Os unicórnios estão em declínio no ecossistema de venture capital dos Estados Unidos, afetados pelos juros altos que se espalharam pelo mundo após a pandemia. No processo de seleção natural da espécie, apenas alguns prosperam, impulsionados pela inteligência artificial (IA).
Um levantamento da consultoria Pitchbook aponta que quase um quarto das startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão perderam seus "chifres" em 2025, desde a última rodada de investimento.
O estudo constatou que 222 dos 857 unicórnios provavelmente viram seu valor de mercado cair abaixo de US$ 1 bilhão, considerando informações públicas e apurações internas.
A avaliação é de que muitos unicórnios surgiram em anos de liquidez abundante, elevando os valuations a patamares historicamente altos. Com a mudança das condições macroeconômicas, várias companhias não conseguiram manter o status.
“As condições macroeconômicas mudaram substancialmente, com taxas de juros mais altas e um impasse prolongado no setor de investimentos, alterando fundamentalmente as avaliações. Como resultado, startups que captaram recursos pela última vez em 2021 e 2022 estão sendo negociadas com desconto médio de 68,2% e 52,1%, respectivamente, em 2025”, diz o estudo da Pitchbook.
Segundo o levantamento, muitas startups dos tempos áureos que não captaram capital recentemente apresentam maior discrepância entre o último valuation e o desempenho, refletindo avaliações desatualizadas.
A situação é diferente para quem levantou capital em 2023, que tem se saído melhor, ainda que não esteja imune a markdowns, marcações de valor abaixo da última rodada. “Startups que realizaram sua última rodada de financiamento em 2023 estão sendo negociadas com desconto médio de 19,4% em 2025”, aponta o estudo.
Apesar do “abate” de várias empresas, a raça dos unicórnios americanos está cada vez maior em termos de valuation. O levantamento mostra que, ao fim de 2025, o grupo apresentou valor combinado de US$ 4,7 trilhões, com base nas avaliações pós-investimento de cada empresa. Trata-se de aumento de 56,6% em relação a 2024.
Diferentemente do período da pandemia, quem impulsiona o valuation são poucos nomes: as dez maiores empresas responderam por 51,8% do valor em 2025, contra 18,5% em 2022.
“Na prática, o mercado de capital de risco opera agora como dois ecossistemas distintos; enquanto os maiores nomes levantam rodadas frequentes com avaliações em rápida ascensão, uma parte substancial do mercado luta para captar novo capital”, informa um trecho do relatório do Pitchbook.
O estudo aponta que a IA tem sido um dos principais fatores dessa concentração, com investidores buscando exposição aos vencedores da corrida tecnológica. Mas se a IA fortalece os unicórnios, também pode fragilizá-los caso não entregue os ganhos prometidos.
“Se a IA gerar ganhos de produtividade generalizados e valor econômico duradouro, essa concentração poderá se justificar. Caso contrário, existe o risco de excesso de alocação de recursos e perdas amplificadas”, aponta o estudo.