Um dos casos mais complexos na pauta recente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a fusão entre Petz e Cobasi só recebeu a aprovação do órgão em dezembro de 2025, quase um ano e meio depois de ser anunciada. E após enfrentar a dura resistência de rivais como a Petlove.
Agora, com o sinal verde para seguir em frente, o grupo rebatizado como Petz Cobasi começa, enfim, a colocar em execução as etapas das duas operações. E as ambições nesse processo são condizentes com o porte da companhia resultante da combinação da dupla de gigantes do mercado pet.
“Sabemos os desafios que uma fusão impõe e estamos conscientes e preparados para enfrentá-los. Mas queremos construir o melhor caso de fusão da história do varejo brasileiro”, disse Sergio Zimerman, cofundador da Petz e que, até então, atuava como CEO da rede.
Na esteira da afirmação, feita em call com analistas nesta sexta-feira, 31 de janeiro, a Petz Cobasi oficializou o que já havia sido desenhado na época do anúncio da combinação. Zimerman passará a atuar como presidente do conselho de administração da nova operação.
Já o CEO será Paulo Nassar, um dos membros do clã fundador da Cobasi, que afirmou. “Tenho absoluta consciência de que a maioria das fusões não falha no valuation, mas sim, na execução. Portanto, vamos trabalhar com total equilíbrio, bom senso e valorizando o que cada rede tem de melhor.”
A busca por esse equilíbrio dá o tom na composição do novo conselho de administração. A Petz será representada por Sergio e por sua irmã, Tania Zimerman. Já a família Nassar, além de Paulo, terá mais dois assentos reservados para seus irmãos João e Ricardo Nassar.
O board contará ainda com Cristiano Lauretti, da Kinea, gestora que detém uma fatia de 8% da operação, e três conselheiros independentes: Eduardo Terra, Cláudio Roberto Ely e German Pasquale Quiroga Vilardo.
Nessa mesma linha, a nova diretoria, composta por 9 executivos, contará com cinco nomes egressos da Cobasi e quatro da Petz. Entre eles, Rafael Siqueira, que atuava como CFO da primeira e exercerá o mesmo cargo agora no grupo.
Um dos nomes do time de “ex-Cobasi” também escalado é Odenir Leite, que será o diretor de integração da nova companhia. Até então, ele ocupava o posto de diretor superintendente de digital e omnichannel da antiga empresa.
“Não vamos desviar a atenção e deixar de lado a operação do dia a dia”, disse Leite. “Estamos deslocando um time muito forte para fazer o processo de integração, enquanto outro ficará responsável pela tocada do bumbo e a entrega de resultados.”
Levando-se em conta os 12 últimos meses antes do terceiro trimestre de 2025, a operação parte de uma receita bruta combinada de R$ 7,7 bilhões e um lucro líquido de R$ 1,7 bilhão. E nasce com uma rede de 521 lojas, distribuídas em 23 estados, mais o Distrito Federal, além de quatro centros de distribuição.
Nessa largada, agora sob o mesmo teto, o grupo atualizou as projeções de capturas de sinergias para a operação. Do volume anterior, estimado na faixa de R$ 220 milhões a R$ 330 milhões, para a nova estimativa de R$ 200 milhões a R$ 260 milhões, em até cinco anos.
Leite atribuiu a revisão, para baixo, a dois fatores. O primeiro, as iniciativas de ganho de eficiência implantadas pelas duas companhias, em separado, no intervalo até a aprovação pelo Cade. E, o segundo, a venda obrigatória de 26 lojas, como parte do remédio imposto pelo órgão nesse processo.
“Já ancoramos os remédios a esse novo range”, afirmou Leite. Ele não descartou a possibilidade do fechamento de outras lojas além da venda imposta pelo Cade. Mas ressaltou que, nesse primeiro momento, o grupo estará concentrado no cumprimento das obrigações junto ao órgão.
Integração e alavancas
Já no que diz respeito à integração, o ponto de partida será um trabalho desenvolvido com a consultoria McKinsey nos últimos meses. Como parte dessa jornada, os primeiros 30 dias estão sendo dedicados à combinação dos times das duas empresas.
Na sequência, o plano de 100 dias envolve iniciar a execução das oportunidades de capturas de sinergia mapeadas nesse processo. Posteriormente, alguns dos próximos passos incluem a integração de sistemas e a combinação dos CNPJs, prevista para serem concluídas num prazo de 24 a 30 meses.
“Cerca de 80% dessas sinergias estão concentradas em três pilares – despesas operacionais, otimização comercial e footprint de operações de lojas”, ressaltou Leite. Nassar, por sua vez, destacou quais serão as alavancas de resultado da Petz Cobasi. Entre elas, a expansão coordenada da rede.
“Vamos manter as marcas Petz e Cobasi e vale ressaltar que ambas as companhias seguiram abrindo lojas em 2025 e que esse pipeline será mantido em 2026”, disse o CEO. Ele também frisou que o grupo tem um grande “espaço em branco” a explorar, mesmo já sendo dono de uma grande capilaridade.
“A Petz está em pouco mais de 120 cidades e, a Cobasi, em 94, para um país que tem mais de 3 mil municípios”, afirmou. “Mas faremos isso de forma racional, com os pés no chão. E a estratégia de qual bandeira vai ocupar novos espaço ainda está sendo definida.”
Além de frentes como o omnichannel – hoje 40% das vendas do grupo já têm origem no digital – e das marcas próprias – são 15 ao todo, somando as operações, outra alavanca destacada por Nassar será ampliar a penetração de serviços e dos programas de fidelidade, via vendas cruzadas nas duas redes.
Nesse ponto, o CEO citou alguns dos números que compõem o ecossistema da nova empresa e que abrem caminho para avanços nessa seara. Entre eles, uma rede de mais de 300 unidades de serviços de estética, 15 hospitais, mais de 180 clínicas e consultórios, além de um plano de saúde para pets.
“Os clientes que usam serviços gastam três vezes mais em produtos nas lojas”, disse Nassar. “E nós temos um ativo único nas mãos que precisa e será potencializado.”
Enquanto a Petz Cobasi traça e coloca em prática esses planos, as ações do grupo, negociadas agora sob o ticker AUAU3, registravam alta de 1,75% por volta de 15h na B3. A companhia está avaliada em R$ 2,98 bilhões.