Como já era esperado pelo mercado, a Oncoclínicas apresentou uma forte deterioração em seu nível de alavancagem no balanço anual divulgado na noite de quinta-feira, 9 de abril.
No período, a relação dívida líquida sobre Ebitda subiu de 2,6 vezes para 3,5 vezes — patamar que já encosta no limite dos covenants da companhia. Considerando os ajustes exigidos pelos contratos de dívida, porém, o indicador chega a 4,3 vezes.
Para evitar o vencimento antecipado de obrigações, a Oncoclínicas vinha tentando negociar com credores a obtenção de um waiver para o descumprimento dos covenants ainda antes da divulgação do balanço.
A companhia, porém, não conseguiu sequer instalar a assembleia geral de debenturistas convocada para tratar do tema, devido à ausência de quórum mínimo, adiando a deliberação sobre o pedido e mantendo em aberto as negociações com os credores.
Carlos Gil, CEO da Oncoclínicas, disse na call de resultados, na manhã de sexta, 10 de abril, que a companhia tem conseguido avançar nas negociações de dívidas concentradas em grandes credores, mas que tem tido dificuldade nos casos em que o crédito está pulverizado, como é o dos Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e de algumas debêntures.
“Nessas dívidas [pulverizadas] não obtivemos as dispensas. Por isso, o rompimento do covenant. Mas a nossa dívida não está vencida. Não temos, formalmente, nenhuma declaração de vencimento antecipado neste momento”, disse o CEO, que foi a solução interna encontrada pelos conselheiros para substituir o fundador Bruno Ferrari.
Segundo Gil, a empresa já tem algumas dispensas de quebra de covenant, mas, como não foi integral, a dívida foi reclassificada como de curto prazo, dado o risco de antecipação do vencimento.
A companhia informou em balanço que, dos R$ 3,23 bilhões do volume da dívida, R$ 2,9 bilhões estão comprometidos pela quebra dos covenants. Desse valor, a Oncoclínicas afirma ainda não ter obtido waivers para R$ 1,88 bilhão. De acordo com o balanço, a empresa tinha cerca de R$ 520 milhões em caixa no início do ano ante obrigações financeiras de curto prazo de R$ 3,43 bilhões.
Diante do risco, a própria administração da Oncoclínicas admitiu em balanço uma “incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional”.
De acordo com a empresa, a continuidade “depende substancialmente” do êxito das negociações com credores para a obtenção do waiver e da captação de novos recursos. A incerteza foi ressaltada no parecer da Deloitte, auditora independente do balanço.
A ênfase da Deloitte sobre os riscos de continuidade do negócio foi citada por Gil na call com investidores, mas amenizada, com o CEO dizendo não haver dívidas vencidas até o momento.
Em balanço, a Oncoclínicas afirmou que estão sendo avaliadas algumas alternativas para cumprir suas obrigações financeiras, incluindo o reperfilamento das dívidas financeiras e aporte de capital de acionistas.
Os problemas de liquidez da companhia foram agravados por dois eventos extraordinários ao longo do ano, que impactaram em mais de R$ 1,2 bilhão o caixa da empresa.
De um lado, a inadimplência da Unimed FERJ, que deixou de pagar cerca de R$ 800 milhões à companhia. De outro, a perda de aproximadamente R$ 430 milhões (após nova provisão adicional de R$ 213 milhões) em recursos que estavam em letras financeiras do Banco Master no momento de sua liquidação.
No ano passado, o Master chegou a ter 20% da empresa. Havia uma garantia de que, se o banco quebrasse, as ações que detinha da Oncoclínicas deveriam ser devolvidas à companhia. Mas, após a liquidação do banco de Daniel Vorcaro, as ações foram transferidas para o BRB, o que deu início a uma disputa judicial para a execução da garantia.
"Esses eventos somados à diminuição de receita e à falta de diluição de custo fixo impactaram muito a liquidez de curto prazo da companhia, tendo reflexo no endividamento", diz o CEO.
A situação só não foi mais crítica, segundo o executivo, devido ao aumento de capital de R$ 1,4 bilhão, feito pela companhia em novembro. "Fecharíamos o quarto trimestre com uma dívida líquida de R$ 4,1 bilhões, mas conseguimos reduzir para R$ 2,9 bilhões."
Nessa tempestade perfeita, o prejuízo líquido da Oncoclínicas disparou 400% no ano passado encerrando 2025 em R$ 3,67 bilhões — um resultado "bastante negativo" nas palavras do próprio CEO.
Apesar do momento de fragilidade, a call do resultado anual foi esvaziada, sem nenhum questionamento na sessão de perguntas e respostas. A diretoria tampouco entrou em detalhes sobre a proposta de venda para a Porto Seguro, que, nas últimas semanas, tem gerado atritos dentro da companhia
Racha interno
Apesar das tentativas de renegociação com credores, a estratégia vem sendo criticada por parte dos acionistas da empresa. Em carta enviada à companhia, no mês passado, a Mak Capital — acionista com cerca de 6,3% do capital — classificou como “complexa e com efeitos limitados” a tentativa de obtenção de waivers junto a credores, citando a elevada pulverização das dívidas como um fator que dificulta a obtenção de quórum e reduz as chances de sucesso no prazo.
A companhia também tem enfrentado atritos em seu conselho de administração. O estopim foi a proposta da Porto Seguro para uma possível venda de suas operações. Em reunião para deliberar sobre a proposta, os conselheiros Marcos Grodetzky e Raul Rosenthal se posicionaram de forma contrária, apontando possíveis falhas na condução do processo.
Na manifestação conjunta, os conselheiros afirmam que as negociações foram conduzidas por acionistas — e não pela diretoria — o que, em sua avaliação, comprometeria a credibilidade do processo junto a credores. Grodetzky e Rosenthal também criticaram o fato de a companhia conceder exclusividade à Porto, o que poderia enfraquecer seu poder de barganha e limitar as alternativas.
Na estrutura proposta, a operação resultaria na criação de uma nova entidade controlada pela Porto, que concentraria a principal atividade operacional da companhia, enquanto a Oncoclínicas remanescente passaria a deter participação econômica relevante, mas com menor influência sobre a gestão.
Dentro da administração, a proposta culminou com a saída da CFO Camille Faria, que havia assumido o cargo há pouco mais de um mês e que se opôs aos termos negociados.
Já com a oferta da Porto na mesa, a Mak Capital decidiu dobrar a aposta na companhia e propôs um aporte de R$ 500 milhões, condicionado à destituição do atual conselho.
Após a proposta da Mak, a administração convocou uma nova assembleia de acionistas para 30 de abril, que inclui na pauta justamente a destituição e eventual eleição de um novo conselho de administração.
Na convocação, a administração propôs a indicação de Marcelo Curti para a presidência do conselho de administração, em substituição a Marcelo Gasparino, que renunciou ao cargo nesta semana.
Entre os nomes indicados, apenas Raul Rosenthal e Marcos Grodetzky — que já integravam o colegiado — coincidem com os defendidos pela Mak Capital. O fundo, porém, busca ampliar sua representação com a inclusão dos novos membros independentes Mateus Affonso Bandeira e Ademar Vidal Neto.