A OpenAI entrou com pedido confidencial para abrir capital nos Estados Unidos, dando o primeiro passo formal para uma das ofertas públicas iniciais de ações mais aguardadas dos últimos anos.

A criadora do ChatGPT protocolou os documentos junto à Securities and Exchange Commission, a CVM americana, em um movimento que pode levar a companhia liderada por Sam Altman à bolsa ainda neste ano. A empresa, no entanto, afirmou que ainda não tomou uma decisão sobre o timing da operação. A companhia estaria mirando um valuation de cerca de US$ 1 trilhão.

Em comunicado, a OpenAI disse que “pode levar um tempo” até uma eventual listagem, porque ainda há “coisas que queremos fazer que provavelmente são mais fáceis como uma empresa privada”. A companhia também afirmou que há “um conjunto complicado de trade-offs” ligado à decisão de abrir capital.

O pedido confidencial não obriga a OpenAI a fazer o IPO imediatamente, mas coloca a empresa em posição de acelerar a oferta caso a janela de mercado se mostre favorável.

Também insere oficialmente a companhia em uma corrida com outros gigantes privados da tecnologia, como Anthropic e SpaceX, que também se preparam para acessar o mercado público em valuations bilionários.

A disputa não é apenas por investidores. É também por narrativa. A Anthropic, dona do Claude e principal rival da OpenAI entre as empresas de inteligência artificial, entrou com pedido confidencial para abrir capital na semana passada. A SpaceX, de Elon Musk, também avança em direção ao mercado público, em uma oferta que pode estar entre as maiores da história.

Para os bancos de investimento, quem chegar primeiro pode definir os parâmetros de comparação da nova indústria e capturar antes uma base de capital interessada em ganhar exposição direta à inteligência artificial.

Mas o IPO ainda é visto com ceticismo por parte do mercado financeiro. A OpenAI tem levantado volumes inéditos de capital e assumido compromissos bilionários para expandir sua infraestrutura de data centers. A aposta é que mais chips, energia e processamento darão à companhia uma vantagem competitiva sobre rivais com menos poder de fogo.

No entanto, essa vantagem tem um custo. Segundo projeções compartilhadas com investidores e citadas pelo Wall Street Journal, a OpenAI deve queimar caixa em um nível sem paralelo entre empresas públicas. Se avançar com a listagem, terá de demonstrar que sua receita crescerá rápido o suficiente para bancar os compromissos assumidos em computação até 2030.

O dilema não é exclusivo da OpenAI. A Anthropic também deve operar com perdas bilionárias enquanto busca escalar modelos avançados de IA, que ainda custam mais para treinar e rodar do que a receita que geram. O Google, com a família Gemini, também pressiona a competição em um mercado que exige investimentos constantes e cada vez maiores.

Para os investidores, a comparação inevitável é com a Amazon, que passou anos no vermelho enquanto reinvestia em escala, infraestrutura e novas frentes de negócios. A pergunta é se Wall Street aceitará aplicar a mesma lógica à inteligência artificial, e por quanto tempo.

A abertura de capital da OpenAI, se avançar, também deve gerar liquidez para alguns de seus principais investidores, entre eles Microsoft, Khosla Ventures e Thrive Capital. Mas, mais do que um evento financeiro, a oferta vingando irá abrir uma caixa-preta sobre a companhia: receita, margens, estrutura de custos, remuneração em ações, compromissos de infraestrutura e riscos do negócio.

A corrida pelo protagonismo

A OpenAI ainda é a empresa mais associada ao consumidor final. O ChatGPT se tornou o produto mais reconhecido da nova fase da tecnologia e deu à companhia uma escala difícil de replicar. Mas a Anthropic ganhou força no mercado corporativo e passou à frente da OpenAI em valuation no mercado privado.

A própria OpenAI foi avaliada em US$ 852 bilhões em março. A Anthropic, por sua vez, foi avaliada em US$ 965 bilhões em sua rodada mais recente. A distância mostra como a disputa entre as empresas deixou de ser apenas tecnológica e passou a ser também financeira.

Nos bastidores, executivos da OpenAI manifestaram preocupação com a possibilidade de a Anthropic chegar antes à bolsa, segundo o Wall Street Journal. A empresa segue líder no mercado de chatbots de consumo, mas perdeu algumas metas internas de receita e viu a rival avançar entre clientes empresariais.

O IPO também chega depois de a OpenAI remover um obstáculo jurídico relevante. Em maio, Sam Altman e Greg Brockman venceram uma ação movida por Elon Musk, cofundador da OpenAI, que acusava a dupla de ter enriquecido de forma indevida ao transformar a companhia, originalmente sem fins lucrativos, em uma empresa com fins lucrativos.

Um júri da Califórnia entendeu que Musk entrou com a ação fora do prazo legal. A juíza Yvonne Gonzalez Rogers, do Tribunal Distrital do Norte da Califórnia, aceitou o veredicto. Musk indicou que pretende recorrer, mas a derrota foi vista como um passo importante para limpar o caminho da OpenAI rumo ao mercado público.

A reorganização societária da empresa também envolve diretamente a Microsoft, uma de suas maiores apoiadoras. Em outubro, as duas companhias alteraram os termos da parceria para permitir a transição da desenvolvedora do ChatGPT para uma estrutura com fins lucrativos. Pelo acordo, a Microsoft recebeu 27% da OpenAI Group PBC, participação avaliada em US$ 135 bilhões à época.

O braço sem fins lucrativos da OpenAI ficou com uma fatia de US$ 130 bilhões na nova estrutura.

A relação, porém, ficou mais complexa desde o primeiro investimento de US$ 1 bilhão da Microsoft, em 2019. A gigante de tecnologia aumentou sua exposição para mais de US$ 13 bilhões e obteve acesso preferencial à propriedade intelectual e aos modelos da OpenAI. Mas as duas companhias também enfrentaram tensões em torno da capacidade computacional da Microsoft, da qual a

OpenAI dependia para treinar modelos e atender uma base crescente de usuários.

Em abril, as empresas voltaram a alterar o acordo, permitindo que a OpenAI licenciasse sua tecnologia e seus modelos para outros provedores de nuvem. A mudança reforçou uma realidade cada vez mais evidente: na corrida da inteligência artificial, capacidade computacional virou insumo estratégico.