Depois de a Squadra subir o tom contra a gestão da Hapvida e a Mak Capital pedir a destituição do conselho da Oncoclínicas, agora, um grupo de gestoras está se unindo para pressionar a Tenda para descontinuar a Alea, a subsidiária da construtora que atua no segmento off site, com o sistema construtivo wood frame.
O NeoFeed apurou que, após a divulgação de resultados da Tenda, no início de março, o J.P. Morgan promoveu um encontro entre Cláudio Andrade, presidente do conselho de administração, e um grupo de gestoras buy side descontentes com o desempenho da Alea.
Estavam presentes no encontro Absolute, AZ Quest, Ibiuna, Kinea, Vinci, Vinland, entre outras. Houve uma cobrança direta sobre a descontinuidade do projeto, que detém uma fábrica em Jaguariúna, no interior de São Paulo, mas que nunca justificou o investimento, segundo os minoritários.
"Dentro da empresa não é um consenso também. O próprio management sabe que isso segura a alta da ação", afirma um gestor que participou da reunião, mas pediu para não ser identificado.
Andrade, que é sócio da Polo Capital, acionista de referência com quase 20% de participação, sugeriu que os investidores precisavam ter a mesma paciência que o mercado teve com as ideias de Elon Musk. E que “2% a 3% de perda em uma empresa bilionária tem de ser visto como P&D”.
“Eles estão destruindo valor com o nosso dinheiro”, diz Welliam Wang, gestor de renda variável da AZ Quest, ao NeoFeed. A reação da gestora, que detém mais de R$ 39 bilhões sob gestão, foi dedicar a carta ao investidor de março ao tema.
A dúvida da AZ Quest é “por que algumas empresas continuam insistindo em investimentos que deixam de fazer sentido?” Embora não tenha citado nominalmente a operação da Alea, o NeoFeed confirmou com Wang que a provocação está diretamente relacionada ao fraco desempenho da subsidiária da Tenda.
À primeira vista, a Tenda vive um momento de recuperação. A companhia encerrou 2025 com lucro líquido de R$ 505,7 milhões, avanço da margem bruta ajustada para 36,8% e geração de caixa de R$ 243,8 milhões.
O core business da companhia, que é a construção de habitação popular, voltou a funcionar com eficiência, com melhores indicadores operacionais e maior previsibilidade. Quando se olha o desempenho da Alea, no entanto, ele parece um ponto fora da curva.
Criada como uma aposta de industrialização da construção civil, a Alea nasceu com uma narrativa de ganhar escala, reduzir custos e transformar a produção de habitação popular no Brasil. Mas, na prática, o que se viu foi o oposto. A operação acumula prejuízos recorrentes, consome caixa e tem exigido sucessivas revisões de expectativa.
No quarto trimestre de 2025, por exemplo, a Alea registrou prejuízo de R$ 50,2 milhões, com margem bruta negativa (-29,4%) e Ebitda também no vermelho (R$ -56,1 milhões).
O plano original para a Alea era atingir o breakeven no ano passado, mas a nova projeção foi postergada para 2027. No último balanço, a companhia informa que “consumo de caixa da Alea do segundo semestre de 2025, anualizado, aponta para um consumo anual em 2026 já caminhando para o guidance de R$ 60 milhões a R$ 80 milhões”.
Para a AZ Quest, o que era uma tese de crescimento passou a ser, na prática, um processo contínuo de ajuste. Na carta, a gestora identifica um padrão recorrente no mercado. E descreve o momento em que a lógica do investimento começa a se deslocar.
“Quando resultados consistentemente abaixo do esperado, acumulando perdas de mais de R$ 500 milhões ao longo de 5 anos [...] o que era para se pagar sozinho vira ‘P&D’ e sem prazo nenhum para acabar.”
No caso da Alea, o reposicionamento foi colocado no balanço. A empresa fala que trocou a expansão acelerada pela reestruturação; mudou de ganho de escala para eficiência; e deixou a parte da promessa de resultados para a concretização dos ajustes.
Estratégia ou insistência?
A carta da AZ Quest vai além e questiona o próprio racional por trás da aposta. Ao discutir o conceito de eficiência, a gestora utiliza o mesmo personagem escolhido pelo chairman do conselho da Tenda.
Ao falar de Musk, o texto observa que negócios com alta complexidade operacional e margens estruturalmente baixas tendem a destruir valor - especialmente quando exigem alto nível de execução.
E faz um paralelo direto com a industrialização da construção civil. “Elon Musk nunca entraria em negócios estruturalmente complexos e de margens reduzidas [...] como por exemplo a tentativa de produção industrializada de casas de baixa renda que possuem até margem negativa”, escrevem os gestores da AZ Quest.
A leitura implícita é que a Alea pode não ser apenas um problema de execução, mas de concepção. Mesmo com os resultados negativos, a operação continua demandando capital e atenção da companhia.
A insistência, nesse contexto, levanta a questão central sobre até que ponto faz sentido continuar alocando recursos em uma tese que, até aqui, não se comprovou.
A resposta, segundo a AZ Quest, passa pela governança. A gestora, sem citar nomes, descreve um cenário em que estruturas de poder e incentivos podem levar à manutenção de “decisões de investimento mantidas apesar de resultados insatisfatórios”
Nesse ponto, a gestora demonstra parte da insatisfação que esteve presente na reunião dentro do J.P. Morgan: a governança deixa de funcionar como mecanismo de controle e passa a atuar como escudo da própria decisão e “quando a resposta a questionamentos legítimos de acionistas passa a ser ‘se não concorda, venda’, quem está sendo protegido?”
A história da Alea não tem impacto apenas na Tenda. Ela revela sobre o comportamento corporativo. Como traz a própria carta: “no curto prazo, o mercado funciona como uma máquina de votos, mas, no longo prazo, como uma balança”
Para a Tenda, o desfecho dessa história vai além de uma subsidiária. Ele ajudará a definir como o mercado enxerga sua disciplina de capital.
Na B3, a ação TEND3 acumula valorização de 35,5% no ano e alta de 129,5% em 12 meses. O valor de mercado da Tenda é de R$ 3,9 bilhões.
Procurada pelo NeoFeed, a Tenda encaminhou o seguinte posicionamento:
"A Construtora informa que seu Conselho de Administração acompanha a evolução da Alea e entende que a iniciativa tem potencial de geração de valor para a companhia no longo prazo, ao atuar no mercado de incorporação de casas e endereçar a carência de mão de obra no setor por meio da industrialização.
"Atualmente, a Alea representa uma parcela limitada da operação, com consumo de caixa equivalente a cerca de 1% da receita da companhia. Trata-se de um investimento com potencial, com nível de exposição inferior ao de práticas usuais de mercado para iniciativas de pesquisa e desenvolvimento, que variam entre 3% e 4% da receita.
"O Conselho está aberto ao diálogo com seus acionistas para ouvir e considerar diferentes pontos de vista, mantendo seu compromisso com decisões que atendam ao melhor interesse da Tenda no longo prazo".