Em meio à expansão do programa social do governo federal Gás do Povo, que desde o fim de janeiro está disponível nas 17 capitais brasileiras, a Supergasbras, empresa controlada pela gigante holandesa SHV Energy, maior companhia do mundo de gás liquefeito de petróleo (GLP, popularmente conhecido como gás de cozinha), planeja colocar mais dois milhões de botijões no mercado até o fim do ano.

Para isso, separou investimentos de R$ 500 milhões somente com o volume extra de vasilhames. Os valores começaram a ser aportados em outubro, a partir do lançamento da primeira fase do Gás do Povo, que inicialmente abrangeu 10 capitais e passou a atender quase 1 milhão de famílias beneficiárias.

Desde então, já foram comprados 700 mil botijões, com investimentos perto de R$ 200 milhões. O salto maior deve ser a partir de março, quando o Gás do Povo passará a atender todos os municípios brasileiros e beneficiar diretamente 15 milhões de famílias no País que se enquadram nas regras do programa.

“Acreditamos que o programa do governo vai garantir um aumento representativo de vendas de botijão no Brasil. Tem muita gente que ainda usa lenha em casa e vai passar a ter um gás para cozinhar. Na prática, vai ser o maior programa de combate de pobreza energética do mundo”, diz Júlio Cardoso, CEO da Supergasbras, em entrevista ao NeoFeed.

O programa Gás do Povo foi aprovado pelo Congresso Nacional no início de fevereiro. Ele garante fornecimento gratuito de botijões para famílias inscritas no CadÚnico e com renda per capita de até meio salário-mínimo (R$ 810,50). São quatro recargas por ano para famílias de até três pessoas, pagas pelo governo federal. Acima disso, o total é de seis botijões por ano.

Atualmente, a Supergasbras comercializa cerca de oito milhões de botijões por mês. Somente com a iniciativa, a empresa deve registrar um aumento de cerca de 5% na receita. Em 2025, a empresa, que está entre as três maiores operações no mundo da controladora holandesa, alcançou faturamento de R$ 9 bilhões.

A companhia tem hoje 5,5 mil revendedores diretos. Das cidades onde o programa já está em vigor, 80% das revendas da Supergasbras já estão credenciadas para atender os beneficiários.

Mas, na avaliação do executivo, há desafios importantes que as companhias precisam enfrentar, incluindo a inclusão da maior fatia de suas revendas e o preço final remunerado pelo governo que, em média, fica um pouco abaixo do cobrado no balcão. No entanto, representa uma receita garantida para quem topa vender via Gás do Povo.

“O governo remunera o produto em um local e entrego a 300 quilômetros de distância e isso não necessariamente está embutido no preço. Eles têm consciência disso e estão buscando um valor justo”, afirma Cardoso. “De qualquer forma, aquela revenda que não aderir ao programa por causa do preço vai assistir seu concorrente vender o botijão de gás."

O volume extra de botijões que a Supergasbras vai injetar no mercado em 2026 vai representar quase 10% do portfólio total da empresa, que hoje conta com 23 milhões de botijões.

Julio Cardoso, CEO da Supergasbras
Julio Cardoso, CEO da Supergasbras

Esse volume está distribuído nos centros de distribuição, nas revendas e nas residências dos consumidores. Em média, para cada botijão vendido, é necessário que a empresa tenha mais três em circulação, justamente pela necessidade de troca e por causa do vencimento dos vasilhames.

Parte dos novos botijões será produzida na fábrica da empresa, que fica em Duque de Caxias (RJ). Para isso, a Supergasbras dobrou o volume de produção, que saltou de 30 mil para 60 mil por mês. Mas ainda é insuficiente. Dessa forma, a empresa comprará de outras fabricantes e importará uma parte.

Os investimentos para absorver uma parte representativa desta nova demanda envolve uma disputa por quatro grandes companhias que, juntas, detêm mais de 80% do mercado de GLP.

Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP), a liderança de mercado em 2025, levando em conta todos os formatos de botijões e venda à granel, ficou com a Copa Energia (que tem as marcas Copagaz e Liquigaz), com uma fatia de 23,79%

O segundo lugar foi da Nacional Gás, 21,37%, seguida bem de perto pela Supergasbras, com 21,21%. A Ultragaz ficou em quarto, com 16,47%.

No total, o mercado de GLP no Brasil alcançou 7,6 milhões de toneladas comercializadas no ano passado. Com a ampliação do Gás do Povo, a expectativa é que, em 2026, o setor ultrapasse a marca de 8 milhões de toneladas.

Somente na embalagem P13, que é a do botijão de 13 quilos, foram 5,1 milhões de toneladas, o equivalente a 67,5% do total vendido no País.

De acordo com o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás), o mercado hoje alcança um faturamento de R$ 60 bilhões, sendo R$ 44 bilhões para as companhias distribuidoras e R$ 16 bilhões para as revendedoras (hoje são cerca de 59 mil revendas no País).

Além dos investimentos nos novos botijões, a Supergasbras planeja um capex de R$ 300 milhões em 2026, que serão aplicados na modernização e inovação de áreas da empresa, ampliação da frota de caminhões, na logística e em tecnologia, como no desenvolvimento recente de um aplicativo para o pedido de entrega de botijões.

Para Cardoso, a aprovação do projeto de lei, que garantiu a venda de uma carga completa do botijão, praticamente elimina as chances de mudanças regulatórias do setor, estudadas pela ANP, como o fracionamento de botijões e o fim do vasilhame próprio, criando uma espécie de “botijão pirata”.

A medida vem sendo alvo de críticas, por colocar em risco a segurança e abrir portas para possíveis irregularidades. “O nosso grupo está em 25 países e conhecemos a legislação no mundo. E a do Brasil é uma das melhores, principalmente para o consumidor, porque ela garante a segurança do vasilhame. E a responsabilidade do vasilhame é da empresa”, diz.

Segundo o CEO da Supergasbras, seria um erro permitir essas mudanças, principalmente pela dificuldade de fiscalização. “Quem vai garantir a segurança do vasilhame, com cada um usando do outro? Isso implode a indústria. Seria uma irresponsabilidade mudar isso."

Um terminal em parceria com a Ultragaz

A aposta de crescimento da Supergasbras, no entanto, não está apenas no programa Gás do Povo. Ela e a Ultragaz criaram uma joint venture para construir um terminal de GLP no complexo portuário de Pecém, no Ceará. O objetivo principal é reduzir a dependência do fornecimento exclusivo da Petrobras e atender, principalmente, o mercado do Nordeste.

“Estamos na fase de engenharia detalhada, com cotações e aprovando o processo financeiro. Passamos a ter infraestrutura de importação de navios grandes com preços competitivos. Hoje só a Petrobras faz essa importação”, afirma Cardoso.

O problema, segundo o CEO da Supergasbras, é justamente na falta de uma infraestrutura adequada de um terminal para que empresas possam trazer esse produto do exterior.

Atualmente, o mercado brasileiro importa cerca de 15% a 20% do que é consumido. E esse GLP só chega via Petrobras, que revende às companhias. Para a Supergasbras, essa operação no Ceará deve garantir esses 15% do gás, com um custo menor.

Com o Gás do Povo, segundo Cardoso, esta operação passou a ser ainda mais relevante. “Os projetos são convergentes. Como a demanda maior do Gás do Povo deve ser no Nordeste, o terminal fica ainda mais viável”, afirma.

O terminal também estará aberto para atender o mercado. Na prática, se uma empresa quiser comprar do exterior, terá um terminal preparado para receber esse volume.

As obras devem começar no fim deste ano e a perspectiva é entrar em operar no início de 2029. O custo do projeto é de R$ 1,5 bilhão, dividido entre as duas empresas. A tendência é que o GLP seja importado dos Estados Unidos.

Essa não será a primeira operação em conjunto da Supergasbras com a concorrente. Desde 2024, as empresas têm um consórcio de gerenciamento em conjunto das engarrafadoras no País, para otimizar os custos e garantir novos mercados.