A preocupação do empresário Eduardo Peres, CEO da Multiplan, sobre o impacto da redução da escala de trabalho 6x1 no setor de shopping centers, não é mais só uma percepção. A perspectiva real é que esta mudança será, na prática, um “meteoro” maior do que foi a pandemia da Covid-19.
Estudo realizado pela Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) e revelado em primeira mão pelo NeoFeed mostra que, no cenário de redução de 44 horas para 40 horas semanais, o setor vai perder, somente no primeiro ano, cerca de 130 mil empregos. Serão 12,2% de vagas a menos.
Hoje, o Brasil conta com 658 shoppings em 253 cidades. São 125 mil lojistas que geram 1,1 milhão de empregos diretos, além de 3,3 milhões de forma indireta. O faturamento do setor em 2025 alcançou R$ 200,9 bilhões.
“Na pandemia, um meteoro caiu sobre o setor de shoppings, tamanho o estrago que causou. E esse meteoro pode voltar, porque nosso setor deve ser o mais afetado com essa mudança”, diz Glauco Humai, presidente da Abrasce, em entrevista ao NeoFeed.
Usando como base o cenário de 2025, o setor de shoppings deve perder, no ano 1 da implementação da redução da jornada, cerca de R$ 15 bilhões em faturamento, o que vai representar uma queda de 7,3%.
A questão é que, ao contrário do primeiro ano da pandemia, em 2020, quando o setor teve uma queda de 33%, mas logo no ano seguinte já se recuperou, neste caso as perdas devem durar pelo menos cinco anos, segundo a Abrasce.
Em mão de obra, a redução de vagas vai seguir alta ao longo dos anos. No ano 3 pós-implementação da nova jornada, segundo o estudo, o setor vai perder 5% de empregos. E, no ano 5, serão 2,3% de vagas a menos.
De acordo com Humai, o impacto maior será para os pequenos lojistas, com até quatro funcionários, que correspondem a 60% do volume de lojas nos shoppings do país. Além do volume grande de demissões, a mudança deve aumentar o índice de informalidade no mercado de trabalho.
O Brasil tem hoje 16 mil quiosques espalhados nos shoppings, que, segundo o executivo, devem ser os primeiros a serem afetados. “Muitos deles podem desaparecer”, diz.
“Os pequenos são os maiores ocupantes e não conseguem absorver este aumento de encargos. A margem destes lojistas já é pequena, porque eles concorrem diretamente com o comércio eletrônico. Eles vão trabalhar no negativo ou viver só para pagar as contas. É uma equação completa e ruim para todo mundo”, diz Humai.

Na prática, a mudança vai gerar também um aumento no ritmo de fechamento de lojas. A taxa de vacância atual, de cerca de 5%, deve subir para até 8%, também no primeiro ano.
Para o presidente da Abrasce, falta um entendimento, em Brasília, de que o momento não é adequado para este tipo de discussão e, principalmente, uma implementação imediata.
Na avaliação de Humai, no mínimo o governo deveria começar o diálogo com uma proposta de escalonamento, começando pelas maiores redes e preservando as lojas menores.
“Não faz sentido esta discussão neste momento no país. Alguns segmentos não podem absorver este custo. e o governo precisa pensar em forma de compensar isso e reduzir impostos”, afirma. “Não é tão simples esta discussão. Não estamos falando de uma fábrica dos anos 1960, que você consegue automatizar e substituir funções.”
Para o presidente da Abrasce, o cenário, neste caso, é diferente do que acontece no fim de ano, quando os lojistas contratam funcionários temporários, para atender o aumento do fluxo de clientes.
“Seria um argumento se a venda dos demais 11 meses fosse a mesma do período de Natal, se a gente conseguisse fazer com que a receita dos outros meses fosse também o dobro, talvez fosse possível absorver. Mas essa não é a realidade”, afirma.
Agora, o presidente da associação pretende intensificar o diálogo com o governo federal para detalhar o quanto o segmento será machucado com as medidas, se elas vierem de forma imediata, caso a proposta de emenda à Constituição (PEC) seja aprovada até maio, como está previsto.
“Não dá para entender uma discussão dessa justamente quando estamos perto do início do período eleitoral. Vai ser um caos para a economia e muito mais para os shoppings.”