A decisão da saída do CEO global da companhia holandesa Heineken, Dolf van den Brink, que deixa o cargo em 31 de maio deste ano, pode impactar diretamente o resultado da companhia no Brasil, que já sofre com a estagnação do mercado premium de cerveja. A avaliação é do banco Citi, que considera o momento como “delicado” para a cervejaria.
No país, a empresa inaugurou, no fim de 2025, uma nova fábrica na cidade mineira de Passos, que deve garantir um acréscimo de até 500 milhões de litros da bebida por ano, com possibilidade de expansão. Só que o momento do mercado nacional é ruim, o que pode fazer com a nova gestão global pise no freio em mais investimentos.
“A transição de liderança na Heineken levanta uma questão legítima: a empresa continuará investindo no Brasil no mesmo ritmo se os prazos de retorno começarem a se alongar e as métricas de rentabilidade ficarem mais difíceis de defender?”, pergunta a analista Renata Cabral, que assina o relatório.
Somente a construção do parque fabril mineiro representou um pacote de investimentos de cerca de R$ 2,5 bilhões, em dois anos e meio de obras, no modelo greenfield. O valor se insere em um pacote de R$ 6 bilhões, desde 2019, aportados em ações de expansão e modernização. Mas, como aponta o Citi, pode não ser o suficiente para garantir a aceleração das vendas.
Dados da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), levantados pelo NeoFeed, confirmam essa preocupação das companhias do setor sobre o impacto do encolhimento do segmento no País. Números relativos ao terceiro trimestre de 2025 apontam que, nos primeiros nove meses do ano, o mercado cervejeiro encolheu cerca de 6% no país.
Isso significa um volume de 14,7 bilhões de litros de cerveja, projetados para 2025. Essa quantidade representa uma receita de R$ 205 bilhões. O setor premium, onde transita a marca principal da companhia, representa 14% do setor.
O problema para a Heineken, na visão da analista do Citi, é que o pacote de aportes ocorre justamente no momento que a indústria enfrenta um cenário de volumes muito fracos. Também há uma questão de preços, já que a Heineken passou a normalizar os valores somente em julho de 2025, após congelar reajustes a partir de abril de 2024.
Na análise do Citi, a Ambev, que pertence ao grupo AB InBev e é dona de marcas como Brahma, Skol, Antarctica, entre outras, pode se beneficiar desta estratégia adotada até aqui pela rival holandesa. Mas também há desafios para a multinacional brasileira.
“Para nós, esse longo congelamento já era um sinal: a disputa no segmento premium se estreitou, e o portfólio premium da Ambev provavelmente é mais competitivo do que a narrativa predominante sugere. O problema é que os volumes estão tão fracos que até a discussão sobre 'quem está ganhando no premium' parece de segunda ordem”, diz o texto.
Próprio relatório financeiro da Ambev relativo ao terceiro trimestre mostra esse avanço em um território que historicamente era dominado pela dona da garrafa de vidro verde, com uma estrela vermelha no meio.
“As marcas premium e super premium cresceram na casa dos 15%, lideradas por Original, família Stella e Corona, atingindo a liderança do segmento pela primeira vez em dez anos, com quase 50% de participação de mercado, de acordo com as nossas estimativas”, diz o documento da Ambev.
Mas, para Renata Cabral, a empresa ainda não pode brindar essa recuperação. “Para ser claro, isso não transforma a Ambev, de repente, em uma tese fácil. O mercado brasileiro de cerveja continua em queda de volumes, descendo uma escada cujo último degrau ainda não conhecemos, e o que mais nos intriga é a persistência dessa fraqueza. Acreditamos que clima e macroeconomia explicam parte do movimento, mas não tudo”, afirma a analista.
Na outra ponta, relatório da Heineken, também do terceiro trimestre de 2025, confirma a retração de mercado para a empresa, tanto no Brasil quanto em demais mercados globais. No mundo, a queda de volume chegou a 2,3%.
“No Brasil, a receita líquida orgânica caiu na casa dos dois dígitos baixos, com o volume de embarques de cerveja se contraindo nos dois dígitos médios, em parte impulsionado pelo aumento de estoques antes do reajuste de preços implementado a partir de 1º de julho. No acumulado do ano, o volume de embarques de cerveja recua em um dígito médio”, diz a companhia holandesa, em seu próprio relatório.
Olhando para frente, o banco enxerga ainda dificuldades para a Heineken, e para seus pares do setor. Além de explicações como a mudança de perfil no consumo, por parte dos mais jovens, o Citi enxerga que parte do dinheiro que pararia em uma garrafa de cerveja passou a ser usada em apostas esportivas.
“No curto prazo, seguimos esperando um quarto trimestre fraco, e o pano de fundo de demanda continua pouco favorável”, completa a especialista do Citi.
Nem mesmo a Copa do Mundo parece ser um fator preponderante para a mudança do cenário. “No papel, a configuração pode ser mais construtiva: bases de comparação mais fáceis, ano de Copa do Mundo e uma economia de ano eleitoral, que tende a parecer um pouco mais frouxa, com mais dinheiro circulando. Mas não nos empolgaríamos demais.”
Na Bolsa de Amsterdã, na Holanda, as ações da Heineken acumulam alta de 3,53% no cenário de 12 meses. A companhia está avaliada em € 38,5 bilhões.