Nas artes marciais japonesas, existe um conceito que não tem boa tradução para o português. Chama-se zanshin, a atenção que permanece depois que a técnica foi realizada. O golpe terminou, mas o guerreiro não relaxa, porque sabe que o momento ainda não terminou. Os gregos chamavam de phronesis a prudência prática, agir no momento certo, nem antes nem depois.
O que essas duas ideias têm em comum, separadas por séculos e culturas, é a mesma compreensão: prontidão é uma relação com o tempo. Não se declara. Não se compra. Desenvolve-se e tem um ritmo que não responde à pressão externa.
Quando esse conceito chegou à inteligência artificial, o mercado corporativo deu um nome novo. Chamou de "Prontidão de IA". E, na mesma velocidade em que batizou, esvaziou.
Chame-se de AI Readiness qualquer coisa que tenha a ver com adotar ferramentas de IA. Comprou licença, integrou em algum fluxo de trabalho, pronto, a empresa está pronta. Não está.
AI Readiness real é a capacidade de uma organização tomar boas decisões sobre IA, não só utilizá-la. Boas decisões cancelaram julgamento. Julgamento exige tempo para se desenvolver. E esse tempo não responde a nenhuma licença comprada, nem a nenhum prompt treinado.
Acompanho organizações nesse processo há algum tempo e o que vejo, quase sempre, é uma dissociação entre discurso e estado interno. A empresa parece pronta nos slides. Não está pronto em nenhum lugar que importe de verdade.
A liderança que não tem linguagem para conversar com as próprias bases sobre o medo de ser substituído e, por isso, silencia o assunto em vez de endereçá-lo. A cultura que nunca decidiu o que fazer com a fissura entre quem já opera IA com fluência e quem ainda não sabe por onde começar: demite? Retreina? Cobra sem ensinar?
A governança que aprovou ofertas de ferramentas sem definir quem assina uma decisão quando o algoritmo erra e sem construir os sistemas éticos que respondem por isso quando o erro tem consequência real. Esses são alguns dos lugares onde a incapacidade de decidir bem sobre IA se manifesta, e, perceba, nenhum deles é problema tecnológico.
Uma pesquisa de Russell Reynolds ajuda a nomear: 54% dos líderes apontam a mudança tecnológica como uma das principais ameaças à saúde da organização nos próximos 18 meses. Mas apenas 45% investem na capacidade da própria empresa de se transformar.
Faça uma leitura mais profunda: os líderes sabem, intuitivamente, que o problema não é tecnológico. É deles.
O adolescente é a única pessoa no mundo simultaneamente convicta de que sabe tudo e completamente despreparada para o que vem. Não por falta de inteligência, mas por falta de tempo vivido.
Repertório não se baixa. Não existe versão comprimida da experiência. E o curioso é que ele só descobre isso quando algo dá errado de um jeito que nenhum conselho preveniu.
Boa parte das organizações está em estágio semelhante à adolescência diante da IA — confiante o suficiente para declarar que está pronta, ainda longe o suficiente para não saber o que não sabe.
O zanshin e a phronesis persistem porque cada geração redescobre do zero algo que a urgência tenta apagar: prontidão tem um tempo interno que não responde à pressão externa. No contexto da IA, isso tem um nome. Chama-se julgamento.
O adolescente não o adquire lendo sobre ele; adquire-o quando o mundo cobra. As organizações também. A única variável que muda a velocidade desse processo é a qualidade de quem acompanha quando o cenário se mostra complexo demais de lidar.
* Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa Inteligência Artificial para uma experiência de aprendizagem personalizada. É mestre pela Stanford University e possui formação executiva em IA por Harvard. Iona também é cofundadora do Brasil no Vale do Silício, bolsista da Fundação Lemann e curadora do São Paulo Innovation Week.