Com o fim dos torneios estaduais e a três meses da Copa do Mundo, boa parte das atenções dos torcedores do País se volta agora para o Campeonato Brasileiro, a grande atração no calendário dos principais times do futebol brasileiro.

Parte desse clube seleto, o Grêmio tem uma decisão dura pela frente. Fora, porém, das quatro linhas. E dentro da disputa entre a Liga do Futebol Brasileiro (Libra) e a Futebol Forte União (FFU), a dupla que, desde 2023, duela para definir o vencedor em outro certame: a criação de uma liga do esporte no País.

Naquele que deve ser o próximo confronto nessa arena - a data da peleja já foi adiada por duas vezes -, quem entrará em campo serão os membros do Conselho Deliberativo do Grêmio. E o que estará em jogo é justamente a saída do clube gaúcho da Libra, que reforçaria o time da FFU.

“Já temos o chassi do que seria a formação de uma liga única”, diz Gabriel Lima, CEO da FFU, ao NeoFeed. “E, agora, queremos atrair os 40 clubes das séries A e B e todos os da Série C que quiserem vir para o nosso lado.”

Nesse roteiro, com 35 clubes – na sua criação, eram 23 -, a FFU vem aplicando uma goleada na Libra, que tem 15. Mas, levando em consideração apenas a Série A, há um empate, com dez times escalados de cada lado. Além da possibilidade do Grêmio, o elenco da Libra já prevê, porém, dois desfalques.

Em setembro de 2025, o Vitória informou que estava saindo da Libra e aderindo ao grupo rival. Um mês depois, foi a vez do Atlético-MG retornar à FFU, bloco do qual foi um dos fundadores e que havia deixado em junho de 2023 - na época, a FFU ainda se chamava Liga Forte Futebol (LFF).

Outros clubes já haviam trocado de camisa. Esses foram os casos de Cruzeiro, Botafogo e Vasco, que deixaram a Libra em 2023, e do Corinthians, em 2024. Entretanto, essas movimentações ocorreram antes dos dois blocos fecharem a venda de direitos de transmissão para o ciclo de 2025 a 2029.

No caso da FFU, que negociou acordos com o Grupo Globo, Record, CazéTV/YouTube e Amazon, no valor de R$ 1,7 bilhão por temporada. E, no da Libra, que fechou um contrato de exclusividade com os canais e mídias da família Marinho, de R$ 1,3 bilhão.

Sob esse contexto, os acordos assinados pelo Atlético-MG e o Vitória seguem válidos até 2029. Essa regra também valerá para o Grêmio, caso seus conselheiros decidam que a FFU será a nova casa do clube gaúcho. No que depender da FFU, outros times vão escolher esse mesmo destino.

“Estamos conversando com cinco dos outros sete clubes de Série A da Libra”, diz Bruno Pimenta, diretor-geral da Sports Media, veículo criado e controlado pela Life Capital Partners para ser o fundo por trás da FFU. A operação inclui ainda a Livemode, além da General Atlantic e da XP, seus investidores.

“Houve muita dúvida sobre como seria esse mundo de negociação além da Globo. Isso foi respondido. Trouxemos mais dinheiro para os clubes e muita previsibilidade”, diz Pimenta. “Isso está fazendo com que os clubes que estão fora queiram entrar. E, aqueles que ainda não vieram, é questão de tempo.”

Segundo Pimenta, a gestão da FFU, na figura de Gabriel Lima, não tem qualquer envolvimento nessas negociações. As conversas com outros clubes - hoje, o time do primeiro pelotão da Libra inclui nomes como Flamengo, Palmeiras, Santos, São Paulo e Bahia - são conduzidas pela Sports Media.

Artilharia pesada

Para fazer esse corpo a corpo junto aos clubes da rival, a Sports Media reforçou sua artilharia ao contratar o BTG Pactual com um mandato de assessor de M&As. Curiosamente, o banco de André Esteves foi um dos nomes envolvidos na estruturação da Libra, há três anos.

Nas negociações que estão sendo mantidas com o Grêmio, a proposta passa pela compra de 10% dos direitos de transmissão do clube, por 50 anos e um valor não revelado.

Na outra ponta, procurada pelo NeoFeed, a Libra disse que não iria se manifestar. Uma fonte próxima ao grupo ressaltou, porém, que já houve conversas diretas entre os dois blocos, o que envolveu, inclusive, uma negociação fracassada de um memorando de entendimento (MoU) para uma unificação.

“Todas as partes seguem conversando. A Libra sempre foi aberta a esse diálogo e à busca de um entendimento”, diz essa fonte. “O que chama a atenção, e aí, no âmbito dos investidores da FFU, é eles seguirem com essa prática de assédio aos clubes da Libra, prometendo facilidades imediatas.”

No campo oposto, a Sports Media tem trazido outros números na tentativa de “comprar o passe” dos clubes da Libra. Um deles é o valor de R$ 1,7 bilhão por temporada na venda de direitos de transmissão dos clubes da FFU de 2025 a 2029, o que representou uma alta de 110% sobre o ciclo anterior.

Em mais um dado, em 2025, o primeiro ano de operação da FFU, a diferença entre o Corinthians, o clube que mais faturou nesse bolo, e o Sport, na outra ponta, foi de 1,97 vez, contra 6,25 vezes em 2024. Esse mesmo índice na espanhola LaLiga foi de 3,5 vezes. E na inglesa Premier League, de 1,7 vez.

“Lá atrás, houve muito ruído do quanto cada grupo conseguiria entregar”, diz Lima, o CEO da FFU. “Agora, nós temos números e fatos. E conseguimos demonstrar de forma muito clara o que fizemos para Vitória, Atlético-MG e Grêmio. Estamos entregando mais valor aos nossos clubes.”

Isso não significa que o elenco da FFU está totalmente entrosado. No fim de fevereiro, por exemplo, o Goiás notificou extrajudicialmente o grupo citando preocupações - que seriam compartilhadas por outros times do bloco - sobre uma possível diluição das receitas com a eventual chegada do Grêmio.

“Não há diluição de receita”, diz Lima. “O Grêmio, assim como Atlético-MG e Vitória, não participa dos contratos atuais, que permanecem como estão, e sim, de negociações coletivas futuras. E quanto mais clubes tivermos, maior será, certamente, a receita.”

Pimenta, por sua vez, ressalta que o processo envolvendo o Grêmio se tornou público antes que houvesse tempo de a FFU explicar os detalhes da negociação para os seus membros. O que, em sua visão, também contribuiu para alimentar esses questionamentos.

“O processo do Grêmio será idêntico a todos os demais”, diz Pimenta. “Temos um rito aqui e a palavra final, se o clube conseguir a aprovação no seu conselho, será de todos os membros da FFU, via assembleia. Isso já está previsto na governança do bloco.”

A intenção do Grêmio de deixar a Libra também tem origem em ruídos e desavenças no bloco. O que também ajuda a explicar as saídas de Atlético-MG e Vitória, numa trama cujo antagonista é o Flamengo.

Em setembro de 2025, o clube carioca discordou dos critérios de distribuição de receitas de audiência acordados pela Libra com o Grupo Globo. E, na sequência, obteve uma liminar na Justiça do Rio de Janeiro bloqueando o repasse da parcela paga pela emissora naquele mês, de R$ 77 milhões.

A jogada trouxe impactos para boa parte dos clubes do bloco, que já viviam uma situação financeira desfavorável. E, nesse cenário, a Libra, que não tem um investidor por trás da sua operação, passou a buscar recursos no mercado por meio da sua área comercial.

Desde novembro, o grupo vinha negociando a venda de 5% dos direitos de transmissão de cada clube, por 15 anos, com o Daycoval. Em fevereiro, porém, o banco encerrou as conversas, o que alimentou a intenção do Grêmio de deixar o bloco.

Em meio a essas rusgas e ao avanço no campo adversário, Lima entende que o momento é cada vez mais propício para que o debate sobre uma liga única, capitaneada pela FFU, ganhe, enfim, fôlego. Há, porém, um ator essencial a ser incluído nessa conversa: a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

“Hoje, esse diálogo está sendo feito pelos clubes. Não temos uma interlocução direta com a CBF nesse momento. Essa gestão está lá há pouco tempo e tem outras prioridades”, diz o CEO. “Precisamos engrossar nosso caldo antes de ter uma discussão concreta sobre o papel de cada um nessa história.”

Novas jogadas

Em paralelo, ainda como bloco comercial, a FFU vem avaliando como gerar novas fontes de receita para seus clubes. E, com seu elenco cada vez mais encorpado, a negociação de propriedades coletivas é uma das alternativas em desenvolvimento. Um dos exemplos é a Série B, onde tem 18 dos 20 times.

“Quando se tem um grupo como esse, o poder de barganha é muito maior e você pode tentar negociar um patrocínio único nas transmissões”, diz Pimenta. “Então, uma empresa pode ter sua marca em todos os times, na camisa ou em outra propriedade. Ela estaria em nove de dez jogos de cada rodada.”

Outras áreas ainda pouco exploradas são as propriedades digitais e os direitos internacionais de transmissão. Essa última via responde por apenas 1% das receitas. E a abordagem tem sido muito similar à estratégia que já foi adotada por pares como a LaLiga, antes de ganhar escala no exterior.

“Ao invés gerar dinheiro, nossa estratégia inicial é divulgar e tentar estar nos maiores outlets de mídia fora do Brasil, para que as pessoas vejam o produto”, explica Lima. “Ainda é um volume pequeno, justamente porque não conseguimos trabalhar esse produto. Precisaríamos ter uma liga para isso.”

Curiosamente, esse foi um dos poucos roteiros percorridos com FFU e Libra no mesmo time. Em 2025, a dupla fechou um acordo conjunto de três anos com a 1190 Sports para a venda dos direitos de transmissão internacional das séries A e B, incluindo 39 times – com exceção do Flamengo.

“É essencial entender que, com ou sem liga, os benefícios já existem. Mesmo quando negociaram separadamente, os dois blocos trouxeram aumento de recursos para os clubes”, diz Pimenta. “A liga é o upside aqui, para poder melhorar o produto e destravar novas receitas.”

Enquanto isso não acontece, ele observa que outro plano da FFU é criar produtos ou alternativas para que os clubes tenham acesso facilitado a capital. Aqui, porém, ele também destaca um outro avanço pelo grupo.

“Hoje, os clubes da FFU já estão tendo acesso a dívidas mais baratas, porque eles conseguem antecipar a receita desses contratos assinados pelo bloco”, afirma Pimenta. “Então, no fim do dia, o banco passa a correr o risco não do clube, mas da Amazon, da Record e do YouTube.”