Os cortes forçados da geração de energia solar e eólica centralizada por parte do Organizador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para não comprometer a rede, conhecidos pelo termo curtailment, estão obrigando as empresas de energia a buscarem alternativas para amenizar os prejuízos - que chegaram a R$ 6,5 bilhões no ano passado para as 1.500 usinas renováveis centralizadas afetadas pelos cortes.

Muitas abriram mão de outorgas para construção de novas usinas solares e eólicas, outras partiram para redução de portfólio, com venda de ativos, ou implementaram duríssimos cortes de custos, incluindo demissão de pessoal.

A Renova Energia, empresa da capital aberto que foi uma das pioneiras na instalação de parques eólicos de grande porte no País, partiu para uma solução criativa: a construção de um conjunto de data centers de 85 megawatts (MW) de consumo de energia no entorno do seu Complexo Eólico Alto Sertão III, com 26 usinas entre os municípios de Igaporã e Caetité, na Bahia.

Dedicado a minerar criptomoedas, o centro de dados aproveita a carga gerada pelas pás que está conectada diretamente à subestação do complexo eólico. Quando a energia gerada é impedida de ser injetada na rede pelo ONS, a carga é direcionada ao data center.

“Precisávamos fazer algo diferente para ter resultados diferentes, senão não conseguiríamos sobreviver”, afirma Sandro Yamamoto, diretor de novos negócios, regulação e relações institucionais da Renova, ao NeoFeed.

Com 1,2 gigawatts (GW) em projetos desenvolvidos, implantados e operacionais em quatro estados do Nordeste, a Renova opera também usinas solares e é considerada uma das grandes do setor de energia renovável do País.

Mas, além de enfrentar o pesadelo do curtailment - a média de cortes da energia gerada no Complexo Eólico Alto Sertão III no ano passado foi de 30% -, a empresa enfrentou desafios financeiros entre 2018 e 2020 e saiu da recuperação judicial em fevereiro de 2025.

“Concluímos que não adiantava ficar brigando pelo ressarcimento dos prejuízos do curtailment, assimilamos que eles seriam frequentes e estudamos várias formas de aumentarmos a receita, até chegar à solução do data center”, emenda Yamamoto.

O primeiro passo foi enviar equipe técnica da empresa para o exterior para conhecer os projetos que mais se adequavam à infraestrutura do complexo baiano. O modelo escolhido foi o de data center Tier 1 - que exige menos redundância de fornecimento de energia elétrica, de refrigeração e de conectividade e tem flexibilidade no consumo.

Isso significa que o centro de dados não consome energia 100% do tempo. “Essa flexibilidade permite reduzir carga em determinados períodos, adequando-se às condições do sistema elétrico e aos cortes, tornando a solução compatível com os desafios de curtailment”, emenda o executivo.

Na prática, com esse modelo, o complexo eólico consegue dividir a energia gerada para a rede e para o data center.

“Para essas 26 usinas, existem subestações que coletam a nossa geração e depois levam a nossa energia para grandes subestações da rede básica”, diz Yamamoto. “Instalamos esse data center junto a essa subestação coletora, que é nossa.”

Modelo de negócio

O passo seguinte foi botar de pé o modelo de negócio. Em uma frente, uma equipe da empresa buscou mapear todas as dificuldades para viabilizar o projeto, desde a infraestrutura física na área do complexo até os problemas regulatórios com clientes – a Renova tem também um braço de comercialização de energia.

Foi feito então um amplo planejamento envolvendo a produção de energia. “Para calcular quanto usaríamos de energia no data center, tivemos de listar os contratos de venda que tínhamos - os que estavam acabando, decidimos não renovar”, revela Yamamoto.

Para os contratos remanescentes, a Renova comprou no mercado de energia o que seria necessário para fazer frente a esses compromissos, liberando parte da geração para os data centers.

Outra frente da empresa buscou potenciais clientes para o novo negócio. O projeto, avaliado em R$ 1 bilhão, foi dividido entre a Renova e empresas de data center - Yamamoto não revela quantas ou quais são, por exigência de contrato, mas o NeoFeed apurou com fontes no setor elétrico que pelo menos três empresas de data center, duas delas de grande porte para mineração de criptomoedas e outra menor, já fecharam contrato.

A Renova entra com a geração de energia, além de providenciar toda a infraestrutura para a empresa associada chegar e se instalar, incluindo a parte fundiária, ambiental, elétrica, civil, mecânica, de conectividade e segurança patrimonial. A associada banca a parte mais pesada – os equipamentos que rodam os dados.

Chama a atenção a rapidez com que o projeto saiu do papel e começou a render resultados. “O primeiro contrato foi fechado em março do ano passado, as obras começaram em maio e em outubro já estávamos começando a primeira energização”, diz o executivo da Renova.

A estrutura dos 85 MW de consumo de energia já está pronta, incluindo parte elétrica, civil e mecânica, incluindo contêineres e transformadores. Por enquanto, computadores que somam 42 MW de geração de dados já estão montados, testados e funcionando. O restante de computadores chegará em breve e deverá entrar em operação em três meses, no máximo.

Yamamoto revela que, na prática, o data center já está aliviando o problema do curtailment no Complexo Eólico Alto Sertão III.

“Em janeiro, quando a infraestrutura de data center em operação era pequena, o nosso corte foi de cerca de 65% da energia produzida”, revela. Em março, com boa parte dos equipamentos rodando, o corte caiu para 17%. “Saímos da liderança do ranking de curtailment para fora da lista em apenas dois meses”, comemora.

Victor Hugo Iocca, diretor de Energia Elétrica na Abrace Energia - associação que representa os grandes consumidores de energia elétrica e gás natural – considera positiva a iniciativa da Renova em aproveitar o potencial energético do parque eólico.

“A solução para reduzir o curtailment das usinas renováveis centralizadas, em especial no Nordeste, passa por aumentar o consumo de energia próximo da geração”, diz Iocca. “Com os reforços de transmissão previstos pelo ONS, o curtailment tende a diminuir, mas considero a aposta em sistemas de armazenamento por baterias em usinas existentes com maior potencial para mitigar cortes e integrar renováveis de forma eficiente”, acrescenta.

Complexo Eólico Alto Sertão III, na Bahia

Vista aérea do data center instalado no complexo da Renova

Os contêineres do data center com os aerogeradores ao fundo

O potencial de crescimento de data centers voltados para mineração de criptomoedas, porém,  é visível – a Renova foi pioneira, mas agora começam a pipocar vários projetos com essa destinação. A maioria das empresas de data center mantém segredo de seus planos, mas o setor já detectou ao menos seis projetos em outras regiões do País.

Entre as empresas que já anunciaram projetos, duas se destacam. Uma delas é a Enegix Latam, gigante mundial que anunciou no ano passado a assinatura de um memorando de entendimento com o governo do Piauí para instalar um data center de mineração de bitcoin em Parnaíba.

O data center de até 100 MW no Piauí, orçado em US$ 120 milhões, terá operação baseada em energia renovável e infraestrutura de ponta. A Enegix já opera duas megaestruturas semelhantes no Cazaquistão, de 150 MW e 100 MW.

A Axia Energia já utiliza energia renovável para fazer mineração de bitcoins em seu escritório central, no Rio de Janeiro, numa espécie de projeto-piloto.

“O objetivo da operação com bitcoins não é gerar recursos financeiros e sim testar, em escala reduzida, as necessidades tecnológicas e de infraestrutura de uma operação de data centers, em quesitos como consumo de energia, processamento de dados e soluções de resfriamento”, afirma ao NeoFeed Juliano Dantas, vice-presidente de Tecnologia e Inovação da Axia.

Outro motivo é relativo aos custos. “Apesar de ter uma demanda de tecnologia e infraestrutura semelhante à da operação de data centers, os sistemas de mineração de bitcoins demandam chips de processamento de dados mais baratos”, acrescenta Dantas.

A empresa também planeja montar outro centro de dados para mineração de bitcoins até o final deste ano, provavelmente no estado da Bahia, com investimento previsto de R$ 10 milhões.

Yamamoto, por sua vez, afirma que a Renova prevê a ampliação da infraestrutura no Complexo Eólico Alto Sertão III. “Estamos preparando também toda a nossa região para receber outros tipos de data centers, os de Tier 2 e de Tier 3, que exigem maiores redundâncias e investimentos mais robustos”, afirma. “Já temos infraestrutura preparada com a parte de terra, fundiária e ambiental para agregar mais 600 MW de consumo.”

Segundo ele, o Brasil é um País altamente amigável para os data centers se estabelecerem: energia renovável abundante e muitas regiões disponíveis. E esses centros de dados agora podem ajudar a diminuir o excessivo número de cortes de energia nas usinas renováveis centralizadas do Nordeste.

Na prática, o data center instalado no complexo da Renova está beneficiando até usinas renováveis de empresas concorrentes.

“Em regime normal, quando não tem corte, as nossas usinas estão injetando menos energia na rede, porque estamos abastecendo o data center”, diz Yamamoto. “Ou seja, então é provável que, naquele horário, outras usinas renováveis da região que poderiam ser cortadas acabem sendo poupadas.”