A exemplo do diesel, a volatilidade dos preços do gás liquefeito de petróleo (GLP) causada pela guerra no Oriente Médio abriu na quinta-feira, 2 de abril, uma crise política para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O episódio ameaça colocar em risco o fornecimento de gás de cozinha das distribuidoras e revendedoras à população de baixa renda atendida pelo programa Gás do Povo.
Irritado com o aumento do preço do GLP de mais de 100% aplicado num leilão desta semana da Petrobras – que responde por entre 75% e 90% do GLP vendido no País –, Lula disse que ia anular o leilão, criticando a estatal por contrariar a orientação do governo de não aumentar o preço do gás.
“Foi feito um leilão, com a cretinice e a bandidagem que fizeram com o óleo diesel, com ágio de 100%”, reclamou Lula na quinta, 2 de abril, durante entrevista à TV Record da Bahia. “Como é que você vai permitir que o povo arque com essa responsabilidade? Não vai”, emendou Lula.
O presidente também reiterou a intenção de que a Petrobras “recompre” a refinaria de Mataripe, que recentemente reajustou em 15% o preço do GLP. A refinaria foi vendida pela estatal brasileira em 2021, no governo de Jair Bolsonaro, para o Mubadala, fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos.
A reação do presidente surgiu após as distribuidoras exigirem do governo um aumento do preço pelo fornecimento de GLP ao programa Gás do Povo. Um alto executivo do setor de gás que não quis se identificar afirmou ao NeoFeed que o aumento do preço do GLP a partir do ágio elevado do leilão da Petrobras representa um custo extra de pelo menos R$ 200 milhões por mês para as distribuidoras do País.
Considerado uma das maiores bandeiras sociais da atual gestão, o programa federal Gás do Povo foi instituído no ano passado e garante recarga 100% gratuita do botijão de gás de 13 kg para famílias de baixa renda inscritas no CadÚnico. Ele substitui o antigo Auxílio Gás, do governo Jair Bolsonaro, e hoje atende cerca de 15 milhões de famílias em todos os municípios do Brasil.
O orçamento inicial do programa, de R$ 3,57 bilhões por ano, deve subir para R$ 5,1 bilhões em 2026, conforme previsão da Lei Orçamentária Anual. Novos aportes com a crise de oferta atual podem limitar ainda mais os gastos do governo em ano eleitoral.
A crise começou a ganhar forma na terça-feira, 31 de março, quando a Petrobras respondeu ao aumento de demanda do GLP com a interrupção do fluxo do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, com o leilão no qual vendeu 70 mil toneladas de GLP com preços até 100% maiores que os cobrados na tabela da estatal.
Na prática, a Petrobras repetiu a estratégia recente adotada para o diesel, também impactado pela volatilidade de preços, com vendas adicionais com preços elevados, próximos do mercado internacional.
O total da venda do leilão de terça-feira representa cerca de 11% do volume total de GLP comercializado mensalmente no País. Para se ter uma ideia do aumento registrado, o gás de cozinha num botijão subiu de um preço mínimo de R$ 33,37 para R$ 72,77, ágio de 117% em relação ao preço de referência do polo de Duque de Caxias (RJ).
Dois fatores acabaram ampliando o impacto negativo desse aumento para o governo. O primeiro deles é que, diferentemente do diesel, o preço do gás de cozinha estava congelado desde novembro de 2024 – o que amplifica ainda mais a reação impopular ao aumento.
Além disso, a Petrobras provavelmente não levou em conta a reação ao aumento de preços por parte dos revendedores e distribuidores, que agora ameaçam deixar de fornecer GLP ao programa social se não tiverem reajuste de remuneração – tanto que o leilão causou o afastamento do gerente da área de comercialização da estatal.
“As pessoas sabiam da orientação do governo e da Petrobras: 'não vamos aumentar o GLP'; mas fizeram um leilão contra a vontade da direção da Petrobras", disse Lula, tentando eximir a presidente da estatal, Magda Chambriard, de responsabilidade pelo certame.
Debandada
Às vésperas do leilão, porém, a Abragás – associação que reúne as entidades de classe de revenda de GLP - já havia cobrado do Ministério de Minas e Energia (MME) a atualização dos preços de referência. O mesmo foi feito pelo Sindigás, sindicato que representa as distribuidoras.
“Se o governo não adotar medidas urgentes para estancar essa situação de descontentamento das revendas, o programa corre risco de uma debandada dos credenciados”, advertiu o presidente da Abragás, José Luiz Rocha.
Após as reclamações do presidente Lula sobre os aumentos do preço do GLP, porém, o Sindigás soltou nota na quinta, 2 de abril, afirmando que não se manifesta sobre preços, projeções de preços ou qualquer tipo de estimativa relacionada ao mercado, evitando escalar a polêmica.
“A entidade ressalta que os preços do petróleo e de seus derivados vêm sofrendo forte pressão, em grande parte decorrente de conflitos com impacto relevante sobre a cadeia global do petróleo, o que pode influenciar os custos do GLP e promover eventuais mudanças nas condições econômicas e de mercado na cadeia do produto”, diz a nota.
O drama para as distribuidoras é que, além do custo extra de pelo menos R$ 200 milhões por mês com o aumento do preço do GLP, não há muita margem para aguentar esse impacto.
Segundo dados de 2026 da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), mais de 80% do mercado nacional de GLP está concentrado em quatro grandes empresas do setor: Copa Energia (23,54%), Nacional Gás (21,53%), Supergasbras (21,27%) e Ultragaz (16,43%).
Nos dois primeiros meses do ano, o consumo de GLP no País ficou em 1,16 milhão de toneladas. Somente o formato P13, que é o tradicional botijão de 13 quilos, corresponde a 67,7% do consumo, com 785,5 mil toneladas.
“O preço passado pela Petrobras foi um absurdo, muito acima do praticado”, disse ao NeoFeed o executivo de uma empresa do setor. “E como já começa a ter escassez, nós tivemos que comprar a um valor bem acima do praticado normalmente.”
O risco real é que, caso não haja um reajuste do valor destinado ao programa Gás do Povo de pelo menos R$ 6 por botijão - o que elevaria o gasto anual do governo entre R$ 390 milhões a R$ 450 milhões, dependendo do número final de recargas realizadas - a tendência é que as revendedoras comecem a sair do programa social e deixem de vender os botijões pelo preço estabelecido pelo governo.
“Eu ainda não repassei o valor na venda do botijão e, por enquanto, estou arcando com este custo, mas não vou ter fôlego para mais três ou quatro dias com esse preço”, afirma esse executivo. “As revendas vão deixar de vender e o Gás do Povo vai começar a perder força.”
O problema é que, no caso das distribuidoras, o grande volume de investimentos para a compra de mais botijões, que tem como principal objetivo atender a nova demanda, já foi feito. Dessa forma, o repasse do custo será inevitável.
Segundo o executivo, a única saída é o governo federal aumentar o orçamento do Gás do Povo. “Como ele vai anular o leilão se nós já compramos neste valor mais alto e já faturamos? Não vamos deixar de fornecer botijões, mas vai ser necessário repassar”, diz. “A margem do programa já é pequena; não dá para ficar deste jeito.”
Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e especialista no setor de gás, afirma que a atual crise de preços do GLP e a polêmica sobre leilões da Petrobras refletem falhas de governança e interferência política indevida em uma sociedade de economia mista, como é o caso da Petrobras.
“Subsídios ao GLP podem ser justificáveis – e são – por razões sociais e de saúde, como é o caso do programa Gás do Povo, desde que financiados pelo Tesouro e bem direcionados, não impostos aos sócios minoritários da Petrobras, uma empresa de capital aberto que segue regras rígidas”, disse Rodrigues.
Segundo ele, o governo confunde amenizar volatilidade do mercado com baixar preço na marra. “Há medidas para amortecer volatilidade, como a redução de PIS/COFINS ou uso de reservas estratégicas, como fizeram os Estados Unidos; intervenções de preço para ‘corrigir’ distorções tendem a criar outras”, advertiu. “Politicamente, é mais fácil culpar leilões da Petrobras do que assumir o custo orçamentário de dar reajustes ou oferecer subsídios”, finalizou Rodrigues.