Quem já precisou circular por clínicas e hospitais conhece a sensação de repetir as mesmas informações várias vezes, preencher formulários semelhantes, enviar documentos por mensagem e esperar retorno sobre autorização de exames. Em um país que desenvolveu bancos digitais sofisticados e exporta tecnologia no agronegócio, a rotina administrativa da saúde ainda parece, muitas vezes, analógica.
Foi a partir dessa experiência que Cláudio Franco fundou a Tivita, startup voltada à automação de rotinas administrativas em clínicas e consultórios. Ao acompanhar consultas médicas na família, ele percebeu a quantidade de processos manuais, retrabalho e troca de mensagens envolvidos em tarefas que, em tese, poderiam ser simples.
Em entrevista ao Revolução IA, programa do NeoFeed com apoio do Magalu Cloud, ele afirmou que pequenas e médias clínicas até querem inovar, mas acabam espremidas entre dois extremos: as ferramentas de IA voltadas ao consumidor final, que não atendem às necessidades do negócio, e soluções corporativas caras demais para a realidade dessas estruturas.
“Você tem a corrida pelas grandes empresas, com times enormes, com orçamentos de tecnologia muito grandes. E tem a outra corrida, que é pelo consumidor, com todos esses assistentes pessoais. Mas no meio a gente tem grande parte da economia, que está muito concentrada em pequenas e médias empresas. E essas empresas, geralmente, estão esquecidas”, diz Franco.
Por causa disso, consultórios independentes, clínicas especializadas, centros de diagnóstico continuam a operar com margens apertadas e alto volume de tarefas administrativas, como confirmação de horários, dúvidas sobre preparo de exames, remarcações que consomem muito tempo da equipe e nem sempre acontecem dentro do horário comercial.
Quando se trata do faturamento, como o sistema brasileiro reúne centenas de operadoras de saúde, cada uma com regras próprias para autorizações e pagamentos, um pequeno erro no preenchimento de uma guia pode significar simplesmente não receber por um procedimento já realizado.
Segundo Franco, é nesse ponto que a tecnologia pode ter impacto prático. Em clínicas que adotaram automação nos processos administrativos, o ganho de eficiência pode chegar de 25% a 60% na área de faturamento, com redução de retrabalho e de falhas que geram perda de receita.
No atendimento, parte relevante dos agendamentos já pode ser resolvida sem intervenção humana, liberando equipe para funções menos repetitivas. Mas, ainda assim, antes de qualquer ferramenta, ele alerta que é preciso colocar ordem nos dados.
“O cadastro dos pacientes e dos profissionais tem que estar muito bem estruturado. E o segundo ponto é digitalizar, porque tudo o que está na cabeça de alguém, tudo que está no papel, tudo que está no arquivo não vai poder ser acessado pela inteligência, pelos agentes”, afirma Franco.