Nomeado sucessor de Warren Buffett na Berkshire Hathaway, Greg Abel só assumiu como CEO da operação em janeiro deste ano, após a aposentadoria do Oráculo de Omaha. E agora, perto do fim do seu primeiro trimestre no cargo, ele começa a mostrar suas cartas à frente da gestora.
Nesta segunda-feira, 23 de março, a Berkshire Hathaway anunciou a compra de uma participação de 2,5% na Tokio Marine, uma das principais seguradoras do Japão, em uma transação avaliada em US$ 1,8 bilhão.
Em comunicado, as empresas informaram que o acordo será fechado com a venda de ações da seguradora para a National Indemnity, principal operação de resseguros da gestora americana. E que o negócio anunciado hoje integra uma parceria estratégica mais ampla.
Nesses termos, a associação entre a gestora e a seguradora incluirá, além do aporte bilionário, a colaboração nas frentes de resseguros, com a National Indemnity ressegurando uma parcela de todos os negócios da Tokio Marine, e em potenciais aquisições.
“Essa parceria estratégica representa um grande passo para o avanço do nosso negócio de seguros e para a criação de valor sustentável, combinando os pontos fortes de ambas as organizações”, afirmou, na nota, Masahiro Koike, CEO do grupo Tokio Marine.
A empresa japonesa ressaltou ainda que o acordo irá aprimorar ainda mais sua base de resseguros, que ficará menos suscetível aos ciclos desse mercado. Além de mitigar a volatilidade das subscrições, especialmente em relação aos riscos cada vez mais severos de catástrofes naturais.
Já sob a ótica da Berkshire, esse é o primeiro investimento fechado, de fato, sob a liderança de Abel. Em fevereiro, veio à tona a compra, pela gestora, de cerca de 5,07 milhões de ações na The New York Times Company, dona do jornal The New York Times, por aproximadamente US$ 351,7 milhões.
Entretanto, a movimentação em questão, que marcou o retorno dos investimentos da Berkshire em companhias de mídia, foi concluída entre outubro e dezembro de 2025, o último trimestre em que Buffett esteve à frente da gestora.
Nesse mesmo intervalo, a companhia também reduziu sua posição na Apple em 4,3%, para US$ 61,9 bilhões, e em segmentos como energia e bancos. Ao mesmo tempo, a gestora montou uma posição na Alphabet, a holding por trás do Google.
Ao passar o bastão para Abel, em 1º de janeiro desse ano, Buffett deixou como “legado” os quase US$ 400 bilhões em caixa acumulados nos últimos anos - um volume recorde para a operação -, período no qual a gestora mais vendeu do que comprou ações.
Apesar desse colchão bilionário, em maio de 2025, durante a assembleia anual da companhia, Abel já havia afirmado que a reserva de caixa é um “ativo enorme” que oferece à gestora uma proteção caso ocorra uma recessão no mercado.
“Continuaremos sendo a Berkshire”, afirmou Abel, naquela oportunidade. “A forma como Warren e a equipe alocaram capital nos últimos 60 anos não mudará.” A julgar por essa primeira investida sob seu comando, o executivo começa, de certa forma, a cumprir essa promessa, em um "porto seguro".
O Japão e suas empresas vêm se consolidando como um destino importante dos recursos da Berkshire fora dos Estados Unidos nos últimos anos, em uma tese encampada justamente por Buffett, que elogiou as companhias japonesas por sua alocação de capital, gestão e postura em relação aos acionistas.
Do discurso à prática, desde 2019, a gestora acumulou participações de aproximadamente 10% em cinco grandes empresas japonesas. O pacote inclui nomes como Mitsubishi, Itochu e Mitsui. Essas fatias estavam avaliadas em US$ 35 bilhões no fim de 2025.
Enquanto dá sequência e amplia essa tese, há cerca de duas semanas, Abel anunciou o retorno da Berkshire a uma outra frente, com o primeiro programa de recompra de ações da sua gestão, um expediente que a gestora não usava desde 2024.
As ações da empresa estavam sendo negociadas com ligeira alta de 0,36% na Bolsa de Nova York por volta das 11h10 (horário local), avaliando a gestora em US$ 1,04 trilhão. No ano, os papéis acumulam uma desvalorização de 3,9%.