Quando o GPA divulgou seus indicadores do quarto trimestre e do consolidado de 2025, algumas palavras chamaram mais atenção do que os números do balanço. Em especial, um trecho, que colocou o grupo, há anos sob pressão do mercado, ainda mais em xeque.

Nas notas explicativas que acompanharam as demonstrações financeiras do período, a varejista alimentar afirmou que determinadas condições indicam a existência de uma “incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”.

Ao traduzir essas condições, a empresa informou que, em 31 de dezembro de 2025, apresentava um déficit de capital circulante líquido de aproximadamente R$ 1,22 bilhão, decorrente, principalmente, de empréstimos e debêntures com vencimento em 2026, da ordem de R$ 1,7 bilhão.

Nesse contexto, o GPA, dono de marcas como Pão de Açúcar, ressaltou que, apesar da melhora em seus principais indicadores operacionais, bem como a geração positiva recorrente de caixa operacional no período, a rede seguiu apurando prejuízo em 2025 – de R$ 651 milhões, uma melhora anual de 61%.

Já na call com analistas sobre o balanço, realizada nesta quarta-feira, 25 de fevereiro, Alexandre Santoro, o CEO do GPA, ressaltou outros desafios que herdou quando assumiu o comando da operação, no início deste ano.

Entre eles, cerca de R$ 17 bilhões em contingências fiscais e trabalhistas. Além de fatores que fogem ao controle da operação, mas que só agravam essa situação, como o aumento da taxa básica de juros, o que impactou duramente o custo das dívidas contraídas em gestões anteriores.

“O GPA passou por muitas mudanças nos últimos anos, por diferentes prioridades e direcionamentos. Mas o fato é que precisamos de uma mudança estrutural”, afirmou Santoro. “Uma companhia como o GPA, com a operação, a marca e a posição que tem, não pode ficar anos sem gerar caixa.”

Danças das cadeiras

O GPA, de fato, foi palco de muitas mudanças num intervalo não tão extenso. A começar pela própria cadeira de Santoro. O executivo é o sétimo CEO a comandar a varejista em pouco mais de 11 anos – incluindo nessa conta dois interinos.

Um dos sintomas dos desafios vividos pelo grupo nos últimos anos, essa alta rotatividade na posição está ligada a outro pano de fundo que ajuda a explicar o contexto conturbado da rede: as mudanças de acionistas controladores.

O grupo Coelho Diniz, da família homônima, assumiu o bloco de controle do GPA em 2025, ano que também foi marcado por uma série de disputas entre acionistas, que se refletiram em mudanças constantes no conselho de administração e nas lideranças da companhia.

Uma dessas alterações aconteceu em outubro, quando Marcelo Pimentel, que liderava o grupo desde 2022, deixou o posto, sendo substituído interinamente pelo então CFO Rafael Sirotsky Russowsky, antes da chegada de Santoro.

Entrecortada por seguidos planos de reestruturação e mudanças de direcionamento, essa intensa dança de cadeiras na posição teve início, por sua vez, em 2014, dois anos depois de o grupo francês Casino, liderado na época por Jean-Charles Naouri, assumir o controle do GPA.

O Casino alcançou tal status em 2012, após uma longa batalha com Abilio Diniz (1936-2014), que, até então, ocupava essa posição. Nessa disputa, o empresário brasileiro chegou a buscar uma fusão entre o Pão de Açúcar e o Carrefour, o que foi visto por Naouri como uma tentativa de evitar que ele assumisse a rede brasileira.

No último episódio desses embates, Diniz se desfez de toda sua participação e deixou a empresa. O que abriu caminho para o plano do Casino de consolidar sua empresa como um grande player na América Latina, por meio da criação de uma plataforma ampla de marcas no varejo.

Para isso, no Brasil, o grupo francês tinha uma prateleira de ativos à disposição. Entre eles, a Via Varejo, que reunia as varejistas de eletroeletrônicos Casas Bahia e Ponto. E, no varejo alimentar, além do Pão de Açúcar, o Assaí, rede de cash & carry e principal rival do Atacadão, marca do Carrefour nesse espaço.

Entretanto, com um combo de dívidas e dificuldades crescentes em seu mercado doméstico, o Casino começou a colocar o pé no freio nessas ambições em junho de 2019. Após mais de dois anos de procura por um comprador, o grupo vendeu a Via Varejo, para a família Klein, fundadora da rede.

Esse foi o ponto de partida para outras negociações, seja para a venda total ou a redução das fatias que o Casino detinha nessas operações. No Assaí, o grupo se desfez de todas suas ações. O mesmo caminho foi percorrido com a rede colombiana de supermercados Almacenes Éxito.

Já no GPA, a última peça – ainda - nessa coleção, a fatia foi reduzida de 40,9% para o patamar atual de 22,5% - contra 24,6% do clã Coelho Diniz. E, à medida que deixou de ser prioridade para o grupo francês, a rede brasileira viu as turbulências se agravarem que já vinham marcando o seu percurso.

Capítulo mais recente

Em outros números do capítulo mais recente dessa saga, o GPA reportou um prejuízo líquido de R$ 523 milhões no quarto trimestre de 2025, uma melhora de 29% sobre o número registrado na última linha do balanço em igual período de 2024.

Já a receita líquida recuou 2% entre outubro e dezembro, para R$ 5,1 bilhões, e cresceu 1,7% no ano, para R$ 19,1 bilhões. O Ebitda ajustado, por sua vez, teve expansão de 2,5% no trimestre, para R$ 510 milhões, e de 5,2% em 2025, para R$ 1,75 bilhão.

O GPA fechou o período com uma dívida líquida de R$ 2,07 bilhões, contra R$ 1,39 bilhão, um ano antes. Nessa mesma base de comparação, a alavancagem da operação saiu de 1,6 vez, em 2024, para o patamar atual de 2,4 vezes.

Em relatório, a XP ressaltou que o grupo reportou resultados tímidos no trimestre, com a receita pressionada pela fraca demanda, mas com expansão da margem bruta e do Ebitda na esteira de iniciativas de eficiência operacional.

“Ainda assim, a dinâmica do fluxo de caixa livre permanece preocupante, com o fluxo de caixa livre de 2025 sendo consumido por despesas financeiras expressivas”, escreveram os analistas da XP, com recomendação neutra e preço-alvo de R$ 4 para a ação.

Com a mesma classificação e preço-alvo para o papel, o Itaú BBA destacou que o grupo reportou números que traduzem uma operação resiliente, com crescimento em linhas como vendas mesmas lojas – ressaltando que esse indicador foi, provavelmente, o melhor entre seus pares.

Mas alertou: “Dito isso, a alavancagem alta e as elevadas taxas de juros seguem pressionando o bottom line”, observou o banco. “No geral, a história continua sendo de progresso operacional e gradual, compensando por persistentes dificuldades financeiras.”

Na call com analistas, Santoro ressaltou que existem diversas frentes a serem endereçadas no GPA, no que chamou de passivos estruturais – das contingências fiscais e trabalhistas às negociações para alongar a dívida da operação.

“Meu mandato é endereçar os temas estruturais da companhia, alinhando operação, rentabilidade e geração de caixa”, disse. “Tenho plena consciência dos desafios à frente, mas também muita convicção nas nossas estratégias, forças das marcas e do apoio de parceiros e fornecedores.”

Na B3, após abrirem o dia com queda de mais de 3% e recuarem mais de 9% no decorrer do pregão, liderando as perdas do Ibovespa, as ações do GPA operavam com baixa de 2,56% por volta das 17h35, dando ao grupo um valor de mercado de R$ 1,49 bilhão.