É uma vergonha! É um escárnio! Um completo absurdo! A notícia (leia a reportagem) de que Daniel Vorcaro pagou, por meio de um fundo, R$ 20 milhões para o ministro do Superior Tribunal Federal, Dias Toffoli, por uma participação em hotel no interior do Paraná, já bastaria para que, qualquer magistrado sério, se dissesse impedido de julgar. Mas não. O dono da toga, que, só agora se sabe, foi dono do hotel Tayayá (leia reportagem), diz que vai continuar à frente do processo. E a sociedade que se dane.
Toffoli, segundo perícia da Polícia Federal no aparelho telefônico de Daniel Vorcaro, aparece conversando sobre dinheiro com o ex-banqueiro que deixou um rombo de mais de R$ 50 bilhões (leia reportagem) para o Fundo Garantidor de Crédito. O dono do liquidado Master, que é acusado de fraude de R$ 12 bilhões ao BRB (leia reportagem), surge falando também com Fabiano Zettel, seu cunhado e operador, sobre pagamentos à Toffoli.
Só agora parece fazer sentido as estapafúrdias medidas adotadas por Toffoli ao longo desse processo (leia a coluna de Miriam Leitão). O juiz, que ascendeu ao STF depois de uma “brilhante” carreira como advogado do PT, vai julgar um caso no qual ele pode aparecer como um possível investigado pela PF. E ninguém, com exceção da Polícia Federal que enviou os detalhes (leia reportagem) ao presidente do STF, Edson Fachin, toma alguma medida sobre isso.
O brasileiro está tão anestesiado com tantos despautérios que vêm acontecendo que pouco reage. É como a violência de cada dia que vemos nos jornais. Mais um morreu assassinado? Mais um assalto? Mais um crime? Nada fora do normal, segue o jogo. O banqueiro pagou o ministro do STF por uma participação em um hotel que ninguém sabia que ele tinha? Ah! É assim mesmo, vai dar em nada.
Se não fosse o Banco Central, a Polícia Federal e a imprensa séria, tudo teria ido para debaixo do pano. Uma alta autoridade disse recentemente em conversa com o NeoFeed sobre o escândalo do BRB: “Se não fosse a imprensa profissional, eles teriam 'tratorado' e a sociedade ia ter de engolir esse escândalo.” Ainda estão tentando, de todos os lados, que a sociedade engula.
O problema é que ficou indigesto demais, até mesmo para uma nação entorpecida por sucessivos escândalos. Um empresário com trânsito em Brasília disse ao NeoFeed que Vorcaro mudou o jogo. “Na Lava Jato, as empreiteiras tinham políticos no bolso”, diz ele. “Agora, é diferente. Ele tem ligação com políticos de todas os matizes, principalmente do Centrão, e escalou as relações para o Judiciário.”
Vão me dizer que a compra de um hotel no interior do Paraná surgiu como um bom negócio, do nada? Que – Meu, Deus! – coincidência das coincidências ser de propriedade do ministro do STF? Vão me dizer que um contrato de R$ 129 milhões (leia a reportagem de Malu Gaspar) com um escritório de advocacia da esposa do ministro do STF, Alexandre de Moraes, é normal? Por mais competente que essa banca seja, o valor passa de longe do praticado no mercado.
As notícias dão conta que os investigadores da Polícia Federal encontraram conversas comprometedoras de Vorcaro com pessoas de todos os poderes desde 2022 (leia reportagem de Daniel Rittner). Outro empresário, também com trânsito em Brasília, diz que Vorcaro tinha certeza da impunidade por estar impregnado em todos os poderes. No depoimento que deu à PF no fim do ano passado, ele disse que tinha “amigos em todos os poderes”. Vorcaro teve até reunião fora da agenda com o presidente Lula.
As costas dele, ao que parece, ainda estão quentes. A PF diz que ele tentou fugir (leia a reportagem). Foi preso e solto uma semana depois. A PF investiga o pagamento de influenciadores contratados pelo Master (leia a reportagem) para atingir a credibilidade do BC, principalmente do ex-diretor Renato Gomes, que barrou a compra do banco pelo BRB (leia a reportagem). Detalhe: isso aconteceu enquanto Vorcaro já trajava tornozeleira eletrônica.
Ele ainda está por aí, tomando seu café da manhã, comendo seu pãozinho de queijo mineiro no conforto de casa e, claro, acompanhando as notícias do sofá. Mas, como estamos acostumados, nada mais espanta. É só mais um escândalo na fila. E, assim, o Brasil segue. Para onde, é que ninguém sabe.