Enquanto o consenso do mercado é que a inteligência artificial vai elevar a produtividade e permitir produzir mais com menos recursos, a ex-secretária do Tesouro americano e ex-presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, levanta questionamentos. Em painel no Expert XP, ela afirmou que a IA está, na prática, impulsionando a inflação mais do que reduzindo-a.
“Não estamos vendo evidência de nenhuma melhora relevante na produtividade agregada, embora a IA esteja claramente tendo efeito em alguns setores. E não estamos vendo evidência de pressões desinflacionárias”, afirmou Yellen.
“Agora, eu acho que a IA está, de forma demonstrável, elevando a inflação, em vez do contrário”, complementou.
A ex-presidente do Fed defende que esse impacto inflacionário deriva de “investimentos enormes” em IA e que esse aumento de gastos está elevando os preços de semicondutores e eletricidade, além de ter aumentado a demanda e mantido o mercado de trabalho aquecido.
“Depois, temos um enorme impulso nos gastos de consumo [nos Estados Unidos] vindo do mercado de ações, que está em pleno boom, principalmente por causa da expectativa de lucros futuros”, disse.
Com dificuldades para reduzir a inflação americana rumo à meta de 2% desde a pandemia, Yellen vê o Fed “pronto para subir juros”. No mercado, as apostas majoritárias são de pelo menos dois aumentos de 0,25 ponto percentual até o fim do ano sobre a taxa atual de 3,5% a 3,75%.
“Se essa última rodada de turbulência no Oriente Médio continuar ou se intensificar, se eu fosse uma apostadora, apostaria que veríamos ao menos alguns aumentos de juros com o objetivo de conter a inflação”, afirmou.
Para Yellen, apertar ainda mais a política monetária “provavelmente” prejudicará o mercado de trabalho. Mas, em um cenário oposto, ela disse que “estaria muito preocupada com o risco de alta da inflação”.
Efeito Trump
Parte dessa dificuldade em domar a inflação, segundo Yellen, deriva das políticas tarifárias da Casa Branca e dos impactos das guerras do Oriente Médio no preço do petróleo.
“Assim que os choques da pandemia começaram a se dissipar e parecia que a inflação cairia, o presidente Trump impôs tarifas enormes que fizeram a inflação disparar”, disse.
O efeito, diz, seria transitório e deveria durar entre um e dois anos para se refletir nos preços e a inflação voltar ao normal. “E justamente quando isso talvez estivesse começando a acontecer, com o impacto das tarifas se dissipando, tivemos todas as disrupções no Oriente Médio.”
Em 2025, a inflação americana de 12 meses rodou constantemente a 3% ou abaixo, mas voltou a subir fortemente neste ano, chegando a 4,2% em maio e recuando para 3,5% no mês seguinte.
A necessidade de manter a inflação mais alta por mais tempo — e até de subir ainda mais os juros — ocorre em um momento de pressão crescente sobre as contas públicas americanas.
A dívida federal dos Estados Unidos em relação ao PIB está hoje em torno de 100% — nível de alavancagem que “no passado já causou problemas para muitas, muitas economias”, apontou a ex-secretária do Tesouro americano.
O déficit fiscal americano, por sua vez, está em 6% do PIB, mesmo com a economia fora de recessão.
“Isso é muito incomum, e temos problemas subjacentes que vão continuar expandindo o déficit se nada for feito”, afirmou.
O problema, diz, é estrutural e está relacionado ao envelhecimento da população americana, que eleva a proporção de aposentados para trabalhadores e amplia os gastos com pensões e com saúde. “Não há solução indolor. Isso precisa envolver alguma combinação de impostos mais altos, pensões menores, menor suporte para despesas médicas”, disse.
Ela também chamou atenção para uma mudança na composição dos detentores da dívida americana: bancos centrais estrangeiros estão reduzindo a posse de Treasuries, enquanto aumentam suas reservas em ouro.
Yellen aponta que esse movimento tem origem no congelamento dos ativos russos por parte do G7 em 2022, decisão da qual ela participou diretamente como secretária do Tesouro, após a invasão da Ucrânia.
“Ficou claro que os países se preocupariam em manter dólares em reservas, que um dos riscos é que, se ficassem do lado errado dos Estados Unidos, poderiam enfrentar uma ameaça semelhante”, disse. “E eu acho que o aumento do ouro reflete, em parte, a vontade de depender menos de dólares, onde os Estados Unidos podem impor sanções.”
Ainda assim, Yellen não vê no horizonte próximo uma moeda capaz de ocupar o espaço do dólar como reserva global.