Miami - Howard Marks é conhecido no mundo das finanças não apenas pelos US$ 223 bilhões em ativos que gera na Oaktree Capital, mas por sua capacidade de identificar onde o mercado está no pêndulo entre a euforia e o pânico.

Mais do que o volume, é a consistência de Marks que impressiona. Ao longo de décadas, suas estratégias entregaram um retorno médio anual de 19% (líquido de taxas) aos seus clientes.

Munido de seu famoso flip chart para desenhar curvas de probabilidade, durante pouco mais de uma hora, ele falou com uma audiência de cerca de 120 gestores e assessores de investimento na primeira edição internacional da XP Global Conference.

O “mestre dos ciclos” destrinchou a anatomia das bolhas tecnológicas e o que ele chamou de "sea change" (mudança de maré) que encerrou quatro décadas de ventos favoráveis aos investidores.

Para Marks, o momento atual é de cautela disciplinada. Ele argumenta que o declínio de 2.000 pontos-base nos juros americanos nos últimos 40 anos foi o evento financeiro mais importante do último meio século, criando uma geração de "gênios" que, na verdade, estavam apenas sendo carregados por uma esteira rolante de capital barato.

Agora que a maré mudou, Marks acredita que o sucesso dependerá da compreensão real do risco, que ele define não como volatilidade, mas como a probabilidade de perda permanente de capital.

Marks mostrou que até mesmo os veteranos mais céticos estão sendo desafiados pela velocidade da tecnologia. Entre dezembro de 2025 e fevereiro deste ano, ele fez algo inédito em 35 anos de carreira: escreveu dois memorandos sobre o mesmo tema, a Inteligência Artificial (IA), em um intervalo de apenas dois meses.

"O mundo mudou rápido demais para esperar", disse ele, referindo-se à influência de seu filho, Andrew, e do modelo de IA Claude no seu processo de reflexão. “A IA tem um potencial enorme, mas o excesso de capital e preços altos sem investigação é o comportamento típico de uma bolha que destrói capital.”

Ao lado de Artur Wichmann, CIO da XP, Marks falou sobre estes temas:

Momento atual de mercado
O valor intrínseco de uma economia ou empresa cresce de forma gradual, mas o preço oscila loucamente ao redor desse valor porque as pessoas ora amam demais os ativos, ora os odeiam demais. Bolhas sempre envolvem algo novo - ferrovias, internet ou IA - porque o novo permite uma imaginação ilimitada e as falhas ainda não apareceram. As pessoas entram por FOMO (fear of missing out, ou medo de ficar de fora) e inveja de ver o vizinho enriquecer. A IA tem um potencial enorme, mas o excesso de capital e preços altos sem investigação é o comportamento típico de uma bolha que destrói capital.

A IA e as revoluções anteriores
As tecnologias passadas, como o rádio ou a internet, eram ferramentas para facilitar o trabalho humano. A IA tem o potencial inédito de autonomia: ela pode fazer o trabalho pelas pessoas e decidir o que fazer. Isso tem implicações sociais sérias. Os gênios do Vale do Silício dizem que é ótimo que as pessoas não precisem mais trabalhar, mas o trabalho dá estrutura, propósito e senso de equipe. Uma sociedade sem trabalho e com renda garantida pelo governo me preocupa.

A estrela do crédito privado
O setor cresceu de quase nada para US$ 1,5 trilhão em 15 anos. Como diz Warren Buffett, é só quando a maré baixa que descobrimos quem estava nadando pelado. O crédito privado foi vendido como seguro porque "não tem volatilidade", mas isso é um fake out. Só porque o preço não oscila na tela todo dia, não significa que o risco de crédito desapareceu. Agora que o cenário está mais difícil, as falhas de quem não foi disciplinado nos documentos e nas taxas começarão a aparecer.

Pilar central da filosofia de investimento
O mais importante não é o que você compra, mas o quanto você paga. Não existe ativo tão bom que não possa se tornar perigoso se estiver caro, nem tão ruim que não seja um bom negócio se estiver barato o suficiente. Aprendi que o risco não é volatilidade, é a possibilidade de perda permanente. Minha meta é ser "sempre bom, às vezes ótimo, nunca terrível". Se você evitar os grandes desastres, os retornos se acumulam de forma extraordinária.

Definição de risco
A academia diz que risco é volatilidade, mas isso é uma distração. Risco é a possibilidade de resultados ruins e de perda permanente de dinheiro. O erro mais comum é achar que para ganhar mais retorno basta tomar mais risco. Se ativos de risco garantissem mais retorno, eles não seriam arriscados. O que acontece é que ativos que parecem mais arriscados precisam parecer oferecer retornos maiores para atrair capital. O segredo é o controle do risco, não a sua evitação.

A importância da "sea change"
Entre 1980 e 2020, os juros caíram de 22% para 2%. Foi o evento mais importante do último meio século. Essa queda funcionou como uma "esteira rolante" que carregou investidores e valorizou ativos sem que eles precisassem de habilidade real. Esse período de juros zero acabou. No novo cenário, as estratégias baseadas apenas em alavancagem barata não serão as vencedoras.

Longevidade nos investimentos
Muitos investidores tentam "bater o recorde" todo ano e acabam dando um tiro no próprio pé. Eu prefiro a filosofia de um fundo que gerenciei: nunca foi o primeiro da lista em um ano isolado, mas terminou no topo do ranking após 14 anos por ser consistente. Minha meta é ser "sempre bom, às vezes ótimo, nunca terrível". Se você evitar as perdas debilitantes e os grandes erros, o sucesso a longo prazo cuidará de si mesmo. Eu não invisto para ficar rico, invisto para continuar rico.