Com a contagem regressiva para o fim da seca de IPOs, os bancos de investimento (IBs) no Brasil esperam esquecer 2025, que registrou uma receita consolidada com comissões estimada em US$ 710 milhões, um recuo de 4% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da consultoria Dealogic feito a pedido do NeoFeed.
O levantamento é uma proxy das receitas dos bancos de investimento, considerando que cada instituição organiza de forma distinta seus departamentos e suas áreas de atuação, sendo que alguns possuem parte das unidades em outros países. Ele também é feito a partir dos dados tornados públicos e estimativas de fees em fusões e aquisições (M&As).
O destaque negativo, segundo o levantamento da Dealogic, foram as baixas emissões em renda variável (ECM), a patinada de M&As, assim como as de renda fixa (DCM), que arrefeceram após o recorde de 2024. Com isso, a receita consolidada com comissões dos bancos caiu pelo quarto ano consecutivo.
Mesmo assim, cada banco se saiu bem em uma área, de acordo com os dados da Dealogic. O Itaú BBA liderou o ranking de receitas e DCM. Em M&As, o BTG Pactual foi o que teve o melhor desempenho. E, em ECM, o primeiro lugar ficou com o J.P. Morgan.
Ainda que 2025 tenha sido difícil para a indústria, os sinais vistos no fim do ano passado, com a retomada do interesse por transações e a melhora das condições de mercado, indicam um 2026 mais promissor, segundo banqueiros ouvidos pelo NeoFeed.
"O que estamos vendo para 2026 é uma melhora do mercado, com equities mostrando um respiro", diz Anderson Brito, head do IB do UBS BB. "E com parte dos recursos levantados com IPOs e follow ons indo para movimentos inorgânicos e M&As, consequentemente acaba-se aumentando o mercado de ECM, que ficou muito tempo prejudicado."
Essa retomada deve ser empurrada por ventos de cauda como a queda prevista para a Selic e a realocação de recursos globais para além dos Estados Unidos, fatores que têm impulsionado o mercado local – o Ibovespa fechou 2025 com ganho acumulado de 34%, melhor desempenho anual desde 2016, aos 161.125,37 pontos.
Esse cenário abre caminho para encerrar a seca de IPOs, ainda que a retomada deva ser lenta, considerando que a Selic, mesmo com perspectiva de queda, ainda será considerada elevada – o Boletim Focus projeta uma taxa de 12,25% ao fim de 2026. Isso sem contar as incertezas do cenário eleitoral, que acrescentam volatilidade e afetam as janelas de emissão.
Mas os banqueiros destacam que operações já começam a aparecer. A Aegea iniciou preparativos para IPO no ano passado, enquanto a BRK Ambiental protocolou um pedido na CVM. O PicPay decidiu ir para os EUA, em operação que pode captar US$ 500 milhões.
“Estamos vendo um movimento bem diferente para o ano de 2026, com ofertas para serem anunciadas, talvez em janeiro, no máximo fevereiro com ofertas na rua”, diz Leonardo Cabral, head do IB do Santander.
Fabio Nazari, sócio e head de mercado de capitais de renda variável do BTG Pactual, afirma que a entrada de investidores estrangeiros com perfil de longo prazo deve tornar a retomada mais sustentável, diferente do perfil visto no passado recente.
“Quem entra hoje é long only, não hedge fund, é alguém com visão de longo prazo. Ele não consegue comprar ativos da China, Rússia e Turquia como antes, enquanto na Índia já comprou muito”, afirma Nazari. “Por eliminação, vem ao Brasil ou México, onde os deals são feitos em ADRs, porque o mercado não tem profundidade.”
Em M&As, a perspectiva é de novos acordos e da conclusão dos acertados em 2025, fator positivo para receitas de IB. “O ano de 2025 terminou num momento mais positivo, com transações anunciadas e outras não públicas que evoluíram bem no último trimestre”, diz Thiago Rocha, head de M&A do Santander.
Assim como em ECM, os estrangeiros devem seguir tendo papel fundamental em M&As, principalmente nas maiores operações, em áreas como infraestrutura e energia, que foram destaque em 2025, segundo Roderick Greenlees, global head de IB do Itaú BBA.
“Estamos entrando em 2026 com um pipeline parecido ao de 2025, que já era muito melhor que o de 2024”, diz. “O interessante é a volta forte dos chineses ao mercado.”
Mesmo com a perspectiva de retomada do mercado de ações, ainda vai demorar para a renda fixa perder dominância no País, com investidores testando as águas em ECM.
“A queda da taxa de juros ainda é expectativa e não será de 15% para 9%. No esquema geral de retornos, a renda fixa continua muito atrativa”, afirma Miguel Diaz, head de emissões externas do Santander, que encerrou 2025 em terceiro lugar no ranking da Dealogic, com um volume de US$ 11,4 bilhões.
Como foi 2025
“O ano de 2025 foi mais um ano de queda de receita de ECM e M&A na indústria”, diz Cabral, do Santander. “A retomada esperada em ECM não aconteceu, sendo que a principal oferta do ano, da Cosan, ocorreu apenas em novembro. Ficamos praticamente um ano inteiro sem grandes ofertas.”
O ano passado foi o quarto consecutivo sem IPOs no País, enquanto houve dez operações de follow on, contra nove em 2024, mas com volumes distintos – R$ 15 bilhões ante R$ 25 bilhões, considerando o efeito da privatização da Sabesp.
A fraqueza de ECM foi tamanha que a Dealogic não conseguiu compilar dados exclusivos do Brasil. Os números consolidados da América Latina resultaram em um ranking de cinco instituições, com volume total de US$ 8,8 bilhões, acima dos US$ 4,7 bilhões do ano anterior.
O BTG Pactual e Itaú BBA conseguiram garantir seus lugares no ranking. O BTG ficou em segundo lugar, com US$ 1,5 bilhão em transações, enquanto o BBA ficou em quinto, com US$ 1 bilhão. O J.P. Morgan liderou, com US$ 3,8 bilhões.
Num momento de poucas operações, Nazari, do BTG Pactual, afirma que o banco conseguiu capitalizar o trabalho de fortalecimento da franquia, mantendo os principais bankers e o relacionamento com clientes.
Segundo ele, isso permitiu estar presente pela primeira vez em todos os deals com prospecto e em quase 90% dos realizados na América Latina, trabalhando inclusive com novos clientes. “Começamos a ver o goodwill criado ao longo desse momento de baixa trazer dividendos”, afirma Nazari.
No Itaú BBA, a área de ECM contornou a situação diversificando receitas, atuando em operações como vendas de blocos (block trades), a maior delas de R$ 1 bilhão em ações da Vivo, em maio, e em ofertas públicas de aquisição (OPAs), sem alterar a equipe.
“Acabou sendo um ano positivo, mas foi uma fração do que já foi”, diz Greenlees, do Itaú BBA. “Com os fees das OPAs e dos blocos, e com as poucas operações registradas, conseguimos ter um bom ano.”
No caso dos M&As, o levantamento apontou queda de 2% no volume de transações dos dez primeiros bancos, para US$ 76,7 bilhões. Brito, do UBS BB, cujo banco ficou em quarto lugar com US$ 5,8 bilhões, afirma que a falta de atividade em ECM limitou o potencial dos M&As.
“Quando o mercado de IPOs está fechado e há menor volume em ECM, isso afeta os M&As. São menos empresas captando, o que significa valuations mais depreciados e menos fusões e aquisições”, diz.
Assim como em ECM, os M&As foram prejudicados pela volatilidade e pelo cenário macroeconômico local, que reduzem a convicção na conclusão de transações, segundo Alessandro Farkuh, sócio e head de M&As do BTG Pactual. O ranking aponta que o volume do banco alcançou US$ 17,8 bilhões, alta de 16%, ficando em primeiro lugar.
“A dinâmica de fechamento muda, porque as referências de valuation ficam distorcidas. O processo de execução é alongado, exigindo abordagem mais criativa e estruturada”, diz Farkuh. “Num cenário como este, são priorizados deals com valuations atraentes.”
As operações de renda fixa, que vêm dominando o mercado e ajudando a amortecer a queda de receitas, recuaram 9,7%, para US$ 85,4 bilhões, segundo a Dealogic. O Itaú BBA liderou em volume, com US$ 19,4 bilhões, queda de 12,3%.
Brito, do UBS BB, destaca que o levantamento não reflete totalmente a evolução de DCM, especialmente a dívida local, que cresceu fortemente nos últimos anos, com debêntures incentivadas e outros instrumentos. O mercado passou de cerca de R$ 300 bilhões em emissões em 2021 para R$ 600 bilhões em 2024 e deve fechar 2025 em R$ 550 bilhões.
“Quando olhamos a receita dos IBs, a indústria saiu de R$ 3,5 bilhões em ECM em 2021 para cerca de R$ 250 milhões em 2025. Mas quando equity local está fechado, as empresas continuam fazendo capex e refinanciando dívida. Vimos crescimento muito forte da dívida local”, diz Brito.