Brasília - As operações de emissão de dívida corporativa são tradicionalmente dominadas pelos grandes e tradicionais bancos. No ano passado, o mercado de capitais no Brasil obteve uma marca histórica de R$ 838,8 bilhões em ofertas públicas, alta de 6,4% frente ao ano anterior. O Itaú BBA liderou o ranking dos emissores, com R$ 143,6 bilhões, mas um intruso apareceu nas primeiras posições.

Nome incomum no mercado de capitais, a Caixa Econômica Federal, um banco 100% público, vem dando passos importantes nesse segmento, mirando empresas de médio porte e aproveitando sua vocação para o mercado imobiliário com foco sobretudo em construtoras de centros fora do eixo Rio-São Paulo.

O banco estatal atingiu R$ 10,9 bilhões em emissões de dívida corporativa em 2025, resultado recorde para a instituição e que representa um crescimento de 33% frente ao volume contratado no ano anterior.

Com a marca, o banco passou a integrar pela primeira vez a lista dos 10 maiores players do mercado de capitais, conforme ranking da Associação Brasileira dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em volume originado de renda fixa e híbridos, referente à posição das instituições financeiras no ano passado.

O impulso do banco estatal nesse terreno chama atenção quando se põe a lupa nos seus resultados de anos anteriores: esse montante registrado ao longo do ano passado representa mais de quatro vezes (alta de 234,7%) o valor atingido há dois anos, em 2023, quando alcançou R$ 3,2 bilhões.

Para isso, somente em 2025 a Caixa Asset conduziu 55 ofertas de dívidas coordenadas e originadas por sua rede de atacado. A estratégia para mirar esse mercado começou a ser desenhada com mais força a partir de dezembro de 2020, quando o banco criou uma vertical exclusiva para o mercado de capitais.

Esses resultados vieram por meio da emissão de certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e do agronegócio (CRA), de debêntures, notas comerciais e dos chamados Fundos de Investimento de Direitos Creditórios (FIDC), com foco na captação de recursos destinados ao financiamento de grandes empresas.

Nesse cenário, o banco começou a enxergar oportunidades num mercado crescente, que passou por uma transformação estrutural, na visão de seus executivos, num momento em que o banco detectou que os instrumentos de dívida passaram a se consolidar como parte central da estratégia de financiamento das grandes empresas.

“Essa demanda, que já foi cíclica, passou agora a ser estrutural”, diz Tarso Duarte de Tassis, vice-presidente de atacado da Caixa, ao NeoFeed.

Segredo imobiliário

Esse patamar superior a R$ 10 bilhões foi alcançado, na visão do banco, com “cautela”, aos poucos, e com uma decisão clara de abocanhar cada vez mais nacos desse mercado e enfrentar a concorrência, ainda que a Caixa fosse um player sem tradição e grande relevância nesse setor.

Primeiro o banco projetou seu crescimento na expansão das carteiras de crédito tradicionais e, depois apostou na oferta de portfólio mais completo, que não dispunha antes. À medida que o apetite da tesouraria foi crescendo com ampliação da carteira privada, o banco estatal também procurou se aproximar mais de gestoras de recursos.

“À medida que o mercado amadurece, o cliente não quer apenas captar recursos. Ele quer a estrutura mais adequada ao seu fluxo de caixa, ao seu setor e ao seu projeto. Nós estamos ampliando o leque de players relevantes do mercado, o que é saudável para o sistema como um todo”, complementa o VP de Atacado.

Para isso, o banco estruturou sua operação no mercado de capitais e resolveu selecionar e especializar mais de 1 mil officers, espalhados por todo o país com o intuito de fortalecer essa originação e gestão desses negócios. Hoje, já são 53 escritórios empresariais focados em médias empresas (middle market, ou seja, empresas com faturamento anual entre R$ 50 milhões e R$ 1 bilhão) e 10 escritórios corporativos. Além de uma rede de escritórios regionais e uma vice-presidência direcionada para adaptar o negócio do banco às práticas corporativas.

Essa estratégia também converge com a expertise do banco no crédito imobiliário, que nesse caso foi usada para originar de uma forma planejada e crescente as operações de dívidas corporativas. Nesse sentido, a área de mercado de capitais da Caixa passou a contar, no ano passado, com um braço exclusivo para atender o setor de construção civil, focado para que pequenas e médias empresas do setor acessassem o mercado de capitais.

O NeoFeed também apurou que essa estratégia voltada para o ramo da construção também mira investidores do mercado imobiliário, uma das frentes que o banco identificou que podem crescer mais ainda, por meio das emissões de CRI e operações tradicionais de mercado de capitais, como opções de funding para o setor.

Nesse embalo, a Caixa já vislumbra crescer ainda mais nessa seara, admitindo que há espaço para ampliar contratações no mercado de capitais, uma vez que a relação entre a carteira de crédito privado e a carteira total da estatal ainda é inferior aos principais bancos que atuam nesse segmento de dívida corporativa. Mesmo porque, mesmo com o resultado inédito, o banco fechou 2025 com apenas 1,9% de participação no mercado brasileiro.

O banco público não revela suas projeções, mas de acordo com dados de janeiro de 2026, último dado disponível pela Anbima, até galgou mais uma posição no ranking do mercado de capitais: foi o 9º maior player nessa corrida do mercado de capitais, com R$ 540 milhões originados no primeiro mês deste ano.

“A expectativa da Caixa é manter um ritmo consistente de contratações até o fim de 2026, mesmo em um cenário de juros elevados”, diz Tassis.

Para este ano, a orientação da área de asset do banco é crescer com atenção voltada para os casos de recuperação de grandes empresas, o cenário global volátil que pode impor futuras restrições a uma queda mais acentuada da taxa básica de juros (Selic) e num contexto de possível ano mais curto em termos de mercado.