Criada em 2013 a partir de um spin-off da Abbott Laboratories, a farmacêutica americana AbbVie vai investir R$ 430 milhões no Brasil, em quatro anos, no desenvolvimento de novos medicamentos, principalmente nas áreas de oncologia e imunologia.

O objetivo da empresa é de alocar os recursos, entre 2026 e 2030, em cerca de 100 pesquisas clínicas nos mais de 200 laboratórios credenciados pela farmacêutica no Brasil. O montante é 65% superior ao volume que foi destinado entre 2022 e 2025.

“Vai ser um fluxo contínuo, neste período, para avançar nas pesquisas clínicas no Brasil. E vamos desenvolver este trabalho não apenas nos principais centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Queremos avançar para outros locais, como o Nordeste”, diz Flávio Devoto, general-manager da AbbVie no Brasil, ao NeoFeed.

Segundo o executivo, a ideia é que as pesquisas tenham um resultado mais “continental” no Brasil, abrangendo o maior volume de perfis da população para ampliar os resultados dos estudos da empresa.

Atualmente são cerca de 50 estudos em andamento. Isso significa que, em quatro anos, a companhia planeja triplicar o volume de estudos para novos medicamentos desenvolvidos no Brasil.

O plano ocorre em meio à decisão da matriz em dar mais importância ao mercado brasileiro para a AbbVie. Antes parte da divisão da América Latina, agora o Brasil passa a ser uma unidade própria, para justamente ter acesso mais rápido a novos investimentos.

“Passamos a ter uma linha direta com a companhia. A relação fica mais ágil, facilita a interlocução e conseguimos avançar ainda mais no plano de crescimento no Brasil. Isso também envolve a garantia de mais recursos”, explica.

O País está entre os 10 maiores mercados da farmacêutica no mundo - os Estados Unidos são os líderes e a companhia não revela receita por país.

Hoje a companhia tem um portfólio de cerca de 60 produtos e indicações aprovados no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Entre as pesquisas que devem ser realizadas no Brasil está o desenvolvimento de moléculas para tratamento de obesidade. Uma delas é a ABBV-295, um análogo à amilinina, produzida por células do pâncreas.

Ainda que tenham a mesma atuação de perda de peso, a amilinina caminha em outra avenida ao dos análogos do GLP-1, como a semaglutida (do Ozempic, desenvolvida pela Novo Nordisk) e a tirzepatida (do Mounjaro, criada pela também americana Eli Lilly).

Na prática, a AbbVie planeja entrar nesta disputa bilionária pelas canetas emagrecedoras, mas o desenvolvimento ainda está na fase inicial. Ainda não há prazo para que a empresa passe a ter o produto emagrecedor nas prateleiras nem se será caneta ou comprimido.

“Temos essa pesquisa em nosso pipeline e entendemos que avançar no combate à obesidade é muito importante. Ainda está em desenvolvimento e pode entrar entre os testes realizados no Brasil”, diz Devoto.

No caso das canetas emagrecedoras, a farmacêutica dinamarquesa tentou, via Justiça, ampliar seu período de exclusividade da semaglutida no País. A patente, no entanto, expirou no dia 20 de março, o que deve fazer com que, nos próximos meses, outras farmacêuticas produzam suas versões genéricas.

Para o general-manager da AbbVie, é necessário que o tempo de patente dos medicamentos seja respeitado, o que, na avaliação dele, garante os investimentos das principais farmacêuticas globais em inovação e desenvolvimento de novos produtos.

“A produção intelectual é um fator crítico para a inovação. Só é possível investir se essa questão for garantida, tanto para as companhias brasileiras quanto as internacionais. Quando a patente cai, todo mundo pode produzir. Até lá, é necessário fortalecer essa garantia”, afirma.

Do mercado brasileiro, cerca de 20% da receita de venda de medicamentos da AbbVie vem do sistema público. Os demais 80% estão no segmento privado, prioritariamente das operadoras de saúde. E a tendência é seguir ampliando a participação no setor particular.

“É um mercado de cerca de 55 milhões de pessoas, maior do que a população da Espanha. Enxergo que ainda há muito oportunidade de crescimento para a empresa no setor privado. O que a gente quer é atender o paciente do Brasil”, afirma o executivo argentino, que assumiu em janeiro o comando da operação brasileira.

A companhia hoje tem uma produção local de cerca de 18 milhões de frascos oftalmológicos por ano, realizados em uma fábrica terceirizada em Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo. Além do mercado nacional, parte da produção é exportada para América Latina e África do Sul.

Em 2025, a AbbVie alcançou receita global de US$ 61,16 bilhões, alta de 8,6% sobre o ano anterior. Do total, US$ 46,6 bilhões vieram do mercado dos Estados Unidos, e os demais US$ 14,5 bilhões de outros países. O lucro líquido no período foi de US$ 17,8 bilhões.

No acumulado de 12 meses, as ações da AbbVie acumulam valorização de 15,3% na Bolsa de Nova York. A farmacêutica está avaliada em US$ 364,8 bilhões.