Brasília - Com a surpreendente desistência do governador paranaense Ratinho Jr. da corrida presidencial, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, surge como o pré-candidato à Presidência mais provável da terceira via - ele deve ser anunciado pelo seu partido, o PSD, em breve. Mas, neste momento, ele divide opiniões dentro do empresariado.
Ao mesmo tempo em que deve ganhar adesão do agronegócio, que tem tradição em seu Estado, esse apoio não deve se estender nacionalmente, avaliam fontes do próprio setor consultadas pelo NeoFeed.
Isso acontece pelo perfil do setor agropecuário, que é fortemente identificado com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e tende naturalmente a apoiar a candidatura do filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Durante o governo de Bolsonaro, o agro foi o setor da economia que mais apoiou sua gestão e segue oferecendo oposição ferrenha à atual gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), principal adversário de Flávio nas eleições deste ano.
Portanto, a avaliação interna no setor de agronegócios é que Caiado angarie apenas parte desse apoio, principalmente ligado aos produtores e indústrias goianas e região. Ele tem a simpatia do meio rural, mas transformar essa empatia em votos é uma tarefa árdua, lembram pessoas do agro.
Um grande executivo do agronegócio, que é próximo de Caiado e esteve nos últimos dias com ele, analisa que o político goiano tem muita entrada com o meio conservador, e tem potencial de conquistar votos no meio com pautas como a segurança pública, uma das bandeiras de sua administração no estado. Mas admite obstáculos no cenário eleitoral a nível nacional, uma vez que Goiás é um Estado pequeno.
“O agro tem muito lobby, mas não tem tanto voto assim. E nacionalmente ele [Caiado] não agrega. Infelizmente, ele não tem QE [quociente eleitoral]”, diz em condição de anonimato a fonte ao NeoFeed, que esteve recentemente com Caiado.
Caiado tem simpatia do meio rural, conservador, mas ainda não tem apoio suficiente do agro para se lançar.
E o mercado?
Por outro lado, um segmento importante da economia, o mercado financeiro, também não dá sinais, ao menos até o momento, de entusiasmo relevante a uma chapa encabeçada por Caiado.
Apesar de político experiente e já ter sido candidato à Presidência uma vez, em 1989 na eleição de Fernando Collor, Caiado é visto por fontes do meio empresarial como integrante da “velha política” e de discurso às vezes radical, que guarda mais semelhanças com o bolsonarismo – ele já foi aliado de Bolsonaro, mas atualmente se coloca como independente.
“É muito difícil que o mercado financeiro abrace a candidatura dele [Caiado]”, diz uma fonte do mercado, que conta que agentes do setor já vêm pedindo reuniões com conselheiros na área econômica do virtual candidato Flávio Bolsonaro.
Parlamentares, políticos, fontes do Congresso e do mercado analisam que, no geral, o PSD já vinha enfrentando dificuldades no bastidor de decolar com uma candidatura de “terceira via”. E fazer frente de maneira mais competitiva à polarização no país entre PT e bolsonarismo. O mais bem avaliado nas pesquisas era justamente Ratinho, na casa dos 6% de intenção de votos, que desistiu.
Num primeiro momento, alinhado com o sentimento do mercado, o partido de Gilberto Kassab, em grande parte – apesar das dissidências internas -, sonhava em apoiar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para candidato a presidente da República. Kassab é secretário de Governo de Tarcísio. Mas com o recuo de Tarcísio, o nome de Ratinho vinha empolgando o partido, que mais tarde também filiou Caiado, antes no União Brasil.
Até mesmo do PSD, contudo, não há apoio total a um candidato próprio ou à chamada terceira via. Uma ala do partido apoia o governo Lula, que inclusive possui três ministros do PSD: Alexandre Silveira (Minas e Energia); Carlos Fávaro (Agricultura); e André de Paula (Pesca e Aquicultura).
Ratinho frustrou empresários
O que mais surpreendeu tanto integrantes da cúpula do PSD como empresários que viam em Ratinho uma alternativa à polarização é que a campanha presidencial do governador paranaense já estava em estágio avançado, relatam fontes do setor produtivo que participavam das negociações.
Um senador da centro-direita disse ao NeoFeed que Kassab vinha comunicando vários parlamentares nos últimos dias de que Ratinho seria lançado nesta semana, provavelmente na próxima sexta-feira, 27 de março. Sua estratégia de marketing digital e redes sociais também estava avançada. E ele inclusive se reuniu recentemente com deputados estaduais para reiterar a campanha.
A decisão de Ratinho frustrou também parte do empresariado que vinha se entusiasmando com ele mas inicialmente chegou a alimentar a esperança de que Tarcísio fosse o candidato mais competitivo da direita. No entanto, fontes do PSD e do Congresso descartam que todos os votos de Ratinho migrem para Caiado.
Em conversas com um interlocutor recentemente, Ratinho Jr., no entanto, chegou a levantar dúvidas se realmente teria disposição para encarar uma campanha que já se desenha como muito dura e marcada novamente pela polarização política. E nos últimos dias ainda teve que conviver com um problema político local: o PL, partido de Flávio Bolsonaro, anunciou apoio ao senador Sérgio Moro para o governo do Paraná, como adversário do grupo de Ratinho Jr.