Roma - Não se trata de um aniversário que celebra quatro séculos de uma igreja, a maior do Vaticano, de Roma, e uma das mais famosas do mundo. É um reposicionamento “de marca” com investimentos italianos públicos e privados, estimados em “milhões de euros” (o valor não foi revelado).
Ao apresentar as celebrações pelos 400 anos da Dedicazione (“consagração”, em italiano) da Basílica de São Pedro (quando ela se tornou um local adequado ao culto religioso), a Santa Sé deixou claro que deseja marcar a data olhando para frente e não apenas para o passado.
O cardeal Mauro Gambetti anunciou, em meados de fevereiro, um programa que envolve espiritualidade, inteligência artificial e gestão de fluxo de peregrinos. “O projeto é particularmente significativo, considerando que tecnologias de ponta permitirão que todos possam aprender e interagir com esse novo ecossistema digital”, diz Gambetti, ao NeoFeed.
O vigário é presidente da Fabbrica di San Pietro, instituição criada em 1523 pelo papa Clemente VII (1478–1534) para gerir os tesouros artísticos e arquitetônicos do santuário e atua até os dias de hoje.
A data oficial da consagração é 18 de novembro, dia em que o papa Leão XIV rezará uma missa, mas o Vaticano já está a pleno vapor. O que mais chama atenção na antecipação das comemorações não é o calendário litúrgico, mas o aparato digital em operação desde o anúncio.
Pela primeira vez, os fiéis podem acompanhar as principais celebrações com tradução simultânea por inteligência artificial diretamente no celular.
Basta escanear um QR code disponível na entrada ou em pontos estratégicos para acessar uma plataforma multilíngue (mais de 60 idiomas) com áudio e texto em tempo real. A ferramenta foi desenvolvida em parceria com o Dicastério para a Comunicação (ministério da Cúria Romana) e a empresa Translated, utilizando a plataforma de IA Lara para interpretação ao vivo.
O movimento é simbólico e emblemático. Em um momento em que a Igreja debate o impacto ético da inteligência artificial, a Santa Sé decide incorporá-la oficialmente em seu principal cartão de visita. Não se trata apenas de facilitar o acesso linguístico, mas de ampliar o alcance. O local recebe milhões de peregrinos por ano.
No Jubileu de 2025, 33,5 milhões de pessoas de 185 países passaram por Roma e pelas portas santas, e a tecnologia se confirmou como um instrumento de evangelização.
Entre as novidades anunciadas pelo Vaticano, está uma nova Via Crucis na nave principal da basílica com 14 telas de grandes dimensões criadas pelo artista suíço Manuel Andreas Dürr, escolhido por meio de um concurso internacional. A linguagem combina tradição pictórica clássica com influência da escola florentina.
Em paralelo, o caminho Quo Vadis permitirá aos visitantes descobrir os testemunhos monumentais dos apóstolos, enquanto uma exposição mostrará os complexos processos de projeto e construção da igreja, desde os esboços de Donato Bramante (1444–1514) até a conclusão por Carlo Maderno (1556–1629).
Também será possível conhecer espaços historicamente inacessíveis. O terraço completo, com três seções em formato de leque, poderá ser visitado, assim como as Salas Octogonais, onde estão os modelos originais feitos pelo arquiteto Antonio da Sangallo, o Jovem (1484–1546), e o desenho da cúpula de Michelangelo Buonarroti (1475–1564).
O renascentista, inclusive, inspirou a tipografia digital “Michelangelus”. A fonte reproduz com precisão letras e números do artista, transformando-os em verdadeiras obras de arte, e será disponibilizada gratuitamente no pacote Microsoft Office, resultado de uma colaboração de longa data entre o Vaticano e a empresa.
Será implementado também um sistema de reservas em tempo real, batizado de Smart Pass, permitindo organizar o fluxo de visitantes com eficiência, especialmente em períodos de grande movimento. É uma tentativa clara de equilibrar abertura e preservação.
No mesmo contexto, o ponto de alimentação localizado no grande terraço será ampliado para acomodar melhor o fluxo de peregrinos durante o ano comemorativo. Parte da imprensa italiana chegou a noticiar que seria instalado um bistrô panorâmico na cúpula, o que gerou muita repercussão e foi desmentido.
Fontes vaticanas esclareceram que não se trata de um restaurante e a expansão será discreta, respeitando o contexto sagrado do local. “Um lugar para fazer uma parada, comer um pedaço de pizza, um panino (sanduíche)”, confirma o cardeal Gambetti.
No campo estrutural, o programa Além do Visível, desenvolvido em parceria com a multinacional italiana de energia Eni, prevê um sistema integrado e permanente de monitoramento da estabilidade da igreja, aplicando engenharia de ponta para proteger um monumento que atravessou séculos, guerras e transformações urbanas.
Pela primeira vez, o edifício foi estudado e mapeado com precisão milimétrica, do solo ao subsolo.
Sensores acompanham em tempo real o estado de conservação, incluindo pontos estruturais sensíveis, como o pilar da Verônica, peça que sustenta o tambor da cúpula e recebe seu nome em referência à tradição cristã da santa que teria enxugado o rosto de Jesus a caminho do Calvário.
“Aquilo que não se vê é talvez a parte mais poética e fascinante desta ação”, apontou Fabrizio Mastai, engenheiro civil da Eni. Ao final da coletiva de imprensa, o cardeal Gambetti evocou o papa Júlio II (1443–1513), que no século XVI, em 1506, decidiu demolir a antiga edificação erguida pelo imperador Constantino (c. 272–337), sobre a suposta tumba de São Pedro, para construir a atual, que demorou 120 anos.
Se naquele tempo o projeto exigiu destruição, hoje, afirmou, “a tecnologia permite renovar sem derrubar”. A Basílica de São Pedro está pronta para mais 400 anos.