Muito se fala sobre o boom vitivinícola no Sudeste, mas pouco se ouve sobre os vinhos do Nordeste. Embora as primeiras experiências tenham acontecido nos anos 1970 no Vale do São Francisco, a região não ficou presa ao passado. Uma nova onda de expansão avança pelos estados nordestinos para além das margens do rio.
“Tratam como se os vinhos do Nordeste fossem uma coisa só, mas não são”, diz o agrônomo Walter Leal, da Vitti Consultoria em Viticultura, ao NeoFeed. “Há uma enorme diversidade.”
Afinal, o Nordeste é um grande mosaico de climas, solos e altitudes diferentes. Da umidade da zona da mata e frescor das serras do agreste ao calor do sertão, cada microrregião exige uma solução agronômica. São inúmeros projetos, em fases distintas de desenvolvimento — alguns já bem consolidados; outros ainda em estudo.
O Brasil é o único país do mundo a praticar três tipos de viticultura. O Sul segue o modelo tradicional típico das áreas temperadas, com colheitas no verão. No Sudeste, Centro-Oeste e na baiana Chapada Diamantina, a dupla poda transferiu a vindima para o inverno. E o Vale do São Francisco representa a viticultura tropical, onde o controle da irrigação permite duas ou mais safras por ano.
Um dos novos pontos no mapa dos vinhos nacionais é o Planalto da Borborema. Estendendo-se pelos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, com altitudes entre 500 e 1,2 mil metros, o lugar abriga “ilhas” de clima ameno em meio ao semiárido do agreste — os brejos de altitude.
Ali, a 900 metros acima do nível do mar, a pernambucana Garanhuns se firma como pólo de produção e enoturismo.
A colheita ocorre no verão, exatamente como na viticultura convencional. Com pouca chuva e boa amplitude térmica, os dias são tão quentes, o que permite às uvas amadurecerem sem perder a acidez — uma das características mais difíceis de alcançar nos vinhos nordestinos.
Tudo começou em 2012, com estudos da Embrapa para descobrir novos terroirs no Nordeste. “Foi a pedra fundamental de todo esse movimento”, conta ao NeoFeed Patrícia Coelho de Sousa Leão, pesquisadora da Embrapa Semiárido, responsável pela pesquisa.
Apesar da Borborema estar na faixa do globo entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, os vinhedos produzem uma safra por ano - e o resultado costuma ser uvas saudáveis, com maturação perfeita. Seria esse um quarto sistema de viticultura? Os agrônomos e enólogos preferem chamá-la de viticultura tropical de altitude, uma variação apenas.
Rótulos premiados
A primeira vinícola de Garanhuns foi a Vale das Colinas. Em 2013, durante um curso de vinhos, o casal de médicos Michel Moreira Leite e Micheline Cavalcante Silva teve a ideia de plantar vinhedos. Ao procurar a Embrapa, souberam da pesquisa na cidade. “Saímos apaixonados”, conta Michel ao NeoFeed.
Assim nasceu, em 2017, a Vale das Colinas, a primeira vinícola do agreste pernambucano e de toda a Borborema.
Hoje, Michel e Micheline têm 15 hectares de uvas - o que é muito em comparação aos dois hectares de tamanho médio das vinícolas no Brasil. Com 38 funcionários, a Vale das Colinas produziu, em 2025, 29 mil garrafas e recebeu 26 mil turistas.
Vários dos vinhos produzidos pelo casal, inclusive, já foram premiados, como o tinto Dona Elisa Gran Reserva 2024, um 100% malbec, e o branco Dona Cecília 2024, um corte de muscat petit grain e moscato giallo, ambos medalha de ouro na Grande Prova de Vinhos do Brasil 2026.
A cerca de 300 quilômetros ao norte, ainda na Borborema, está Bananeiras, na Paraíba, outra microrregião que começa a chamar a atenção. O município não estava na pesquisa da Embrapa e entrou no mapa vitivinícola do Nordeste por iniciativa de dois ou três empresários.
O pioneiro foi Johan Gonçalves, fundador da Vinícola Gonçalves em 2023. Depois de passar os negócios em João Pessoa para os filhos, ele comprou uma terra na região em 2022. "Eu queria uma atividade", conta ao NeoFeed. "E pensei em fazer vinho.” Por enquanto, só fez vinificações para testes. Safras comerciais apenas quando a construção da unidade industrial terminar.
Sócio do Alteza Condo Resort, em Bananeiras, o advogado Telson Ferreira decidiu criar a vinícola Casa Ferreira em 2023, depois de viajar com a esposa e um casal de amigos para a Serra Gaúcha.
“Estamos fazendo história plantando uvas viníferas no interior da Paraíba”, diz ele ao NeoFeed. Em 2024, plantou as primeiras videiras. E, no final de 2025 e início de 2026, colheu sua primeira safra.
Levou as uvas para serem vinificadas na Vinícola Mello, em Garanhuns, pelo enólogo chileno Cristián Sepulveda, da vinícola e consultoria Terra Nossa de Espírito Santo do Pinhal, na porção paulista da Serra da Mantiqueira — e responsável pela elaboração de boa parte dos vinhos das novas regiões produtoras.
“Quando ele viu as uvas me disse que eu tinha encontrado um bom terroir”, orgulha-se o advogado.
Quem produz diz que a malbec e a sauvignon blanc se dão muito bem em Bananeiras, mas não há ainda nenhum estudo científico sobre variedades ou manejo naquele microterroir. É cedo, portanto, para determinar um estilo para os vinhos.
Driblando a umidade
Dos projetos nordestinos, talvez o mais surpreendente seja a dos vinhedos próximos ao litoral. Muito úmidas, essas áreas sempre foram consideradas impróprias para o cultivo de uvas - especialmente as viníferas, mais delicadas, que ficam expostas a toda sorte de doenças. Mas há quem esteja assumindo o risco.
No Rio Grande do Norte, a apenas 30 quilômetros de Natal e a 47 da praia da Pipa, em São José do Mipibu, a vinícola Casa das 7 Evas já está em funcionamento, ainda que não esteja completamente pronta. Mas, por que fazer vinho ali?
Além do avanço das tecnologias agrícolas que espalham vinhedos por todo o Brasil, há de se levar em conta o espírito desbravador de alguns empresários.
“Eu queria tornar minha terra viável financeiramente, mas esse projeto tinha um elemento bastante atraente: o desafio de fazer algo quase impossível”, lembra o paranaense Evanildo Palatinsky, sócio da Vinícola Casa das 7 Evas, ao NeoFeed.
“Realmente, tem muita umidade”, atesta o enólogo Marcelo Minosso, sócio de Evanildo. “Quase impossível”, porém, não significa impossível.
Fazendo todo tipo de testes e tomando todos os cuidados, ele está percebendo que, com a poda certa das folhas, a uva não fica úmida e nem cozinha no sol escaldante da praia nordestina: “No verão, que é mais seco, estamos conseguindo boa maturação e mantendo a acidez”.
Quando a notícia correr, certamente outros corajosos tentarão o mesmo.