Por mais de um ano, a imagem da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, apareceu quase que diariamente no noticiário de todo o mundo por sua liderança empática e abordagem ousada, mas profundamente humana, nos estágios iniciais da pandemia da Covid-19, ao longo de 2020.

Sua estratégia de “Covid-zero” funcionou de forma extraordinária nesse período, quando o país fechou rapidamente suas fronteiras, impôs quarentenas rigorosas e praticamente eliminou o vírus por mais de um ano. Com isso, salvou milhares de vidas, enquanto o resto do mundo enfrentava colapsos hospitalares.

A estratégia transformou Jacinda em símbolo global de liderança eficaz, baseada na proteção da população e na ideia de que o Estado deveria priorizar o bem-estar e a felicidade da nação em vez de apenas o PIB. Quando a Covid-19 finalmente se espalhou em 2021 e os custos econômicos e psicológicos se acumularam, porém, muitos passaram a ver suas medidas não mais como proteção.

O sucesso inicial criou expectativas impossíveis de sustentar e a primeira-ministra foi acusada de controle excessivo, enquanto protestos da extrema-direita derrubaram sua popularidade. Mesmo assim, a Nova Zelândia teve taxas de mortalidade por Covid-19 entre as mais baixas da OCDE, com estratégias usadas em outros países, ao preservar a capacidade do sistema de saúde.

Embora sua política de enfrentamento tenha sido posteriormente revista e substituída por medidas de mitigação à medida que a pandemia avançava, os números iniciais e finais, com poucos casos, poucas mortes (3.249 em uma população de 5 milhões) e intervalos sem transmissão comunitária, se sobressaíram no cenário global como exemplo de resposta eficaz durante as fases iniciais da crise sob sua liderança.

A história de como tudo isso aconteceu chega ao Brasil pelo livro Um tipo diferente de poder – Memórias de uma líder humanista, escrito pela própria Jacinda Ardern. É, principalmente, uma autobiografia política da mulher que se tornou a mais jovem chefe de governo da história de seu país, com apenas 37 anos, e conciliou a maternidade com os desafios e as pressões do poder.

Filha de um policial e uma cozinheira escolar, criada dentro da Igreja Mórmon em uma comunidade em decadência na pequena cidade de Murupara, Jacinda descreve sua formação como de uma pessoa conscienciosa, ansiosa e nunca realmente segura de que era boa o suficiente para os cargos que ocupou na vida. Não foi diferente quando se tornou primeira-ministra.

Ela descreve a pobreza à sua volta, a violência de gangues e a importância da família em sua formação como experiências que influenciaram seus valores políticos e humanos. Na adolescência, entrou para o Partido Trabalhista e se dedicou ao trabalho voluntário em campanhas eleitorais e como pesquisadora.

Serviço: Um tipo diferente de poder - memórias de uma líder humanista, de Jacinda Ardern; 352 páginas; Objetiva; R$ 89,90

Em seguida, estudou no Arizona, nos Estados Unidos, e depois trabalhou com política no Reino Unido, antes de ser convencida a incluir seu nome na lista do seu partido como possível deputada. Pelo menos em sua versão, tornou-se uma quase por acaso e acabou por liderar seu partido com pouco mais de 30 anos de idade, graças a um “senso esmagador de responsabilidade”.

Escrito com uma sinceridade incomum, como o momento em que espera o resultado de um exame de gravidez sentada no vaso sanitário da casa de uma amiga e faz conjecturas sobre sua ascensão política que poderia levá-la a se tornar primeira-ministra pelo Partido Trabalhista, seu relato é fluido e com toques de humor e leveza o tempo todo, o que reforça o traço de personalidade que a levou ao topo da política de seu país.

Terceira mulher a ocupar o posto em mais de 150 anos na Nova Zelândia, Jacinda teve uma infância modesta na zona rural, ascendeu na política e governou o país guiada pelo singelo e não menos poderoso princípio da bondade: fazer o justo, o certo e o necessário para a maioria da população.

Ao colocar isso em prática, investiu maciçamente em educação, combateu as desigualdades e se perfilou entre as lideranças mundiais na luta contra a pandemia e as mudanças climáticas.

Entre momentos de dúvida e autoconfiança, e os anos de formação que influenciaram sua abordagem empática à liderança, ela destaca ainda como foi ser primeira-ministra que deu à luz no cargo e de que forma equilibrou maternidade, trabalho-família e as pressões públicas e privadas desse período – escondeu a gravidez até onde foi possível, para evitar investidas machistas contra ela.

As crises durante sua liderança incluíram a erupção do vulcão Whakaari/White Island e os ataques a duas mesquitas de Christchurch, ambos em 2019. A segunda tragédia deixou 51 mortos. Jacinda Ardern conta como liderou a nação no luto e impulsionou mudanças rápidas nas leis de controle de armas depois do ataque.

Se governou de forma diferente, renunciou de forma diferente. Na parte final do livro, a ex-ministra relata a escalada de autodúvida e exaustão que sofreu durante a pandemia, que incluiu uma suspeita de câncer de mama no final de 2022, e como esses acontecimentos contribuíram para sua decisão de renunciar ao cargo em janeiro de 2023, por “não ter mais energia suficiente para continuar”.

Ela faz ainda uma série de reflexões sobre liderança, poder e empatia, além de insights e sua esperança de inspirar futuros líderes a considerar o serviço público como um chamado motivado por bondade e propósito. Parece sincera quando escreve: “Ao longo de minha curta vida achei que a qualquer momento eu não daria conta e, independentemente do que fosse, não tinha nada que me meter a fazer o que estava fazendo.”

Por isso, “eu acreditava ter uma personalidade que combinava mais com o trabalho nos bastidores. Eu era a pessoa que fazia, de forma discreta e constante, tudo o que precisava ser feito. Não tinha força para ser uma política de verdade. Não tinha jogo de cintura o suficiente nem era forte o bastante. Era idealista e sensível”.