Distante do Ibovespa e fora do radar do escrutínio de analistas, as ações da Recrusul despontaram como a maior valorização da bolsa brasileira. Em 12 meses, os papéis preferenciais RCLS4 chegam a acumular alta de 1.400% e figuram entre as maiores altas deste início de ano, com ganho de 28% no período.

Entre dezembro do ano passado e janeiro deste ano, o volume de negociação do papel cresceu cerca de 10 vezes, de aproximadamente R$ 5 milhões por dia para, aproximadamente, R$ 53 milhões por pregão.

A forte apreciação dos papéis da companhia de implementos rodoviários e equipamentos para refrigeração impulsionou seu valor de mercado para perto de R$ 250 milhões, embora não tenha sido acompanhada por uma melhora nos fundamentos. A empresa, de acordo com seus balanços trimestrais, atravessa uma sequência de prejuízos recorrentes e esvaziamento de receita.

No terceiro trimestre de 2025 - período do último demonstrativo disponível -, a receita com venda de bens e/ou serviços somou cerca de R$ 300 mil, menos de 10% do registrado no mesmo período do ano anterior. No mesmo intervalo, as despesas operacionais alcançaram aproximadamente R$ 3 milhões, enquanto seu patrimônio líquido era negativo em R$ 27,1 milhões.

O período de forte valorização das ações da Recrusul também movimentou os bastidores da empresa com as negociações para a aquisição de uma fintech, mesmo com a receita em queda livre e patrimônio líquido negativo. A empresa-alvo foi a PG Bank, fundada em 2024 e com sede em Canoas (RS), cidade gaúcha onde também está localizada a Recrusul.

As negociações vieram a público em maio do ano passado, quando a Recrusul S.A. informou, em fato relevante, a assinatura de um memorando de entendimentos (MOU) para avaliar um possível investimento minoritário de até um terço no PG Bank. O PG Bank tem 12 mil correntistas e uma carteira de crédito de R$ 3 milhões, segundo a Recrusul.

No comunicado, o PG Bank foi descrito pela Recrusul como uma companhia nascido “a partir de um spin-off de uma empresa na área contábil/fiscal/tributária com mais de três décadas de experiência de seus sócios controladores”. Segundo apuração do NeoFeed, trata-se da ContMax Contabilidade, de Canoas, mesma cidade-sede da Recrusul.

Embora se defina como um banco, o PG Bank não é uma instituição regulada pelo Banco Central, operando por meio da instituição de pagamentos Inovati. Na ocasião, a Recrusul afirmou que o PG Bank estava se estruturando para se tornar uma instituição de pagamento devidamente regulamentada – processo que até agora não foi concluído.

Embora tenha sido criada em 2024, o PG Bank Ltda. passou por uma mudança societária após a assinatura do MOU com a Recrusul S.A. Em julho, Fernando Vieira Guedes e a MGJ Capital tornaram-se sócios da fintech. A MGJ Capital foi constituída após o memorando e é ligada a sócios da ContMax Contabilidade.

O MOU previa inicialmente um prazo de 90 dias e, em agosto, foi prorrogado por mais 120 dias, sob a justificativa de que seria necessário mais tempo para a realização das análises de diligência.

Em dezembro do ano passado, a Recrusul S.A. informou ter assinado um novo MOU de 60 dias, desta vez para a aquisição da totalidade do PG Bank — e não apenas de até um terço da fintech, como havia sido aventado inicialmente.

Enquanto avalia novas frentes de negócio, a Recrusul S.A. afirma estar em processo de realocação fabril, com a transferência de sua planta industrial de Sapucaia do Sul para Porto Alegre.

A mudança, segundo a companhia, se justifica pela reorganização de sua estrutura operacional e pela implantação de um novo layout industrial, processo que envolve a movimentação de equipamentos pesados e que, conforme comunicado ao mercado, pode impactar negativamente o volume de produção no curto prazo.

Outras mudanças

Além da mudança de sua operação fabril, o período de forte valorização da Recrusul também foi marcado pela movimentação de seu conselho de administração, que realizou cerca de R$ 10 milhões em operações de compra e venda de ações da própria empresa ao longo do ano passado.

O conselho da Recrusul é formado por apenas três integrantes, dos quais dois atuam como controladores da companhia: Bernardo Flores, vice-presidente da empresa e chairman, e Ricardo Mottin Junior, que também ocupa o cargo de CEO.

Flores detém cerca de 45% das ações ordinárias e 9% das preferenciais, por meio de sua holding Portocapital Investimentos, enquanto Mottin Junior possui aproximadamente 40% das ações com direito a voto e cerca de 6% das ações preferenciais.

Do total movimentado, cerca de R$ 4,7 milhões refere-se a vendas de ações ordinárias da Recrusul S.A., que, diferentemente das preferenciais, acumulam queda de 63,4% desde o início de 2025. Outros R$ 3,3 milhões foram movimentados em compras de ações preferenciais, a um preço médio próximo de R$ 1. Neste mês, esses mesmos papéis chegaram a ser negociados a R$ 11 na bolsa.

O presidente do conselho da Recrusul, Bernardo Flores, já foi condenado pela Comissão de Valores Mobiliários em processos administrativos sancionadores. Em 2020, foi multado em R$ 300 mil por conflito de interesses e irregularidades contábeis, após firmar empréstimos com empresas ligadas a si próprio e deixar de divulgar essas operações de forma adequada nas demonstrações financeiras da companhia.

Em 2023, voltou a ser responsabilizado pela autarquia, desta vez com multa de R$ 200 mil, por não divulgar fato relevante relacionado a um aumento de capital realizado em 2016, operação da qual também teria se beneficiado na condição de acionista relevante.

Procuradas, Recrusul, PG Bank e ContMax não responderam o pedido de entrevista até a publicação da reportagem.