No momento em que o dinheiro ainda não abunda no mercado de venture capital do Brasil e da América Latina e em que ainda existem dúvidas a respeito do ambiente político e econômico, a retomada dos IPOs pode ajudar a trazer mais interesse dos investidores estrangeiros pela região.
A avaliação é de Paulo Passoni, managing partner da Valor Capital Group, uma das principais gestoras que investem em startups early stage no mercado brasileiro e latino-americano, e ex-sócio do SoftBank Latin America. Para ele, aberturas de capital bem sucedidas, de nomes do ecossistema de VC local, são indícios de que a região é capaz de produzir histórias de sucesso.
“A indústria não depende do que acontece com o governo brasileiro ou com o câmbio, mas do sucesso ou fracasso das companhias em que investe”, diz ele em entrevista ao NeoFeed.
“Se a história é muito boa, a história vence. Se os números da empresa são muito bons, os números vencem”, complementa.
Ele destaca que os investidores precisam ver o dinheiro retornando para aumentarem seus aportes na região. Por isso, escala é importante, especialmente quando os olhos do mundo estão voltados para inteligência artificial (IA), tema que ainda está dando os primeiros passos ao sul do Equador.
“O desafio do Brasil e da América Latina é criar empresas grandes. Com essas empresas fazendo IPOs, começa a voltar capital aos investidores, que veem que essa indústria faz sentido”, diz Passoni.
Ele diz que quem está no mercado neste momento são os investidores de cunho micro, aqueles que acompanham as companhias e as tendências. O resultado é menos liquidez do que em períodos de mais otimismo, promovendo o stock picking.
Isso afeta também as captações, ainda que o cenário seja melhor. Em abril, o NeoFeed noticiou que a casa fundada pelo ex-embaixador no Brasil Clifford Sobel e seu filho Scott, e que tem no portfólio nomes como Wellhub e CRMBonus, conseguiu captar aproximadamente US$ 100 milhões em seu quinto fundo de VC para investir em startups em estágio inicial. Questionado sobre captações, Passoni não quis comentar.

Por conta disso, os empreendedores precisam se adaptar ao ambiente, tornando suas companhias rentáveis, considerando que o momento ainda é de stock picking – no ano passado, a Valor fez um total de 11 investimentos em todas as regiões que atua e nas fases de growth e venture, com valores não divulgados.
“A falta de dinheiro faz os empreendedores serem criativos, os força a serem rentáveis, descobrirem modelos de negócios mais sustentáveis. Isso é bom”, afirma ele.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Quais são as perspectivas para o venture capital?
O capital no mundo inteiro está sendo sugado para investimentos em IA. Neste contexto, as coisas na América Latina ficam para trás. As coisas de IA na América Latina até estão atraindo capital, só que elas são muito novas, não são grandes ainda, porque começaram há pouco tempo. Os empreendedores estão aprendendo como as ferramentas funcionam, o que eles podem fazer diferente, quais modelos de negócio podem funcionar. Mas veremos essas empresas indo bem, atraindo capital. Dito isso, vemos oportunidades na região apesar dessa maneira simplista de pensar.
Como assim?
Tem muitas empresas boas sendo criadas, chegando a tamanhos impressionantes no Brasil. No nosso portfólio, temos a Cloudwalk, que está indo muito bem, por exemplo. Tem várias empresas no mercado indo muito bem, começando a ficar parrudas. Estamos vendo IPOs, algo que eu não achava que ocorreria antes das eleições. Acredito que vamos começar a ter mais IPOs de grandes empresas do Brasil, a despeito da eleição do Brasil, do macro. O mercado está dizendo basicamente o seguinte: se tem uma história de alto crescimento com qualidade, tipo Nubank, tipo Mercado Livre, eu pago um prêmio.
O que isso demonstra sobre o momento atual desse mercado?
O que essa indústria faz é idiossincrático, não é macro. O sucesso ou não dessa indústria depende das empresas saírem de 1% de market share para 5%, depois para 10%, para 20%. Quando se chega nesse ponto, aí sim vira uma empresa que depende do macro. A indústria não depende do que acontece com o governo brasileiro ou com o câmbio, mas do sucesso ou fracasso das companhias em que investe. Ainda estamos num processo de aprendizado, de amadurecimento, e nada mais importante do que o sucesso dos IPOs para validar a indústria.
"O que precisamos no ecossistema são exemplos de empresas com mais de R$ 6 bilhões em receita. Porque só quando uma empresa fica gigante é que importa"
A mudança de governo pode acelerar esse processo?
Não acho que importa qual governo virá. Nos próximos dois anos, temos muitas empresas que podem fazer IPOs, como Wellhub e a Cloudwalk. Tem até um risco curioso de vir um governo mais friendly para investidores internacionais, atraindo muito mais capital. O momento atual é de uma pequena falta de dinheiro para empreendedores em growth; no early stage tem capital suficiente. Mas a falta de dinheiro faz os empreendedores serem criativos, os força a serem rentáveis, descobrirem modelos de negócios mais sustentáveis. Isso é bom.
A situação econômica está pesando menos?
O que acontece com a economia não deveria impactar tanto o setor. O que precisamos no ecossistema são exemplos de empresas com mais de R$ 5 bilhões, R$ 6 bilhões em receita. Porque só quando uma empresa fica gigante é que importa. Para você fazer um IPO, ser bem recebido na Bolsa, ter liquidez, precisa ser grande. O desafio do Brasil e da América Latina é criar empresas grandes. Com essas empresas fazendo IPOs, começa a voltar capital aos investidores, que veem que essa indústria faz sentido.
A respeito de IPOs, você disse há cerca de dois anos que o momento era de investir, e não de vender. Dito isso, chegamos no momento de vender?
IPO não é vender, ele é vender 10% ou 15% da empresa. O investidor vai vender totalmente seu investimento depois de dois, três anos do IPO, e isso depende de cada investidor, obviamente. Mas o momento é de comprar, não de vender. Em growth há mais oportunidades do que capital. É um mercado de stock picking. Se o macro ficar bom na América Latina, algo possível daqui a dois anos, talvez tenha capital demais entrando. E aí talvez seja o momento de você vender e não comprar. Mas o momento atual é de comprar.
A questão de venda toca no tema de reciclagem de portfólio, retorno aos investidores…
Isso é algo que precisa ocorrer independentemente se o momento é de comprar ou vender, não importa qual o ambiente. Os gestores têm algumas opções, como fazer uma venda secundária para um fundo de secundários, um tipo de estrutura que cresceu muito no mundo. Eles têm bastante capital, viraram uma saída frequente para fundos de early stage. Cada fundo, cada empresa é uma situação, então aí que fica difícil eu te dar uma resposta que seja genérica.
Mas parece então, pelo cenário, que os gestores têm que olhar muito mais para alternativas de retorno de capital do que depender de uma venda.
As alternativas são fundos de secundária ou outros acionistas novos que entram na empresa, que podem querer também comprar participação. São essas duas coisas que estão acontecendo com uma frequência maior do que há cinco anos, quando isso quase não existia. Hoje em dia é super comum. Mas esse tipo de opção só existe para as melhores empresas. A questão é ter boas empresas no portfólio.
"Se fosse fácil captar fundos, teria muito mais dinheiro no mercado. Eu acho que tem capital suficiente no early stage"
Estamos também em um momento em que muitos portfólios foram construídos durante a pandemia, quando os valuations estavam inflados, com algumas teses não indo bem.
Mas algumas delas estão indo super bem, valendo mais do que foram avaliadas na pandemia. E algumas não estão indo bem, então depende.
Mas o momento atual é de investimentos mais seletivos?
Quando se faz uma aposta, achando que a empresa vai continuar naquela pegada, e passam cinco anos, algumas excederam as expectativas, algumas estão dentro das expectativas, algumas estão abaixo. O difícil é lidar com as que estão abaixo da expectativa. E cada fundo vai ter um mix diferente entre empresas.
Como está o momento para captação de recursos? Com a IA não sendo forte no Brasil e na América Latina, isso atrapalha as captações?
Se fosse fácil captar fundos, teria muito mais dinheiro no mercado. Eu acho que tem capital suficiente no early stage, e não é que a América Latina precise de mais capital para early stage. Onde está difícil é Série B, Série C e Série D. O investidor dito correto para a indústria investe pelas razões micro, e não macro. Só que esse é mais difícil de achar. E ninguém está empolgado com a região, por conta das incertezas do ano por conta das eleições. No momento, só tem o cara de micro, mas isso deve mudar.
O que precisa acontecer para isso mudar?
Apresentar uma perspectiva de performance superior em relação ao mercado americano. Quando todo mundo vai investir nos Estados Unidos e o preço sobe, o retorno futuro cai. Quando ninguém investe na América Latina, o retorno futuro sobe. Aí, eventualmente, as pessoas veem isso e correm atrás. Neste momento estamos com menos capital por conta das incertezas do macro. Com os IPOs indo bem, as empresas indo bem, novas histórias bacanas, tudo isso vai criar interesse pela região. E tem empresas de IA surgindo no early stage.
Muito se diz que o potencial da região é por empresas que aplicam IA, e não companhias que estão desenvolvendo a “tecnologia de ponta”, a próxima OpenAI. É isso mesmo?
Existem dois tipos de empresas de IA: aquelas que criam as ferramentas para qualquer um utilizar e as empresas que aplicam as ferramentas. Na América Latina, são mais as empresas que aplicam as ferramentas. Se você for fazer uma ferramenta, tem que ser para o mundo inteiro, especialmente para os Estados Unidos. Não importa onde a empresa começou, se ela está fazendo uma ferramenta, ela tem que fazer uma ferramenta focada no mercado americano. Ganhar esse mercado, que é o mais difícil, e depois ir para o resto do mundo. Vemos poucos casos desses na América Latina, mas existem. O mais comum são de aplicação.
"Com os IPOs indo bem, as empresas indo bem, novas histórias bacanas, o interesse pela América Latina vai crescer"
Diante deste cenário, qual o apetite da Valor para investimentos?
No early stage, estamos investindo como a gente sempre investiu. No growth, a gente faz investimentos de vez em quando em empresas globais, que a gente ajuda a trazer para o Brasil. Algumas vezes, empresas locais que a gente acha que têm o potencial de ficar gigantes. Cada fundo como o nosso vai fazer entre quatro e seis investimentos por ano. Não é muito, então você precisa de um número muito grande de players para suprir a demanda do mercado. Tem que escolher poucas coisas para fazer por ano, e a situação é complexa quando se fala em early growth.
No caso da Valor, considerando a experiência na América Latina, como vocês estão trabalhando?
No nosso caso, fizemos alguns investimentos de early growth. Não podemos fazer um portfólio só de early growth ou em uma só região. Um gestor não pode fazer só de Série B, ele tem que fazer um pouco de Série B, um pouco de Série C, um pouco de pré-IPO. Precisa ser diversificado em termos de regiões. Você equilibra o portfólio em termos de risco para retornar o capital de uma forma contínua para o seu investidor, não só daqui a dez anos.
Como colocar então a América Latina e o Brasil no mapa?
Dá para colocar. Se a história é muito boa, a história vence. Se os números da empresa são muito bons, os números vencem. O que acontece é que tem muitas histórias que você não sabe ainda, que ficam naquele lugar em que a convicção não é altíssima, então o empreendedor precisa ficar lucrativo, ao invés de levantar capital.
A empresa tem que ser um diamante então, porque o momento é complicado para a região…
Cada fundo terá uma visão do que é um diamante. E não é tão negativo quanto parece, porque tem o lado em que todo mundo se vira. E US$ 4 bilhões que fluiu para a região no ano passado não é pouco dinheiro. Dá para viver com US$ 4 bilhões.