O South Summit Brazil é o espaço para que quem sonha em empreender possa ouvir de gente que já atravessou a arrebentação, conquistando seu lugar. Coalhado de founders, o segundo dia do evento contou com a presença de Guilherme Benchimol e André Street, que dividiram um pouco das dores e delícias que são montar seu próprio negócio.
Quem também mostrou sua veia empreendedora na quinta-feira, 26 de março, foi o governador Eduardo Leite, que trouxe um pouco daquilo que o Rio Grande do Sul está fazendo em termos de inovação.
Em paralelo, o evento, que conta com o NeoFeed como parceiro de mídia, falou também sobre a situação do mercado e as perspectivas para investidores realizarem saídas e também discutiu por que a América Latina fica para trás dos asiáticos na hora de atrair recursos de investidores estrangeiros.
Amar problemas com disciplina
A plateia estava cheia no espaço principal do South Summit Brazil para ouvir Guilherme Benchimol, fundador e chairman da XP Inc., e André Street, fundador da Stone, sobre suas trajetórias empreendedoras e o aprendizado que tiveram ao longo da jornada.
Uma das dicas foi de ter paixão por aquilo que a companhia quer resolver. "Em qualquer momento do tempo, pode falar de tecnologia, usar tecnologia para melhorar a vida do cliente, o processo da empresa, mas o mais importante é a paixão e dedicação ao problema", disse Street. "Se trabalhar na dor do cliente, você vai criar produtos para resolver o problema. Isso não vai mudar daqui 100 anos."
A paixão não pode ofuscar a disciplina, especialmente na parte financeira. Para Benchimol, muitos empreendedores se "embananam" quando esquecem de fazer as coisas importantes, mas chatas, para focar na parte legal. Para ele, é preciso ter um plano com passo a passo e não sair queimando etapas. "Se faz a coisa certa no momento errado, você acaba queimando a largada, prejudicando a margem", disse.
IA versus formação
Na palestra, Street e Benchimol falaram também sobre o uso da inteligência artificial nos negócios. Para o fundador da Stone, a tecnologia promete acelerar a produtividade das empresas, desde que não se perca o foco na missão da companhia. "Se utilizar isso para fazer a empresa ser mais eficiente e servir o cliente, é fantástico", disse. "Tem que abraçar e saber usar melhor a ferramenta dentro do propósito da sua companhia."
Para Benchimol, a capacidade das plataformas de IA é transformacional na vida das empresas, afirmando que ela será capaz de potencializar as pessoas de uma forma muito maior do que uma formação acadêmica tradicional. "Você consegue fazer análise de 'n' empresas pelo mundo sem sair de casa. Quem vai mais longe com isso serão as pessoas mais curiosas, esse será o diferencial", afirmou.
Leite "startupeiro"
Se sua presença foi sentida no primeiro dia, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, compensou com duas apresentações no segundo dia do South Summit Brazil. Depois de um discurso de tom mais presidenciável, foi a vez dele vestir o colete "startupeiro" e falar dos investimentos na parte de tecnologia, em sintonia com a temática do evento.
Segundo ele, o Rio Grande do Sul está investindo nas áreas da educação para estimular a inovação e projetos de tecnologia. E depois das enchentes, além da infraestrutura, o governo criou programa de bolsas para estudantes de engenharia, para retê-los no Estado e programa para capacitar profissionais para a área de semicondutores.
Ele também tratou da Guria, a inteligência artificial do Estado. Pelo WhatsApp, essa tecnologia conversa com a população para atender às demandas, além das iniciativas para reunir dados da parte de segurança pública. "Temos um olhar especial para o que é tecnologia, softwares e plataformas", disse.
Uma janela aberta
A janela de IPOs pode até estar fechada e os fundos de private equity podem até não estar com apetite para M&As, mas os fundos ganharam uma nova rota de saída para seus investimentos: o mercado secundário.
Para Alexandre Noschese, co-fundador e partner da Across Capital Partners, essa opção vem num momento em que o qualitativo das empresas evoluiu nos últimos anos. E num momento em que compradores estratégicos não têm apetite para pagar valuations altos, o mercado secundário vira uma forma de dar alguma liquidez antes de uma saída definitiva.
"Temos agora um mercado secundário, algo que não existia antes", disse. "O estrutural melhorou e vemos outras avenidas fortalecidas e desenvolvidas para saídas."
A saída pelos Estados Unidos, como fizeram PicPay e Agibank, é algo que muitas companhias e fundos realizaram no auge do frenesi da pandemia, para contornar a situação do mercado acionário brasileiro, vale apenas para quem é de fato grande.
"Para fazer IPO nos Estados Unidos, a empresa tem que ser grande, com bilhões de valuation, para ter liquidez na ação. A pior coisa é fazer IPO e a liquidez secar, porque você vira um anão num mercado gigante", disse Mark Traiman, vice-presidente da General Atlantic.
Imagem e paciência
O mercado da América Latina pode até ser semelhante em termos de tamanho ao Sudeste Asiático, mas atrai menos a atenção dos fundos de venture capital internacional. Para Susana Garcia-Robles, managing partner da Capria Ventures, a região precisa se vender melhor e os investidores internacionais precisam se propor a conhecer o continente.
"Muitas das principais inovações estão vindo do Sul Global, com empreendedores comprometidos em encontrar soluções para os problemas da região", disse. "A mídia está bastante focada na Ásia e precisa saber como vender a América Latina."
Um ponto que prejudica também é a pouca paciência que alguns investidores possuem para ver retornos, comparada com os Estados Unidos, cujo mercado é mais desenvolvido. "Os resultados vêm depois de anos. A mentalidade de curto prazo é um problema", disse.