A crise que acomete o segmento de crédito privado nos Estados Unidos segue forte. E um dos principais nomes do setor está sofrendo com um aumento expressivo no número de resgates em seus dois principais fundos no primeiro trimestre
Trata-se da Blue Owl Capital, que teve resgates da ordem de US$ 4,5 bilhões, segundo cálculo do jornal Financial Times (FT), com base nas informações divulgadas pela gestora na quinta-feira, 2 de abril.
Nos primeiros três meses do ano, os pedidos de resgate em seu fundo voltado para empresas de tecnologia, conhecido como Blue Owl Technology Income Corp, dispararam para 40,7% do valor do fundo, de US$ 3 bilhões.
Já os pedidos de saída do principal fundo de empréstimos diretos da empresa, o Blue Owl Credit Income Corp, de US$ 20 bilhões, chegaram a 21,9% do valor do fundo. Em ambos os veículos, a Blue Owl limitou os resgates a 5%.
A notícia derrubou as ações da Blue Owl, que caíram mais de 5% no começo do pregão em Nova York. Por volta das 11h52, os papéis recuavam 1,15%, a US$ 8,61.
Após registrar forte crescimento nos últimos anos, alcançando mais de US$ 1 trilhão em ativos, o mercado de crédito privado está abalado pela combinação de juros em baixa, aumento da inadimplência e excesso de empréstimos a empresas de software em tempos de inteligência artificial (IA), resultando em forte correção dos múltiplos.
A situação pesa sobre as gestoras, que precisam lidar com a reversão do otimismo dos investidores, sobretudo do varejo. A situação da Blue Owl é emblemática. No fim de fevereiro, a casa, com cerca de US$ 307 bilhões sob gestão, suspendeu saques de recursos voltados ao público de varejo de outro fundo.
A Blue Owl não está sozinha. A KKR anunciou na quarta-feira, 1º de abril, que limitou os resgates de um de seus fundos não negociados em bolsa, seguindo medidas semelhantes adotadas por concorrentes como Ares Management, Apollo Global e HPS Investment Partners, da BlackRock.
Essas casas também realizaram baixas contábeis por conta de atrasos, em um momento em que o apetite do investidor também é afetado pelos cortes de juros promovidos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), provocando uma revisão do valor de mercado das carteiras.
Os problemas no mercado de crédito privado americano são mais evidentes especialmente nos BDCs, veículos que atuam com empresas de pequeno e médio porte e são bastante distribuídos a investidores de varejo e indivíduos de alta renda.
Esses fundos entraram no radar após a falência da financiadora de veículos Tricolor Holdings e da fornecedora de autopeças First Brands Group, empresas que vinham tomando muitos empréstimos, em setembro do ano passado.
O sentimento negativo foi agravado pela alta exposição dos BDCs ao segmento de softwares, em torno de 20%, segundo estimativas do Jefferies.
Com muitos investidores buscando a porta de saída, há receio de que as saídas de recursos passem a superar as entradas, resultando em um descompasso de caixa.
Um levantamento do banco de investimentos RA Stranger mostra que os novos aportes nos BDCs caíram 40% entre dezembro e janeiro, para US$ 3,2 bilhões. No quarto trimestre, os fundos conseguiram, em grande parte, atender aos pedidos de resgate com recursos que estavam entrando, limitando a necessidade de recorrer a outras fontes para pagar os investidores que saíam.
Em meio às preocupações, o co-presidente da Blue Owl, Craig Packer, buscou tranquilizar os investidores, destacando que o momento tem mais relação com percepção do que com fundamentos.
“Embora acreditemos que a percepção do mercado tenha impulsionado o aumento dos pedidos de saques, os fundamentos de crédito subjacentes em todo o nosso portfólio permaneceram resilientes”, afirmou ele, segundo o FT. “Continuamos a observar uma desconexão significativa entre o discurso público sobre crédito privado e as tendências subjacentes em nosso portfólio.”