A Intel não pode reclamar de falta de ajuda. Mesmo com Nvidia, SoftBank e o governo dos Estados Unidos ao seu lado para sair da pior crise de sua história e retomar o protagonismo no mercado de microprocessadores, a empresa voltar a decepcionar.
Os números do quarto trimestre de 2025 e as projeções para o primeiro trimestre de 2026 mostram que a retomada será longa e dolorosa, testando a (pouca) paciência dos investidores.
A situação está pesando sobre as ações na sexta-feira, 23 de janeiro. Por volta das 16h33, os papéis recuavam 17,9%, a US$ 44,61, configurando a pior queda intradiária desde agosto de 2024, segundo o jornal The Wall Street Journal (WSJ).
A Intel encerrou o quarto trimestre com prejuízo de US$ 333 milhões, quase 2,2 vezes maior que o registrado no mesmo período de 2024.
Além de representar forte aumento, o resultado dos últimos três meses de 2025 superou a perda de US$ 294 milhões esperada pelo mercado, segundo a FactSet. Já a receita recuou 4,2% no período, para US$ 13,7 bilhões.
Para piorar, a Intel projeta prejuízo por ação de US$ 0,21 no primeiro trimestre de 2026, acima da perda de US$ 0,12 registrada no trimestre anterior. A receita deve ficar entre US$ 11,7 bilhões e US$ 12,7 bilhões.
O desempenho foi afetado pelo volume de investimentos para ampliar a produção de chips mais recentes, mas os investidores estão especialmente decepcionados com a escassez de estoque, que limita a capacidade de aproveitar a demanda crescente por data centers.
Gigantes da computação em nuvem, que investem pesado em infraestrutura de inteligência artificial (IA), também estão atualizando linhas de servidores antigas. A Intel, porém, mostrou despreparo para aproveitar esse momento.
Na teleconferência sobre os resultados, os executivos admitiram ter subestimado a demanda. “Estou desapontado por não conseguirmos atender plenamente aos nossos mercados”, disse o CEO Lip-Bu Tan, segundo o WSJ. “Estamos em uma jornada de vários anos, que exigirá tempo e determinação.”
Outro fator negativo é o avanço lento da unidade de foundry (fundição de chips), em que a Intel atua como fabricante terceirizada. O segmento teve prejuízo operacional de mais de US$ 10 bilhões em 2025 e precisa de um grande cliente para ser viável.
Segundo o WSJ, rumores recentes indicam que a Intel teria conquistado ao menos um grande cliente, mas os executivos afirmaram que qualquer anúncio ainda está distante. "Acreditamos que os clientes começarão a tomar decisões firmes sobre fornecedores a partir do segundo semestre deste ano e se estenderão até o primeiro semestre de 2027", disse Tan.
Sinônimo de microprocessadores nos anos 1990, a Intel não conseguiu acompanhar a evolução do mercado. Perdeu espaço para rivais asiáticos na corrida por chips mais potentes com transistores menores.
Também não conseguiu tornar seus produtos a principal escolha das fabricantes de smartphones e sofreu com a decisão da Apple, em 2020, de não usar mais seus chips, além da queda nas vendas de computadores nos últimos anos.
Para "coroar", a Intel não acompanhou a revolução da IA, que mudou a demanda por chips e aumentou a procura por GPUs, dominadas pela Nvidia.
Visando recuperar o tempo perdido, a empresa está revendo operações e se desfazendo de ativos. Em abril, vendeu o controle da Altera, produtora de chips programáveis, para a Silver Lake, por US$ 4,46 bilhões.
A empresa também recebeu apoio externo, incluindo do governo americano, que se tornou seu maior acionista ao converter US$ 9 bilhões em subsídios numa participação de 10% no capital.
A Intel firmou acordo com a Nvidia para desenvolver chips em conjunto e recebeu aporte de US$ 2 bilhões do SoftBank, em agosto, o que impulsionou suas ações, cotadas em torno de US$ 23 na época.
Desde então, os papéis mais que dobraram de preço, acumulando alta de 106,7% em 12 meses, levando o valor de mercado da companhia a US$ 212,8 bilhões.