O setor de shopping centers vive em 2026 um momento de compasso de espera, provocado especialmente pelo alto custo de capital, a partir de uma taxa de juros hoje de 14,75% ao ano, mas sem uma perspectiva clara de um ciclo efetivo de queda.
Neste cenário, a maior parte das companhias do setor decidiu pisar no freio para alocar novos investimentos. Com isso, as líderes do segmento precisaram mudar o foco e fazer projetos de expansão e readequações internas, em iniciativas que envolvam menos recursos e que sejam mais rápidos.
Mas, o Grupo Mendes, que atua na área de malls, construção civil e energia solar, e é dono de dois shoppings na Baixada Santista, decidiu ir na direção contrária do vento. A companhia separou R$ 500 milhões para construir seu maior centro de compras, na cidade de Praia Grande.
Além do custo da obra, a empresa também gastou outros R$ 70 milhões na compra do terreno, que tinha como donos a Eztec e um empreendedor local. Parte dos recursos será via capital próprio e outra parte via mercado, possivelmente com debêntures.
O VillaMar Shopping tem previsão de entrega em setembro de 2027. Com 156,3 mil metros quadrados (m²) de área construída e 42,8 mil m² de área bruta locável, o centro de compras terá 335 lojas.
“Por mais que a situação econômica do momento no Brasil seja desfavorável, nosso projeto é de médio e longo prazo. E vamos seguir investindo”, diz Paulo Mendes, acionista e CEO do Grupo Mendes, em entrevista ao NeoFeed.
Para o empresário, a estratégia adotada é de traçar um cenário de “mercado estressado”, imaginando o pico dos juros para precificar os investimentos. Se o horizonte ficar mais favorável, distensiona o impacto do custo.
“Temos todo o orçamento do grupo delineado até 2029. E consideramos, neste cenário, uma taxa Selic linear de 15% ao ano, ainda que possivelmente diminua até lá. Trabalhamos com o pior cenário, para ter uma surpresa positiva”, afirma Mendes.
Em fevereiro, o NeoFeed conversou com o CEO do Grupo Allos, Rafael Sales, que contou o plano de “retrofit” nos shoppings do grupo, para impulsionar a receita neste momento de juros altos. Para Mendes, é compreensível esta decisão.
“A pandemia impactou demais as companhias, que precisaram se endividar, em um cenário de crescimento rápido da taxa de juros. Por isso que ainda há muito seletividade dos operadores de shoppings para atrair lojistas. E o reflexo é esse, em que as companhias seguram um pouco as novas obras”, afirma o empresário de Santos.
A ideia original, segundo ele, era de ter lançado o VillaMar em 2020, mas o plano precisou ser abortado por causa da pandemia da Covid-19. Ainda assim, o Grupo Mendes aperfeiçoou o projeto e ampliou a iniciativa.
“A gente acredita muito no projeto e muito na cidade de Praia Grande, que vem crescendo muito. Nossa ideia é fazer com que nosso custo seja atrativo para a gente, como investidor, e para o parceiro lojista.”
Hoje a companhia tem uma unidade em Santos (Praiamar Shopping, com 240 lojas em 40 mil m² de ABL) e outra em São Vicente (Brisamar Shopping, com 120 lojas e ABL de 21 mil m²).
Ainda no segmento de malls, o Grupo Mendes também atua na construção de projetos de uso misto. O plano, a médio prazo, é avançar na construção de projetos em São Paulo. “Temos uma área de 25 mil m² na Marginal Tietê, perto da Ponte do Limão. Vamos construir algo, mas não necessariamente um shopping. Vamos fazer isso mais para frente, porque estamos com várias frentes de investimento agora”, conta.
Uma dessas frentes, além do shopping, está no segmento de incorporações do Grupo Mendes, com a construtora Miramar. Até o fim do ano, a empresa entrega a primeira fase do Complexo Navegantes, que será o edifício mais alto do litoral paulista, com 155 metros e 309 unidades.
Com imóveis entre 218 m² e 500 m², o empreendimento tem um valor geral de vendas (VGV) de R$ 2,3 bilhões. A segunda fase da obra será entregue no fim de 2027.
Sol como alternativa de crescimento
Com um plano de diversificação de negócios, o Grupo Mendes também planeja investimento de R$ 200 milhões em 2026 para expansão da Ineer Energia, que hoje conta com o maior número de parques solares do estado.
“Nossa decisão de entrar no segmento foi justamente na pandemia, pelo impacto que o setor de shoppings sofreu. E então focamos em um segmento essencial, e que fosse mais resiliente, independentemente do cenário”, explica Mendes.
Desde que foi criada, em 2023, a Ineer já é líder na distribuição de geração distribuída em São Paulo, com presença em 485 municípios paulistas. A companhia atua nas áreas de concessão da CPFL Piratininga, CPFL Paulista e Neoenergia Elektro.
Até aqui, a empresa já recebeu R$ 1 bilhão de investimentos. Hoje a Ineer tem cerca de 270 megawatts-pico (MWp) em cerca de 77 fazendas solares. O plano é de chegar a 310 MWp de capacidade instalada até o fim do ano, energia suficiente para abastecer uma cidade de 420 mil habitantes (praticamente o tamanho de Santos).
O novo aporte de R$ 200 milhões vai garantir a construção de mais 23 parques solares, para atingir o volume de 100 usinas eólicas no estado.
Hoje, 60% do portfólio está justamente na Piratininga, companhia que tem a Baixada Santista como área de concessão. O volume gerado pela empresa de energia do Grupo Mendes é destinado ao mercado livre de energia.
“A gente está chegando no portfólio ideal de geração distribuída. E, se a gente entrou no setor de energia renovável, também é razoável que a gente produza para nós mesmos. Por isso que pretendemos também entrar na geração centralizada mais para frente”, afirma o empresário.
Os três setores – malls, incorporadora e energia – tiveram alta no ano passado. O plano é que, em 2029, cada segmento represente um terço do faturamento. A área de energia solar hoje ocupa fatia de 17% na receita.
Em 2025, o Grupo Mendes registrou crescimento de 72% no Ebitda. Eles não revelam o faturamento. “Crescemos sete vezes nos últimos oito anos. É um crescimento acelerado, mas com um planejamento conservador. A gente não se arrisca mais do que o necessário”, completa Mendes.