O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, divulgado em 1º de setembro pelo IBGE, trouxe mais do que uma desaceleração: expôs uma mudança de fase na política econômica às vésperas da eleição.
O crescimento de 0,5% — abaixo dos 1,1% do primeiro trimestre — confirma que o ciclo de estímulos do governo perdeu força antes do esperado. A queda de 0,4% no consumo das famílias, a estagnação da indústria e o recuo de setores sensíveis ao crédito mostram que a economia entrou em fase de enfraquecimento justamente quando a campanha exige narrativa de vigor para a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
A perda de força do consumo é o sinal mais claro desse esgotamento. Após dois trimestres de alta, o recuo de 0,4% é o pior desde o fim de 2024, indicando que reajustes de benefícios sociais, antecipações de pagamentos e crédito subsidiado já não produzem o mesmo efeito.
O mercado de trabalho também demonstra desaceleração, com criação menor de vagas e massa salarial real perdendo impulso. A indústria, que cresceu 1,2% no primeiro trimestre, praticamente parou, com quedas na transformação (-0,4%) e na construção (-0,4%), ambas afetadas pelos juros altos e pelo endividamento das famílias.
Esse conjunto reforça que o governo já colheu o máximo dos estímulos lançados este ano. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheceu isso indiretamente ao afirmar, em evento da XP em 31 de agosto, que a política fiscal de 2027 exigirá “sete passos de responsabilidade” e que o País não pode repetir ciclos de expansão fiscal sem contrapartidas.
A fala revela a sinuca da atual gestão: ampliar estímulos agora contradiz o discurso fiscal prometido para 2027; não ampliar abre espaço para críticas sobre desaceleração econômica na reta final da campanha.
Para Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, o dilema reflete duas novidades do atual ciclo político-econômico.
A primeira é a inversão do ciclo de gastos. “Antes, o governo recém-eleito arrumava a casa no primeiro ano e gastava mais na segunda metade do mandato", afirma. "Agora, por causa do pós-pandemia, a atual gestão acelerou gastos já em 2023”, afirma.
A segunda novidade é a consolidação da independência do Banco Central, que manteve a política monetária restritiva na transição entre Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo, elevando a taxa Selic até 15%. Para Padovani, isso desacelerou a atividade e evidenciou a eficácia da autonomia do BC.
O efeito concreto desse processo foi a absorção dos estímulos pela taxa de juros, que desestimula consumo e trava investimentos. “A Selic neutralizou impulsos como renegociação de dívidas e expansão de benefícios sociais”, diz Padovani, lembrando que a oferta de crédito também encolheu: “Houve coordenação defensiva de bancos e mercado de capitais, reduzindo concessões em março e agosto de 2026.”
E não foram poucos os estímulos. Estudo do economista Marcos Mendes, encomendado pela XP Investimentos, mostra que o Executivo liberou R$ 198,9 bilhões em benefícios para eleitores e empresas até junho. Desse total, R$ 118,4 bilhões são medidas financeiras ou extraorçamentárias que não afetam o teto de gastos nem o resultado primário.
Calendário a favor
O quadro econômico-financeiro do País reforça a sinuca em que o governo se colocou. A Pesquisa Focus projeta a taxa Selic em 13,75% no fim do ano, apenas 0,25 ponto abaixo dos atuais 14%. O déficit primário estimado para 2026 está em R$ 60 bilhões e a dívida bruta chegou a 82,5% do PIB em julho.
“O PIB do segundo trimestre reforça que os juros já cumpriram uma parte importante do trabalho de desaquecer a economia, mas não autoriza automaticamente uma sequência mais rápida de cortes de juros”, adverte Gustavo Assis, CEO da Asset Bank. “Para cortes adicionais, o Banco Central precisará observar melhora consistente da inflação de serviços, das expectativas e do câmbio”, acrescenta.
O terceiro trimestre tende a ser pior que o segundo: a safra recorde não se repete, a indústria segue pressionada por crédito caro e o consumo enfrenta o maior endividamento desde 2021.
O mercado projeta PIB abaixo de 0,3% no período, mas o dado só será divulgado em 2 de dezembro, após a eleição — criando vantagem estratégica para o governo, já que a deterioração não aparecerá oficialmente antes do pleito.
Isso abre espaço para uma decisão arriscada da atual gestão, como lançar novos estímulos agora, mesmo que seus efeitos só sejam parcialmente sentidos antes da eleição. Medidas de estímulo ao consumo levam de 30 a 90 dias para produzir impacto perceptível. Se adotadas em setembro, poderiam gerar algum efeito em outubro, mas dificilmente mudariam o quadro macroeconômico.
“É difícil imaginar contramedidas que reduzam o impacto do endividamento da maioria da população", afirma Padovani, do BV. "As famílias usaram os impulsos para reduzir dívidas; não faz sentido imaginar que vão usar eventuais novas linhas de crédito para consumo com juros tão elevados.”
Assim, o impacto seria mais psicológico do que estatístico. Além disso, medidas de maior escala teriam efeito mais forte, mas também maior custo fiscal. E aí a sinuca se fecha: novos estímulos pressionariam ainda mais a dívida pública, já preocupante.
O governo tenta equilibrar discurso e prática. Na campanha, o governo celebra o crescimento médio do atual mandato, que pode fechar entre 2,7% e 2,8% ao ano — o melhor desde o segundo governo Lula. Mas esse número esconde a desaceleração recente e a fragilidade estrutural do consumo.
O economista do BV destaca que a pressão do mercado disciplinou o debate político e levou o governo a adotar postura mais responsável, como a defendida por Durigan no evento da XP. Para ele, a defesa do ajuste fiscal em período eleitoral por integrantes do governo representa mudança inédita e sinal de maturidade institucional.
Por isso, Padovani não vê cenário tão desfavorável ao governo, exceto pelo crescimento da dívida. A inflação permanece controlada, com projeções próximas a 5% em 2026 e tendência de queda em 2027.
“Nossa estimativa do PIB aponta expansões de 0,2% no terceiro e no quarto trimestre, com economia fechando 2026 com crescimento de 1,9%, o que não é ruim num ano de juros altíssimos, tarifaços e insegurança geopolítica”, afirma.
Rafael Perez, economista da Suno Research, concorda que os dados sugerem esgotamento do ciclo de crescimento recente, sustentado por consumo e política fiscal expansionista.
“A desaceleração desses vetores reforça a necessidade de novos motores, especialmente pelo lado da oferta, com produtividade, investimentos e expansão da capacidade produtiva”, diz Perez — fatores que dependem menos de estímulos ao consumo e mais de reformas estruturais.