A CVC Capital Partners, listada na bolsa de Amsterdã, decidiu dar um salto na sua estratégia de crédito nos Estados Unidos com a compra da Marathon Asset Management, gestora baseada em Nova York fundada em 1998 e especializada em diferentes verticais de crédito.

O acordo, anunciado na manhã de segunda-feira, 26 de janeiro, combina dinheiro e ações e ocorre em um momento em que o setor de investimentos alternativos vive uma nova rodada de consolidação, com os grandes players correndo para complementar o portfólio e ganhar escala.

O fechamento do acordo está previsto para o terceiro trimestre de 2026, sujeito a aprovações regulatórias e condições usuais de conclusão. Após isso, está previsto um rebranding para a casa passar a ser chamada de CVC-Marathon.

Pelo desenho da transação, a CVC vai adquirir a Marathon em um pacote que tem duas camadas. A primeira é um valor-base de até US$ 1,2 bilhão, formado por US$ 400 milhões em caixa e até US$ 800 milhões em ações da própria CVC.

A segunda adiciona um componente variável (earnout) ligado ao desempenho financeiro futuro da Marathon: até US$ 200 milhões em caixa e US$ 200 milhões em ações ao longo do período de 2027 a 2029. Ou seja, se as metas forem atingidas, o tíquete total pode chegar a US$ 1,6 bilhão.

O racional da compra passa por uma leitura objetiva: crédito nos EUA é um dos poucos capítulos em que a CVC ainda não tinha densidade comparável à sua presença europeia. E, no mercado atual, “não ter escala” virou sinônimo de perder espaço na disputa por captação e distribuição, especialmente com investidores reduzindo o número de gestores na carteira e concentrando recursos em plataformas mais completas.

Essa prioridade apareceu com clareza na fala de Peter Rutland, promovido a presidente da CVC no mês anterior, no anúncio da aquisição: “O mercado de crédito dos EUA é uma prioridade-chave para nós, e temos trabalhado com paciência, esperando a oportunidade certa de encontrar uma empresa que atenda ao nível excepcional de qualidade de retornos que buscamos”.

A Marathon entra no perímetro da CVC com um conjunto de estratégias que vai além do direct lending tradicional. Segundo o comunicado, a gestora tem posições em asset-based credit, real estate credit, opportunistic credit e public credit nos EUA. Um leque que amplia o acesso da CVC a um mercado grande e em expansão na maior economia do mundo.

Em números, a Marathon administra mais de US$ 24 bilhões, com uma equipe de cerca de 190 profissionais globalmente. Os fundadores Bruce Richards e Lou Hanover continuam à frente, coliderando as estratégias de crédito.

Do lado da CVC, o impacto é imediato nas métricas de escala: a combinação deve elevar em mais de um terço os ativos sob gestão geradores de taxa (fee-paying AUM) da unidade de crédito, levando o total a € 61 bilhões (US$ 72 bilhões).

No entanto, o mercado não reagiu com entusiasmo imediato a aquisição. Na manhã de segunda-feira, as ações da CVC chegaram a cair até 1,8% no início do pregão em Amsterdã.

Um dos motivos é que o valor e a sinergia da aquisição só entrarão no preço da ação em 2028. O investidor vai acompanhar a integração e, principalmente, a capacidade de transformar escala adicional em crescimento orgânico de captação e rentabilidade.

Corrida por escala

O movimento é mais um capítulo da consolidação em curso no private credit global, um mercado que cresceu à sombra de bancos mais regulados e que agora vive um “salto” de M&As, com plataformas buscando escala, novas estratégias e presença geográfica.

O crédito privado cresceu rapidamente nos últimos anos conforme regulações mais rígidas encareceram o crédito bancário para operações com maior risco, abrindo espaço para financiadores não bancários, como gestoras.

Nesse processo, as fronteiras entre buyout firm e credit platform ficaram cada vez mais tênues. Nos EUA, gigantes como Blackstone, Apollo e Carlyle ampliaram suas franquias de crédito e hoje administram volumes relevantes nessa classe ao lado de gestoras de private equity.

Ao mesmo tempo, a indústria vive uma espécie de “efeito funil”: com captação mais difícil, muitos investidores estão reduzindo o número de gestores no portfólio e concentrando recursos em plataformas maiores, com múltiplas estratégias e capacidade de originar em diferentes ciclos. Esse é o combustível para a onda de transações corporativas no setor.

A CVC aparece como uma das protagonistas desse reposicionamento. Na semana passada, a gestora europeia também divulgou um acordo com a AIG para direcionar até US$ 3,5 bilhões de capital da seguradora para estratégias de crédito e secondaries geridas pela CVC.

A consolidação da indústria também acontece porque além dos grandes players buscarem escala, fundadores de casas especializadas começam a olhar para sucessão e liquidez.

O exemplo mais recente veio poucos dias antes: em 22 de janeiro, a sueca EQT anunciou um acordo para comprar a Coller Capital por US$ 3,2 bilhões, em uma movimentação para ganhar uma posição mais forte no mercado de secondaries, um dos segmentos que mais crescem dentro de alternativos.