Com a concretização da compra da Medley, unidade de genéricos da francesa Sanofi, pela farmacêutica brasileira EMS, que vai desembolsar US$ 600 milhões (aproximadamente R$ 3,17 bilhões), conforme apurou o NeoFeed, a tendência agora é de ampliação do portfólio da empresa nas redes de farmácias.

Ainda que passem a operar de forma independente - cada uma das marcas vai adotar uma estratégia comercial própria -, a tendência é que haja sinergia na fabricação de produtos e na área de pesquisa e desenvolvimento. A fábrica da EMS, em Hortolândia (SP), fica a cerca de 20 quilômetros da planta da Medley, em Campinas (SP).

“O racional desta operação para a gente é que, no Brasil, o genérico tem marca. E a marca Medley é extremamente consolidada e respeitada. Agora, vamos trabalhar para fazer com que as duas marcas cresçam”, diz Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS, em entrevista exclusiva ao NeoFeed após a confirmação da venda.

Essa é a maior aquisição nos 62 anos de história da EMS. A companhia foi criada em 1964 por Emiliano Sanchez, com uma pequena fábrica em São Bernardo do Campo (SP). Em 1950, ele abriu a farmácia Santa Catarina, em Santo André (SP), que deu origem à empresa. Como grupo, foi consolidado em 2014.

A expectativa era que a fase final do processo se encerasse na sexta-feira, 13 de março. Mas a EMS fez a proposta antes, com um valor acima do que já estava colocado, e, na prática, tirou as demais concorrentes da disputa. “Antecipamos um pouco a oferta, que foi aceita pela Sanofi”, diz Sanchez.

Com a aquisição, o grupo controlador da EMS passa a ter cerca de 30% do mercado de genéricos do Brasil, com os 7% da Medley somados aos 23% da companhia da família Sanchez. Somado, o conglomerado passa a ter uma receita anual perto de R$ 12 bilhões.

Ainda que praticamente todos os medicamentos da Medley tenham suas versões produzidas pela EMS, a nova dona irá manter as duas marcas nos balcões das farmácias, dando a opção de compra para o consumidor.

A expectativa é que o Cade não enxergue problemas no negócio, pois, mesmo que a EMS seja líder nas vendas de genéricos no Brasil, o mercado ainda é muito pulverizado. A tendência é que o resultado final, com a provável aprovação pelo órgão, saia ainda em 2026.

O processo de venda da Medley começou no ano passado, quando a Sanofi contratou a consultoria Lazard para gerenciar a operação. A primeira etapa foi até 31 de outubro, quando oito empresas passaram para a segunda fase (Aché, Althaia, Cimed, EMS, Eurofarma, Hypera, Torrent e União Química).

A fase seguinte começou no dia 5 de janeiro, com EMS e Aché com as propostas mais relevantes, além da indiana Sun Pharma, que se credenciou no fim do prazo. O fundo Vinci Compass também avançou na disputa.

Com a concorrência alta, a Sanofi chegou a avisar os concorrentes que o valor da proposta teria que ser maior que a da primeira fase, que fechou perto de US$ 450 milhões, segundo apurou o NeoFeed. O mercado já enxergava a EMS como a favorita, justamente pela liderança no mercado e pela boa saúde financeira.

A EMS contou com a assessoria jurídica do escritório Lefosse no Brasil, enquanto o escritório Mayer Brown atuou como assessor jurídico em Nova York.

Antes do anúncio oficial, os cerca de 900 funcionários da Medley foram avisados da conclusão do negócio.

Esta não foi a primeira compra de um ativo da Sanofi pela EMS. Em maio de 2023, a empresa brasileira comprou da farmacêutica francesa a marca de sabonetes íntimos Dermacyd, em um negócio de € 66 milhões. O acordo inclui os direitos de comercialização, fabricação de 17 itens, além da propriedade intelectual.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista de Sanchez:

Qual foi o racional desta aquisição e como o grupo vai trabalhar para ampliar o mercado de genéricos?
Essa é a maior aquisição da história da EMS. O racional desta operação para a gente é que, no Brasil, o genérico tem marca. E a marca Medley é extremamente consolidada e respeitada. Para nós, é importante e faz total sentido ter uma marca como a Medley dentro de nosso portfólio. Agora, vamos trabalhar para fazer com que as duas marcas cresçam.

"O racional desta operação para a gente é que, no Brasil, o genérico tem marca. E a marca Medley é extremamente consolidada e respeitada"

Essa não é a primeira negociação da EMS com a Sanofi. O que foi diferente neste caso?
Já tivemos outra negociação, sim, quando compramos a Dermacyd [em 2023]. Também fluiu muito bem. Eles são muito organizados, do ponto de vista de M&As. Nossa relação com a Sanofi sempre foi muito positiva, e desta vez não foi diferente. Agora, após Cade, a gente tem possibilidade de incrementar o portfólio de medicamentos da Medley, para democratizar ainda mais o acesso para a população.

As operações irão funcionar de forma independente?
Sim. Confirmando a aquisição, a marca Medley continua independente, com toda sua força, com estratégias distintas e com um comercial segregado. A gente não pode perder todo o asset que a marca construiu até hoje com o mercado varejista farmacêutico e com o consumidor.

Além da sinergia logística, a partir da proximidade das fábricas, há alguma outra que pode ser absorvida, mesmo com a independência das marcas?
Temos muita expectativa de sinergia do ponto de vista de pesquisa e desenvolvimento e em operações, especificamente na fabricação dos produtos. Mas do ponto de vista comercial e de marketing, não.

Com uma disputa acirrada como a que foi essa, como fica a partir de agora a relação com as demais farmacêuticas, principalmente com as que estavam na fase final?
O nosso entendimento é que o mercado farmacêutico é muito pulverizado. Portanto, essa aquisição não altera a relação com as demais indústrias do setor. Continua tendo espaço para todos.

"A marca Medley continua independente, com toda sua força, com estratégias distintas e com um comercial segregado. A gente não pode perder todo o asset que a marca construiu"

A Medley pode também entrar, a exemplo do que já fez a EMS, no mercado de GLP-1, com canetas emagrecedoras genéricas?
Isso é algo que a gente ainda não está pensando, em relação à Medley. Nosso foco total agora, neste caso, é com o processo do Cade. Não priorizamos e não temos nada definido sobre possível entrada da Medley no mercado de GLP-1.