Em uma estratégia para diminuir a repercussão dos votos divergentes de dois membros de seu conselho de administração, a Oncoclínicas publicou na véspera do feriado de Páscoa - quinta-feira, 2 de abril, entre 17h25 e 17h30 -, os documentos que revelam a posição de Marcos Grodetzky e Raul Rosenthal Ladeira de Matos sobre o acordo não vinculante com a Porto e a saída da CFO Camille Faria.

O conteúdo dos documentos, relativos às reuniões de 13 e 15 de março, revela duras críticas ao conselho da Oncoclínicas e à gestão da companhia. E reforça os alertas feitos pela Mak Capital em sua ofensiva recente contra o maior grupo especializado em tratamento de câncer na América Latina.

O hedge fund abordou, em uma de suas cartas, conforme o NeoFeed revelou, a falta de transparência e a omissão de informações relevantes para o investidor entender os motivos de negociar um M&A no pior momento da história da empresa.

Agora, os votos assinados pelos conselheiros independentes Grodetzky e Ladeira de Matos, que não eram públicos, revelam um racha no conselho e trazem questionamentos sobre a estrutura financeira e a continuidade operacional da companhia.

O principal foco das divergências é a proposta não vinculante apresentada pela Porto, que prevê a transferência do controle da principal linha de negócios da Oncoclínicas.

Os conselheiros votaram contra a assinatura da proposta e defenderam a retomada das negociações. Entre os argumentos, Grodetzky e Ladeira de Matos destacam que os termos apresentados não atendem às necessidades da companhia e podem comprometer sua capacidade futura de operação.

Segundo eles, a operação criaria uma estrutura em que a principal linha de negócios ficaria sob controle da Porto, enquanto a Oncoclínicas manteria apenas uma participação minoritária - mas com uma dívida relevante.

A estrutura resultante, afirmam, poderia “deixar a empresa sem geração de caixa para servir suas obrigações de juros e principal”, tornando a operação inviável nas condições atuais.

Em outro trecho, os conselheiros são ainda mais diretos ao apontar que a companhia dependeria de fluxos futuros incertos para sobreviver, o que, na visão deles, não é sustentável.

Os votos também trazem um questionamento sobre o processo decisório. Para Grodetzky e Ladeira de Matos, a negociação com a Porto não teria sido conduzida pela diretoria executiva (como seria esperado), mas por acionistas da companhia - o que, na visão deles, compromete a credibilidade do processo.

“A negociação da operação foi feita por acionistas da companhia, e não por sua diretoria”, escreveram. “A administração e o conselho de administração não podem delegar esta função para acionistas.”

A alteração do procedimento “gera graves preocupações de que o Conselho não tem como defender aspectos importantes da condução e dos termos da operação”, complementam.

Eles reforçam que esse tipo de operação deveria ser liderado pela administração, com participação direta do CEO e da área financeira, sob supervisão do conselho.

Por isso, eles foram contrários à saída de Camille Faria, que acumulava os cargos de CFO e de relações com investidores. A renúncia foi formalizada em reunião do conselho de 15 de março, no meio das discussões sobre a reestruturação da companhia.

“Opono-mos [sic] também à proposta do presidente do Conselho de substituir a Diretora de Relações com Investidores apenas porque alguns acionistas e a maioria do Conselho não aceitaram a minuta de fato relevante por ela apresentada”, escreveram.

“​É um absurdo trocar uma Diretora de Relações com Investidores durante uma renegociação de dívida, em um momento crítico da Companhia, por causa de uma divergência sobre uma minuta de fato relevante. ​Mas foi esta a proposta do presidente [do conselho, Marcelo Gasparino]”, complementam.

Conforme o NeoFeed revelou, Faria foi “convidada” a renunciar porque exigiu transparência e todos os detalhes nas informações sobre o M&A que seriam publicadas na CVM.

Ausência de gravação

O documento também traz críticas diretas à condução do processo dentro da companhia. Logo no início, eles afirmam que, desde 15 de janeiro deste ano, quando o novo conselho tomou posse, foram realizadas 10 reuniões e inúmeras interações pontuais, mas somente duas atas foram distribuídas.

Os conselheiros registram “descontentamento” com a decisão de não gravar a reunião do conselho - prática que havia sido aprovada anteriormente - e afirmam que a mudança, justamente no momento de discussão de uma operação relevante, gera “graves preocupações”.

Um dos trechos mais sensíveis dos votos vai além da discussão financeira e entra no campo operacional. Os conselheiros criticam decisões relacionadas à gestão de caixa e afirmam que a companhia deveria priorizar a continuidade das operações.

“A companhia precisa destinar todo e qualquer recurso disponível para comprar medicamentos que estão faltando e são críticos para a continuidade das operações e o tratamento de pacientes.”

A menção reforça sinais recentes de deterioração operacional em meio à crise de liquidez enfrentada pela companhia.

Os votos também questionam decisões relacionadas ao tratamento de credores, citando pagamentos feitos a uma instituição financeira específica enquanto outros credores permanecem em negociação.

Segundo os conselheiros, esse tipo de medida pode violar acordos existentes e prejudicar o processo de reestruturação como um todo, ao comprometer a confiança nas negociações.

A publicação dos votos ocorre dias após a Mak elevar o tom contra a companhia. Na carta enviada ao conselho, a Mak havia afirmado que os acionistas têm o direito de conhecer propostas de financiamento e divergências internas em um momento de estresse financeiro.

De um lado, a gestora pressiona por mudanças no conselho e condiciona um potencial aporte de até R$ 500 milhões a uma reconfiguração da governança. De outro, a companhia vinha avançando em negociações com a Porto como alternativa para reforçar sua estrutura financeira.

A convocação da Assembleia Geral Extraordinária (AGE), conforme pedido da Mak, foi oficializado para acontecer em 30 de abril.

Fazem parte da pauta da AGE, entre outros temas, a discussão sobre a situação econômica-financeira e as medidas adotadas ou em curso para repactuação de vencimentos e proteção da operação; a destituição dos membros do conselho de administração; fixação do número de membros, qualificação dos candidatos e eleição dos conselheiros independentes, além da indicação de presidente e o vice-presidente do conselho.

O atual conselho da empresa é formado por Gasparino, Bruno Ferrari, Eduardo Soares do Couto Filho, Marcel Cecchi Vieira (que assumiu a cadeira de CFO após a saída de Faria), e os independentes Marcelo Curti, Grodetzky e Ladeira de Matos.