Em 2009, durante cinco dias, os amigos Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura se reuniram em uma fazenda na cidade de Areal, no interior do Rio de Janeiro, para falar sobre a vida — família, amizade, paixões, política... e a morte. Mediada pelo jornalista Arthur Dapieve, a conversa deu origem ao livro Sobre o tempo, lançado um ano depois.

Verissimo tinha, então, 74 anos. O que lhes passava pela cabeça frente à perda de amigos e parentes? “Não sei se isso é uma coisa normal”, respondeu o escritor gaúcho. “Mas eu acho que, a partir dos 30 anos, o pensamento da morte é constante.” Principalmente quando os amigos partiam — a presença constante da morte, na memória de quem fica.

Neste sábado, 30 de agosto, Verissimo morreu, aos 88 anos, em Porto Alegre. Os últimos anos foram difíceis para o escritor, por causa do derrame sofrido em janeiro de 2021. Ele atravessou o período com extrema dificuldade para fazer o que mais amou fazer na vida: expressar-se pela escrita.

Se com as palavras faladas, Verissimo era monossilábico, nos últimos 50 anos, seus textos o transformaram na voz que o Brasil amava ler. Suas sacadas sensíveis e geniais dos hábitos e costumes faziam o país parecer (e sentir-se) mais inteligente.

O escritor fazia cada um de seus leitores refletir, dar risada, pensar sobre si mesmo e sobre o comportamento humano com humor refinado, em textos curtos que se tornaram obras-primas do jornalismo e da literatura nacional.

Suas pensatas escritas no calor da hora, na pressa e na pressão do dia a dia causada pela dinâmica dos jornais e das revistas, descreviam modos curiosos, sensíveis e delicados — com soluções precisas para amarrar cada crônica.

Como aquela, um clássico da literatura brasileira, dos vizinhos que se tornaram íntimos um do outro apenas por observar o que havia no lixo de cada um. Ou a que fez sobre os desaparecidos políticos, vítimas da ditadura na Argentina, em que ele dizia que de nada adiantava sumir com um corpo porque sempre brotaria da terra ou da água uma falange acusadora. Tanto no país vizinho como no Brasil.

Seu talento também se expressava pelos personagens que até hoje povoam o imaginário popular, como o detetive Ed Mort, a Velhinha de Taubaté, o Analista de Bagé, As Cobras, a Família Brasil e Dora Avante.

Em março de 2024, sua esposa Lúcia Verissimo fez um post no Instagram para informar aos fãs o quadro de saúde do escritor.

Disse que era estável, em meio a seu esforço para se recuperar do derrame, “Continua com enorme dificuldade de se expressar, mas vê bastante televisão e acompanha as notícias do Brasil e do mundo. Raramente saímos e estamos sempre com os filhos e netos por perto”, contou ela.

E Lúcia terminou: “No momento, Luis Fernando não está escrevendo nem desenhando, mas segue firme e manda abraços a seus fiéis e saudosos leitores”.

Os problemas, na verdade, começaram no final de março de 2016, quando ele teve de fazer uma cirurgia para implantar um marcapasso, aos 79 anos. Verissimo foi internado no dia 25, com pneumonia e arritmia cardíaca.

Quatro dias depois, o escritor passou pela cirurgia de implantação do dispositivo cardíaco provisório, no Hospital Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro.

Em entrevista ao jornal O Globo, no início da pandemia, em 2020, Verissimo disse que fazia parte de mais de um grupo de risco, por ser cardíaco, diabético e velho. Em um primeiro momento, recuperou-se bem do derrame, que não o impediu em nada de acompanhar uma de suas grandes paixões: os jogos do Internacional.

Mas não pôde mais escrever, deixando um vazio imenso no jornalismo brasileiro. Nada pôde dizer, por exemplo, sobre a tragédia climática que inundou seu estado em maio de 2024. Acompanhou tudo com enorme tristeza, de sua casa, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre.

"Meu pai também era introvertido, mas talvez ele fosse um pouco mais social do que eu", diz o escritor no documentário (Foto: "Verissimo")

O escritor estava casado com Lúcia desde 1964 (Foto: "Verissimo")

No documentário de Angelo Defanti, Veríssimo aparece brincando com os netos (Foto: "Verissimo")

"A gente se distrai e, quando vê, está com 80 anos", diz o autor no filme "Veríssimo" (Foto: "Verissimo")

Em 2006, ano de seu 70º aniversário, foi reconhecido como um dos maiores escritores brasileiros contemporâneo (Foto: "Verissimo")

O autor tem mais de 80 obras publicadas e 5 milhões de cópias vendidas (Foto: "Verissimo")

O escritório na casa do nairro de Petrópolis, em Porto Alegre, foi um dos lugares onde o escritor passou grande parte de seu tempo (Foto: "Verissimo")

Verissimo não falava muito sobre ser filho de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, Érico — autor de clássicos como Um certo Capitão Rodrigo, Ana Terra e Incidente em Antares. Nem jamais sinalizou que isso o incomodasse.

Seus romances policiais, escritos a partir de encomendas, sempre soaram despretensiosos, leves, para entretenimento rápido. Parecia não ter quaisquer ambições literárias. Era filho de peixe, sim, mas nadava em mares mais calmos, longe da profundidade literária do pai, algo que nunca lhe interessou.

Não por acaso, tornou-se o melhor em seu tempo no que sabia fazer bem: a crônica cotidiana para jornal. Emocionava, fazia rir, chocava, fazia chorar. Teve uma educação erudita privilegiada que lhe serviu de base, deu estofo e alicerce para a fluidez de sua escrita, digamos, genética, sem jamais torná-la pedante.

“Nós [ele e Érico] não conversamos sobre literatura”, comenta ele, no documentário Verissimo, de Angelo Defanti, lançado, em 2024, no festival É Tudo Verdade. “Meu pai também era introvertido, mas talvez ele fosse um pouco mais social do que eu.”

O documentário foi gravado durante duas semanas, em setembro de 2016, quando o escritor estava prestes a completar 80 anos. “A gente se distrai e, quando vê, está com 80 anos. Já vivi dez anos a mais do que o meu pai, que também era cardíaco. Eu tive mais recursos, que me ajudaram a viver até agora”, conta.

Durante a filmagem de Verissimo, o autor ainda estava ativo profissionalmente. No filme, muitas vezes, ele é visto em seu escritório, escrevendo no computador. Um modelo antigo, de mesa, onde alguém pregou um lembrete, no alto da tela: “save new documents before starting to write” (“salve novos documentos antes de começar a escrever”).

Na maior parte do tempo, Verissimo só os observa. Quase tudo se passa com ele em absoluto silêncio, até na hora das refeições em família.

A velhinha, o analista e a família Brasil

Embora tenha nascido em Porto Alegre, Verissimo passou parte da infância e toda a adolescência com a família nos Estados Unidos, onde o pai era professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley (1943-1945), e foi diretor cultural da União Pan-americana em Washington (1953-1956).

Fez o resto do primário em San Francisco e Los Angeles, e concluiu o secundário na Roosevelt High School, de Washington. Voltou ao Brasil em meados da década de 1960.

A vida americana o fez se apaixonar pelo jazz, a ponto de estudar saxofone — costumava receber elogios por sua habilidade com o instrumento e chegou a tocar em alguns conjuntos, como o dos irmãos caricaturistas Paulo e Chico Caruso.

Antes de se tornar escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista de televisão, autor de teatro e romancista, ele começou pela “cozinha”, como se diz no jornalismo, como revisor de jornal. Depois, virou publicitário.

Cronista do jornal Zero Hora, a partir de 1973, seus textos passaram a ser reunidos em livros pela editora carioca José Olympio. Depois, migrou para a antiga Editora Globo, de Porto Alegre. A tarefa continuou a ser desempenhada pela também gaúcha L&PM, onde publicou mais antologias nos anos de 1980 e 1990. Nos últimos tempos, havia migrado para a carioca Objetiva. Sua vasta obra hoje soma mais de 80 títulos publicados.

Em 1981, Verissimo criou um de seus personagens mais famosos, O Analista de Bagé, que ganhou dois livros best-sellers, além de quadrinhos, desenhados por Edgar Vasques e publicados na revista Playboy.

O personagem bolado para um programa humorístico de Jô Soares, da Rede Globo, e não aproveitado, é um psicanalista de formação freudiana ortodoxa, mas com o sotaque, o linguajar e os costumes típicos da fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai e a Argentina.

O autor, então, virou um sucesso nacional nunca antes visto para um cronista de jornal e escritor de humor. Em 1982, passou a publicar uma página semanal na revista Veja, que manteria até 1989.

Em 1983, lançou novo personagem de sucesso, a Velhinha de Taubaté, definida como "a única pessoa que ainda acredita no governo", na época em que a ditadura militar agonizava. Nessa década, suas crônicas apareciam em jornais de todo o país e ele lançou ao menos dois livros por ano, que logo iam parar nas listas dos mais vendidos, além de escrever para programas de humor da Globo.

Sucesso e prêmios

Após sair da Veja, ele ganhou uma página dominical para o jornal O Estado de S. Paulo, mantida até às vésperas do derrame. Nesse espaço, criou o grupo de personagens Família Brasil. No mesmo ano, estreou no Rio seu primeiro texto escrito especialmente para teatro, Brasileiras e Brasileiros. E ainda recebeu o Prêmio Direitos Humanos da OAB.

Cinco anos depois, a antologia de contos de humor Comédias da Vida Privada foi lançada com grande sucesso e virou especial da Globo, em 1994, e depois uma série de 21 programas, com roteiros de Jorge Furtado e direção de Guel Arraes, levados ao ar entre 1995 e 1997.

Um reconhecimento importante aconteceu em 1995, quando intelectuais brasileiros convidados pelo caderno Ideias, do Jornal do Brasil, elegeram Verissimo o “Homem de Ideias do ano”.

No ano seguinte, recebeu a Medalha de Resistência Chico Mendes, da ONG Tortura Nunca Mais; a Medalha do Mérito Pedro Ernesto, da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro; e o Prêmio Formador de Opinião, da Associação Brasileira de Empresas de Relações Públicas. Em 1997, veio outra honraria, o Prêmio Juca Pato, da União Brasileira de Escritores, como o Intelectual do ano.

Todo esse sucesso e o vigor de suas crônicas, que mantinha no mesmo nível elevado de sempre, manteve-se nos vinte anos seguintes, nas colunas semanais publicadas nos diários Zero Hora, O Globo e O Estado de S. Paulo.

As solicitações das editoras para que escrevesse romances fizeram Verissimo deixar de ser o "grande escritor de textos curtos" e emendou uma série de oito novelas e romances de sucesso, como, entre outros, O Clube dos Anjos (1998), Os Orangotangos Eternos (2000) e Sport Club Internacional, Autobiografia de uma Paixão (2004), para uma série sobre times de futebol.

Em reportagem de capa de 2003, a Veja o destacou como "o escritor que mais vende livros no Brasil". Naquele ano, a versão em inglês de Clube dos Anjos foi escolhida pela New York Public Library como um dos 25 melhores livros do ano.

Em 2004, na França, recebeu o Prix Deux Océans do Festival de Culturas Latinas de Biarritz. Em 2006, ano de seu 70º aniversário, atingiu a marca de 5 milhões de livros vendidos e foi reconhecido como um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos. E assim Luis Fernando Verissimo seguirá depois de sua partida.