Brasília - Após suspeitas de participar do esquema de fraudes de R$ 12,2 bilhões com o Banco Master e de ter tentado uma compra mal-sucedida de parte da instituição financeira de Daniel Vorcaro, o BRB, agora sob novo comando, já deflagrou um movimento de “guinada” para troca de diversos cargos da diretoria-executiva e também no Conselho de Administração, que ainda deve permanecer pelas próximas semanas e meses, afirmaram ao NeoFeed fontes da cúpula do banco público de Brasília.

“As mudanças não acabaram e ainda estão por vir novas indicações e aprovações de diretores e conselheiros. Isso é natural quando se tem um novo presidente, mas também foi feito para tranquilizar o mercado”, diz um alto executivo do BRB.

Em meio à reestruturação no comando do banco, também cresce a discussão no mercado de uma possível capitalização do BRB para cobrir o rombo estimado de R$ 4 bilhões causado pelas transações suspeitas com o Master.

Por enquanto, a auditoria do escritório Machado Meyer, com suporte técnico da Kroll, ainda está levantando qual seria o valor exato do rombo. E o Conselho de Administração do banco público ainda não recebeu qualquer comunicado do Banco Central (BC) a respeito da insuficiência patrimonial da instituição financeira do Distrito Federal

Na semana passada, o BRB informou ao mercado que estava "pronto um plano de capital que, entre as opções, prevê aporte direto do controlador". A nota afirmava que os prejuízos do Caso Master estavam sob investigação pelo BC e pela auditoria independente da banca de advocacia contratada pelo banco.

O ideal, diz uma fonte do Conselho do BRB ao NeoFeed, é que o montante seja restituído aos cofres da instituição financeira por meio das investigações da Polícia Federal, através de sequestro de bens e outras medidas.

O pior cenário seria se o governo do Distrito Federal (GDF) tivesse de fazer um aporte nesse sentido ou se ele viesse a ser federalizado, mas essa hipótese não está sendo cogitada por enquanto.

O banco vem negando essa possibilidade e nem cogita seguir por esse caminho, mas o mercado analisa que esse pode ser, sim, um meio dependendo da conclusão das investigações.

Procurado, o BRB respondeu em nota que a companhia "informa que possui plena capacidade de recompor seu capital, caso venham a ser confirmados eventuais prejuízos decorrentes de determinadas operações. Ademais, destaca que dispõe de plano de capital estruturado para cenários de estresse, o qual não foi acionado até o momento".

“O BRB reafirma que segue sólido, com patrimônio líquido de R$ 4,5 bilhões e patrimônio de referência de R$ 6,5 bilhões, operando normalmente e assegurando todos os serviços financeiros”, acrescenta o BRB.

Juntando os tijolos

Com mais de R$ 80 bilhões em ativos, R$ 60 bilhões em carteira de crédito e lucro líquido recorrente de R$ 518 milhões no primeiro semestre de 2025, o BRB terá uma semana intensa para ajustar tanto a sua parte financeira como administrativa.

Além dos novos diretores-executivos já anunciados, de um novo presidente provisório para o conselho administrativo e mais três novos conselheiros já indicados pela governadora em exercício do DF, Celina Leão - tudo na última semana - o NeoFeed apurou que algumas diretorias também devem contar com novos executivos em breve: Finanças e Controladoria; e a de Varejo.

Essas duas diretorias se encontram vagas e vêm sendo acumuladas pelo atual presidente, Nelson Antônio de Souza, desde que ele tomou posse em dezembro de 2024, logo após a operação Compliance Zero da Polícia Federal.

Além da prisão de Vorcaro e quatro diretores do Master, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e o diretor financeiro à época, Dario Oswaldo Garcia Júnior, foram afastados pela Justiça no âmbito das investigações.

Souza é egresso da Caixa e teve carta branca do governador Ibaneis Rocha (MDB) para promover as mudanças que achar necessárias.

E essas trocas na alta cúpula, conta outra fonte, também visam restabelecer as funções do banco e mostrar a acionistas e o mercado de que o BRB está funcionando normalmente, num momento em que Ibaneis é alvo de críticas no meio político de Brasília e ainda pode ser questionado no Congresso Nacional em uma eventual CPI pela fracassada compra do Master.

Desde que o BC vetou a compra do Master pelo BRB, em 3 de setembro de 2025, a ação preferencial do banco público acumula queda de quase 40% até o pregão de segunda-feira, 19 de janeiro deste ano. O valor de mercado da instituição financeira é de R$ 3,4 bilhões.

Na segunda semana de janeiro já foram nomeados dois novos diretores-executivos do BRB: Hugo Andreolly Albuquerque (Negócios Digitais) e Janiele Queiroz Mendes (Gestão de Pessoas). E também já foram indicados como novos conselheiros do banco: Edison Garcia – atual presidente da Companhia Energética de Brasília (CEB Holding) e cotado para presidir o Conselho de Administração ainda no primeiro semestre; Joaquim Luna; e Sérgio Ricardo Miranda.

Também foi eleito um novo presidente do conselho administrativo do banco, Raphael Vianna, que está assumindo o colegiado de maneira provisória e em tese pode permanecer até 30 de abril, quando uma assembleia geral ordinária – já marcada – deve votar e aprovar um novo time de conselheiros.

Antes disso, estão previstas também outras duas assembleias, mas extraordinárias: uma em 5 de fevereiro, para destituir dois conselheiros: o ex-presidente do Conselho de Administração, Marcelo Talarico, e o conselheiro Luís Fernando de Lara Resende. E outra em 19 de fevereiro para nomear os novos conselheiros indicados.

Para substituir Talarico, que está no Conselho há sete anos e presidia o colegiado desde 2022, foi eleito no último dia 15 o novo presidente do Conselho, Raphael Vianna. Vianna já era conselheiro do banco desde o segundo semestre do ano passado, mas não chegou a participar das negociações de tentativa de compra do Master.

Advogado, Vianna ocupou cargos no Ministério da Agricultura na gestão do ex-ministro Blairo Maggi (governo Temer) e também no GDF – na Casa Civil do governador Ibaneis Rocha (MDB), nos primeiros meses de seu primeiro mandato, em 2019. E atuou também como procurador federal da Advocacia-Geral da União (AGU).

Vianna também é sócio, no escritório de advocacia “Peres e Novacki”, de Eumar Novacki, que foi secretário-executivo de Maggi na Agricultura e recentemente atuou no julgamento da trama golpista como advogado de defesa de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) – ambos foram condenados e presos pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

No entanto, o novo presidente do Consad não deve permanecer no cargo por muito tempo e a tendência é que ele saia até antes disso, em março, relatam fontes do banco que acompanham o assunto.

O desafio do BRB é grande. Além da desvalorização das ações e do impacto reputacional no envolvimento com o Master, o banco público precisa mostrar que a troca de comando representa mais do que uma mudança de nomes. Até que as investigações avancem e os números finais do rombo sejam conhecidos, o futuro do banco do Distrito Federal seguirá condicionado a decisões que extrapolam o balanço.