Duas preocupações estão no radar do empresário Eduardo Peres, CEO do Grupo Multiplan. Uma delas é o desequilíbrio fiscal do poder público. A outra, e mais atual, é o avanço da discussão da redução da jornada de trabalho 6x1, passando de 44 horas para 40 horas semanais.

Para Peres, caso o projeto em discussão em Brasília e defendido pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, tenha seguimento, o crescimento do Brasil será afetado. O empresário entende que o tema precisa ser melhor discutido pela sociedade, com uma análise detalhada por setor. No caso do varejo, segundo o CEO, o impacto será muito negativo.

A ideia do Planalto é avançar com a proposta até o fim de maio, para servir de vitrine eleitoral, enquanto o empresariado tem pressionado para que a medida só seja votada após a eleição de outubro e preferencialmente em 2027, com uma nova composição do Congresso Nacional.

“Nenhum país consegue evoluir trabalhando menos e sem investir em educação. Shopping abre todos os dias. Se uma pessoa quiser trabalhar todos os dias, ela não pode? Não é a redução de jornada que vai trazer produtividade para o país”, diz Peres, em entrevista ao NeoFeed, após reunião pública da companhia, na terça-feira, 7 de abril.

Estudo recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que uma possível adequação à nova regra, de 40 horas semanais, poderia gerar R$ 122,4 bilhões em custos anuais para o comércio, elevando a folha salarial em 21%. O repasse de preços ao consumidor poderia chegar a 13%.

Segundo Peres, no setor de shoppings, o impacto direto será justamente o aumento nos preços pelos lojistas, caso a medida realmente avance e seja implementada. “Se aumentar os custos, eles vão aumentar os preços. E, se aumentar o custo, o Brasil vai ficar mais eficiente? Não”, afirma.

Com esse cenário e a indefinição sobre a perspectiva de um ciclo real de queda de juros, agravada pela guerra do Irã e dos Estados Unidos, a Multiplan tem se concentrado nos projetos de expansão e revitalização, que são mais rápidos e que geram mais rentabilidade para os shoppings. Com isso, projetos greenfield (contruções do zero) de novas construções seguem fora do radar.

Em 18 de março, a Multiplan entregou a sexta expansão do Morumbi Shopping, com mais 13 mil metros quadrados (m²) de área bruta locável (ABL) e 40 novas lojas distribuídas em dois pavimentos. O investimento foi de R$ 400 milhões.

Com a nova área, o shopping na Zona Sul de São Paulo ultrapassou o Barra Shopping, no Rio de Janeiro, e pela primeira vez na história passou a ser a unidade líder de vendas da companhia. No período, o crescimento foi de 30% em receita.

Para 2026, a empresa ainda deve entregar expansões dos BH Shopping (em 2 de junho), com mais 2 mil m² de ABL e capex de R$ 30 milhões; do Barra Shopping (no terceiro trimestre), com mais 2 mil m² de ABL e investimentos de R$ 35 milhões; e o ParkShopping Brasília (em 18 de novembro), com acréscimo de 9 mil m² de ABL e capex de R$ 300 milhões.

Em 2027, serão feitas as expansões do ParkShopping São Caetano (mais 9 mil m² de ABL), JundiaíShopping (mais 8 mil m² de ABL) e mais uma do BH Shopping (13 mil m² extras de ABL). Entre 2023 e 2025, a companhia investiu R$ 540 milhões na modernização de 19 de seus 20 shoppings.

Nos últimos cinco anos, a empresa alocou R$ 7,8 bilhões, distribuídos em investimentos de melhorias, expansões e novas obras (R$ 3 bilhões), e em pagamentos de proventos e recompras de ações (R$ 4,8 bilhões).

A Multiplan fechou 2025 com Ebitda de 2 bilhões (alta de 8,4%) e R$ 25,9 bilhões em vendas de lojistas. O lucro líquido foi de R$ 1,14 bilhão, mantendo o patamar acima de R$ 1 bilhão pelo terceiro ano consecutivo.

No acumulado de 12 meses, as ações MULT3 registram valorização de 40,8% na B3. A Multiplan tem valor de mercado de R$ 16,3 bilhões.

Veja, a seguir, trechos da entrevista de Eduardo Peres ao NeoFeed e os temas abordados na conversa:

Redução da jornada

Fico muito preocupado com esta pauta da redução da jornada de trabalho. Isso vai afetar a todos. Não é só o meu negócio. Vai afetar a todo mundo. Nenhum país consegue evoluir trabalhando menos e sem investir em educação. Não conheço nenhum. Não acho que isso pode ser feito dessa forma, de um jeito rápido. Precisa estudar. Dá para fazer? Pode fazer? São todos os setores que podem ser enquadrados e trabalhar desta forma? Na minha visão, a maneira como está sendo colocado pelo governo, vai ser ruim para o Brasil. Meu setor não fecha. Shopping abre todos os dias. Se uma pessoa quiser trabalhar todos os dias, ela não pode? Não é a redução de jornada que vai trazer produtividade para o país.

Impacto para lojistas

O que eu tenho ouvido dos lojistas que operam nos shoppings do nosso grupo é que, se isso for implementado, vai aumentar preço. Se aumentar os custos, eles vão aumentar os preços. E, se aumentar o custo, o Brasil vai ficar mais eficiente? Não. A gente está exportando ineficiência. Quando a gente reduz a nossa jornada, quem trabalha é o chinês, quem trabalha é o americano. A CNI fala que a redução pode diminuir o PIB em R$ 76 bilhões. Muita gente vai repassar. Não tem jeito. A gente vai contribuir, enquanto setor, nas discussões em Brasília, tentando levar elementos para que uma decisão dessas não seja tomada de uma forma abrupta e que vai afetar o país inteiro. Para o setor de shoppings, isso é muito ruim.

Taxa de juros e guerra

Não sei se teremos um ciclo de queda da Selic. Até porque agora temos um impacto da guerra do Irã e dos Estados Unidos. Difícil a gente imaginar para onde vai. Parece que os Estados Unidos subestimaram o impacto da guerra. Está durando muito mais do que eles queriam. E já há impactos grandes. Querosene de aviação subindo, custos de construção aumentando. Ainda não houve impacto no consumo, mas, se a guerra continuar, vai chegar. E aí chega no shopping. Mas não acredito que deva durar muito mais.

Fernando Haddad e Dario Durigan

Não conheço o novo ministro da Fazenda. Como, tampouco, conhecia o Haddad. Eu sempre torço para quem se sentar na cadeira possa ter a cabeça no lugar, fazer a coisa certa, equilibrar as contas do país e trazer uma condição melhor para a economia como um todo.

Cenário eleitoral

Vamos ver quem vai ser a pessoa que vai tocar o Brasil daqui para a frente, a partir da eleição de outubro. Qual é o compromisso que ela vai ter com o equilíbrio fiscal. Essa é a minha preocupação. Não estou preocupado se ele é A ou B. Quero saber se aquele que vai ganhar irá continuar gastando sem fim, cobrando imposto de todo mundo, ou não. Ou se vai entender que não dá para ficar aumentando impostos de empresários sem diminuir o tamanho da máquina pública. Precisa ser feita uma reforma administrativa. A gente precisa ficar atento para a questão da segurança jurídica. Quando uma grande empresa investe em um país, ela olha o equilíbrio econômico e como é a justiça neste lugar. Espero que as coisas melhorem no ano que vem, em termos de ambiente econômico, para que mais empresas possam se instalar.

Desequilíbrio fiscal

Não há só dois candidatos, mas há duas visões bem distintas. A turma da esquerda está mais na linha de seguir gastando. Isso não é sustentável. O Brasil não aguenta mais. Neste cenário, a carga tributária tem de crescer todo ano para suportar esta gastança. Isso significa que, para a gente retomar a possibilidade de um projeto greenfield, precisa haver clima para olhar para o lado de fora da companhia. Por enquanto, as melhores oportunidades que consigo enxergar são olhando para dentro da empresa, a partir dos projetos de expansão. Não há clima para novas construções.

Expansões dos shoppings

A empresa tem feito, ao longo dos anos, estes movimentos de expansão e de consolidação. Quando meu pai [José Isaac Peres, fundador da Multiplan] começou lá atrás a construir os shoppings, ele teve a oportunidade de fazer 20 em vez de cinco, inicialmente. Mas ele refletiu se teria sido melhor cinco bons ou 20 fracos. Esse pensamento ainda temos. Por isso que, por enquanto, vamos avançar e melhorar os que já temos. E o cenário macro atual praticamente nos empurra mais para este caminho. Para mim, é muito importante consolidar o que já foi feito do que sair construindo para dizer que estou ganhando terreno. Não é isso.

Morumbi Shopping assume liderança

O Morumbi é um exemplo disso. Desde a inauguração da sexta expansão [no dia 18 de março], as vendas aumentaram 30%. Sem levar em consideração a nova área, o crescimento foi de 15%. E pela primeira vez ultrapassou o Barra Shopping. Essa é a força de São Paulo. É um bom projeto em um lugar central. No entorno do Morumbi Shopping, há 100 mil pessoas trabalhando e que podem vir à pé. Eu sentia que era um shopping tímido, com decoração da década de 1980. Ele precisava desta sofisticação. Precisava dessas novidades. E vejo essas oportunidades em Belo Horizonte, em São Caetano e em Jundiaí. Entre 2024, são 50 mil m² de ABL no grupo. É mais um “Morumbi Shopping”. E crescer para dentro às vezes é mais rentável do que crescer para fora. Os resultados da companhia provam isso.

Perspectiva para os próximos meses

Minha expectativa até o fim do ano não muda. Acho que vamos ter um ano bom de vendas. Ano de eleição e de Copa normalmente vende mais. A grande dúvida é sobre ano que vem, a partir do resultado da eleição e como vai ser a política econômica do novo governo. Se for um cenário como atual, vamos seguir fazendo o que a gente já faz hoje. Se for um cenário mais propício para avanços, a gente vai fazer mais coisas. Aí podem ser novas construções, se houver a queda de juros, e se o país deixar.