O sucessor de Warren Buffett nem se acomodou na cadeira de CEO da Berkshire Hathaway e já deu um passo importante que pode indicar aos investidores o perfil de sua gestão.

Greg Abel decidiu se desfazer de toda a participação da companhia na Kraft Heinz, um dos investimentos mais problemáticos da história recente do Oráculo de Omaha.

Em um formulário regulatório divulgado na quarta-feira, 21 de janeiro, a Berkshire sinalizou que poderá vender toda a sua fatia na companhia de alimentos, abrindo caminho para encerrar um capítulo que se tornou um raro erro na lendária trajetória de Buffett como investidor.

Atualmente, a Berkshire detém cerca de 325 milhões de ações da Kraft Heinz, o equivalente a uma participação avaliada em aproximadamente US$ 7,3 bilhões. A companhia é a maior acionista individual da empresa.

Para o mercado financeiro, a decisão de Abel, tomada dias após assumir oficialmente o comando da Berkshire, em 1º de janeiro deste ano, está mais ligada à limpeza do portfólio de investimentos do que a um movimento financeiro - até porque a empresa acumulou um colchão de US$ 358 bilhões ao longo dos últimos anos.

A Kraft Heinz tornou-se um dos ativos de pior desempenho da carteira da Berkshire. A fusão da Kraft Foods com a Heinz foi articulada em 2015 por Buffett com a gestora brasileira 3G Capital, de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, para criar uma gigante global na prateleira do mercado de alimentos.

Desde o pico da ação registrado em 2017, os papéis da companhia acumulam uma queda de cerca de 76%, desempenho muito inferior ao do mercado e de outros investimentos históricos do grupo.

No ano passado, a Berkshire foi obrigada a registrar uma baixa contábil de US$ 3,8 bilhões relacionada ao investimento, um reconhecimento formal de que a tese original não se confirmou.

As ações da Kraft caíram até 7% após a divulgação do documento. O valor de mercado da companhia é de US$ 26,4 bilhões.

Os analistas calculam que a Berkshire teria de aceitar um desconto de aproximadamente 10% para se desfazer integralmente da sua posição na Kraft Heinz, o que resultaria em uma perda estimada em US$ 1,3 bilhão.

Tanto Buffett como Abel expressam sua frustração com as estratégias da Kraft Heinz, incluindo o plano, anunciado no ano passado, de dividir a companhia em duas empresas independentes.

Em 2 de setembro do ano passado, o Conselho de Administração aprovou a cisão das operações. Uma empresa reunirá os negócios de molhos, massas e temperos do grupo, com marcas como Heinz, Philadelphia e Kraft Mac & Cheese. E a outra companhia reunirá produtos de mercearia e será focada na América do Norte, com marcas como Oscar Mayer, Kraft Singles e Lunchables.

Os (poucos) erros de Buffett

Apesar de frequentemente citada como um de seus maiores tropeços, a Kraft Heinz não foi o único investimento que decepcionou Buffett ao longo das décadas.

Se na Kraft o erro foi superestimar o poder das marcas tradicionais, Buffett classificou a compra da Dexter Shoe Company, nos anos 1990, como seu pior negócio.

Ele comprou a fabricante de calçados acreditando que ela possuía uma vantagem competitiva duradoura. Poucos anos depois, a entrada massiva de produtos asiáticos de baixo custo destruiu completamente a indústria americana de calçados. A empresa perdeu valor rapidamente e acabou falindo.

Para agravar o problema, Buffett pagou cerca de US$ 443 milhões em ações da Berkshire - hoje esse lote de ações valeria algo próximo a US$ 18 bilhões.

Contrariando a teoria do Oráculo de Omaha, a Berkshire desembolsou cerca de US$ 37 bilhões pela Precision Castparts, uma fabricante de peças aeroespaciais.

A aposta era no crescimento contínuo da aviação comercial, mas Buffett pegou a empresa no topo do ciclo. Poucos anos depois, o setor entrou em forte desaceleração, agravada pela pandemia de Covid-19, o que reduziu drasticamente as encomendas e as margens da companhia.

Ainda assim, a Kraft se destaca por reunir todos os elementos de um erro raro para os padrões de Buffett. E Abel está revendo para criar uma “nova Berkshire”.