda 1.750 tomadas para contêineres refrigerados e oito gates reversíveis. Desde que assumiu a operação do terminal de contêineres do Porto de Itajaí, em outubro de 2024, a JBS Terminais investiu R$ 130 milhões. A previsão é de mais R$ 90 milhões no novo ciclo de investimentos.

Já o novo terminal em Santos ocupará 622 mil m², ampliando em 50% a capacidade de carga. O leilão deve exigir investimento de R$ 40 bilhões em 25 anos. O projeto prevê até 3,5 milhões de TEUs/ano – cada TEU representa um contêiner de 20 pés, ou cerca de 6 metros –, quatro berços de atracação e um terminal de passageiros. Em Itajaí, a JBS prevê aumentar a movimentação de contêineres para 528 mil TEUs em 2026.

Cunho político

Um especialista do setor ouvido pelo NeoFeed, que não quis se identificar, disse que todo o processo de elaboração do edital, e as sugestões do TCU, indicam uma “movimentação clara e de cunho político em diversas instâncias” de modo a beneficiar novos entrantes.

A primeira fase fica restrita a empresas sem operação de contêineres no porto, para evitar concentração de mercado – o que praticamente afastou os grupos MSC, Maersk, associados na BPT, além da CMA CGM e DP World, da disputa.

Se não houver interessados - hipótese pouco provável de ocorrer, pois ao menos 10 grandes empresas globais do setor devem participar do leilão -, a disputa será aberta aos atuais operadores de contêineres em Santos. Dessa forma, caso um armador (empresa dona de navios) vencesse a disputa, a companhia seria obrigada a se desfazer do seu ativo atual.

No ano passado, a JBS Terminais contratou executivo Márcio Guiot como novo diretor de desenvolvimento de novos negócios da empresa. Guiot atuava como presidente do Porto de Suape, em Pernambuco, operado pela ICTSI.

Outra fonte do setor com trânsito na ICTSI afirma desconhecer eventual parceria da empresa filipina com a JBS Terminais. “A ICTSI normalmente entra sozinha nesse tipo de projeto”, diz.

A participação de gigantes internacionais é outro ponto controverso. A gigante chinesa Cosco, que transporta cerca de 10% dos contêineres em circulação no planeta em mais de 500 navios, sendo a quarta maior armadora global (perde apenas para a suíça MSC, a dinamarquesa Maersk e a francesa CMA CGM), ficou alijada da disputa se entrar sozinha no certame.

Neste terça, 13 de janeiro, a Cosco anunciou ter entrado com pedido de reexame do Acórdão nº 2894/2025-TCU, que sugeriu a exclusão de armadores internacionais do leilão.

A empresa alega incompetência do TCU em fazer a sugestão, além de denunciar o excesso de intervenção do órgão, violação a princípios licitatórios, indevida substituição da discricionariedade do regulador e dos órgãos políticos pela discricionariedade do controlador (TCU), ausência de fundamento concorrencial para o veto e necessidade de consulta pública.

(O jornalista viajou a Itajaí a convite da JBS Terminais)