Uma das obras de história mais ambiciosas nos últimos 50 anos é o aclamado A tragédia de um povo: A Revolução Russa (1891–1924), de Orlando Figes, historiador britânico e professor do Birkbeck College, da Universidade de Londres. Com quase mil páginas, a edição é considerada a interpretação mais abrangente e impactante escrita sobre o colapso do regime czarista e a ascensão do poder bolchevique, que deu origem à União Soviética, entre 1917 e 1924.

Mais do que uma história política tradicional, sua vasta pesquisa se consolidou como uma síntese que combina rigor acadêmico, narrativa literária e profunda sensibilidade humana para dar visibilidade às incontáveis vítimas e não apenas aos protagonistas da Revolução Russa — “um dos maiores eventos da história mundial”, responsável por moldar o século 20.

Figes oferece algo além da cronologia dos acontecimentos, construindo um retrato dramático da experiência vivida por milhões de russos comuns. Esgotada há mais de 25 anos no Brasil, onde um exemplar chega a custar mais de R$ 1 mil nos sebos, a narrativa volta às livrarias brasileiras como leitura imprescindível para quem quer conhecer o mundo hoje e os resquícios da experiência autoritária e distorcida soviética.

Figes volta há cerca de duas décadas e meia antes do que ele define como a “erupção compacta de 1917” — quando, em 1891, a fome colocou a sociedade russa em rota de colisão com a autocracia czarista.

De lá até a morte do líder bolchevique Vladimir Lenin, em 1924, aconteceu na Rússia “todo um complexo de diferentes revoluções”, desencadeadas pela Primeira Guerra Mundial e seguidas por guerras civis e conflitos étnicos.

Para o historiador, não era inevitável que tudo desembocasse na ditadura socialista — embora a leitura restrita ao “ano fatal” de 1917, como faz a maioria dos livros, leve a essa conclusão. Houve momentos em que a Rússia poderia ter seguido “um curso mais democrático”, defende o professor na introdução.

O fracasso dessa alternativa está ligado a “profundas raízes culturais, políticas e histórico-sociais” do povo russo, sustenta ele. Como, por exemplo, a ausência de freios institucionais ao despotismo, a fragilidade da sociedade civil liberal, a violência no campo e o “estranho fanatismo da intelligentsia radical russa”.

Esses elementos atravessam toda a narrativa e ajudam a explicar por que as oportunidades de mudança democrática não prosperaram após o fim do regime czarista. Embora a política esteja sempre presente, Figes define seu trabalho como “uma história social” que mudou os rumos da humanidade, centrada na “gente comum”.

Ele rejeita tanto a versão “de baixo para cima” quanto a leitura “de cima para baixo” típica da Guerra Fria, que via o povo como mero objeto das “malévolas maquinações bolcheviques”.

Com 992 páginas, o livro custa R$ 249,90 (Foto: Divulgação)

Para Figes, os russos não foram apenas vítimas do bolchevismo, mas também protagonistas de sua própria tragédia( Foto: orlandofiges.com)

O historiador buscou um retrato mais complexo das relações entre o partido socialista soviético e a sociedade. A conclusão de Figes parte de uma provocação inspirada no escritor Máximo Gorki: “Não acredito que em pleno século 20 haja algum povo traído”.

Para ele, a ideia central é dura: os russos não foram apenas vítimas do bolchevismo, mas também protagonistas de sua própria tragédia.

O sistema soviético, argumenta o autor, não caiu do céu nem foi imposto por forças externas. “Nasceu e fincou raízes no solo russo” alimentado por séculos de servidão e autocracia imperial.

A revolução, segundo ele, derrubou o czar, mas não criou uma cultura de cidadania. Nesse contexto, “a fraqueza democrática vinha de longe”.

Mesmo após 1917, quando parecia haver uma chance de mudança, o país não conseguiu consolidar instituições livres. Em pouco tempo, uma nova autocracia, agora de cunho socialista, tomou forma, “sob muitos aspectos, similar à antiga”.

O problema estava na maneira como o poder era entendido na Rússia. Não como lei ou contrato entre cidadãos, mas como força e dominação. Em síntese, tratava-se de saber “quem manda em quem”, na expressão atribuída a Lenin.  Assim, a queda da monarquia foi vista por alguns como a “vingança dos servos”, que desembocou em terror e guerra civil.

Havia sinais de modernização e crescimento de uma esfera pública. Mas as oportunidades foram sufocadas pela violência e pela falta de reformas profundas. O ideal socialista prometia “refazer o mundo”, como dizia a Internacional, mas o experimento acabou por produzir repressão em larga escala.

Figes sustenta que o fracasso do projeto soviético se deveu menos à “malícia” de seus líderes e mais à inviabilidade de seus princípios. A aposta de que a Rússia seria a centelha da revolução socialista mundial não se confirmou no decorrer das décadas seguintes.

Isolado, “o regime que virou ditadura, comandado por Stalin e que instituiu o massacre de dezenas de milhões, fechou-se para si e recorreu à industrialização forçada e à repressão”.

Figes conclui que o colapso da União Soviética não encerra a história. Ao contrário: “Os espectros continuam nos assombrando. Sem democracia sólida, as velhas tentações autoritárias podem sempre retornar”.