A China está passando por uma mudança estrutural em seu modelo econômico, deixando para trás uma trajetória baseada em investimentos e avançando para uma economia mais dependente do consumo.
Mas essa transição não deve vir sem custos. Para Hongbin Li, codiretor do Centro de Economia e Instituições da China da Universidade de Stanford, essa mudança deve ser “dolorosa” para o crescimento, reduzindo o ritmo de expansão que o país se acostumou a apresentar ao mundo.
“Quando um país passa por uma grande transformação, normalmente o crescimento diminui”, diz Li em entrevista ao NeoFeed. “No longo prazo, se a China conseguir crescer 4,5% ao ano, considero que seria um crescimento muito saudável.”
Para Li, cujas pesquisas estão centradas em temas como o crescimento econômico da China e os impactos das transformações econômicas chinesas no cenário global, o desafio é fazer com que o consumo cresça em velocidade suficiente para compensar a perda de força dos investimentos, um dos principais motores da expansão chinesa.
Isso passa por lidar com um tema pouco comentado quando se pensa no sucesso do modelo chinês: a desigualdade. Ele entende que elevar a renda dos trabalhadores, especialmente dos grupos de menor renda, é fundamental para transformar parte dos recursos hoje direcionados a investimentos e acumulação de capital em consumo.
“Os salários cresceram aproximadamente 10% ao ano nos últimos 15 anos. Isso vale para trabalhadores de baixa qualificação. Ainda assim, considerando a velocidade do crescimento, o crescimento dos salários chineses não é tão alto em comparação com o crescimento do PIB”, afirma.
Outra questão envolvendo o mercado de trabalho é o fato de que os jovens recém-formados encontram dificuldades para conseguir emprego, problema que o professor relaciona, entre outros fatores, ao avanço da inteligência artificial (IA). E isso ocorre em um momento em que fábricas e empresas de manufatura enfrentam escassez de trabalhadores.
A mudança de modelo econômico também ajuda a explicar a crise do setor imobiliário. Para Li, os preços dos imóveis caíram bastante nas principais cidades, como Pequim, Xangai e Shenzhen, mas podem permanecer deprimidos por um longo período em cidades menores.
O problema não está apenas na perda de riqueza provocada pela queda dos preços. A retração das compras de imóveis reduz também uma cadeia de consumo associada à habitação, que inclui reformas, móveis e eletrodomésticos.
Li, que esteve em São Paulo em 24 de agosto para o Encontro Anual de Líderes da Fundação Estudar, disse também que a transformação econômica da China pode abrir espaço para uma relação mais sofisticada entre Brasil e China.
Embora a relação comercial entre os dois países ainda tenha forte presença de commodities brasileiras, o professor vê potencial para o país subir na cadeia de valor e atrair empresas chinesas para produzir localmente, inclusive por meio de joint ventures.
A ideia seria aproveitar o capital e a experiência chineses para desenvolver no Brasil setores como veículos elétricos, baterias e comércio eletrônico, em vez de manter uma relação restrita à exportação de produtos agrícolas e minerais.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Vimos um crescimento de 4,3% da economia chinesa no segundo trimestre, combinado com dados mais fracos em julho. Estamos diante de uma desaceleração temporária da China ou de algo mais estrutural?
A China está passando por uma transição. Está saindo de uma economia baseada em investimentos para uma economia mais orientada ao consumo. No passado, houve muito investimento em ativos, chegando a representar mais da metade do crescimento. Agora, os investimentos estão caindo algo entre 10% e 20% a cada trimestre. É uma queda muito grande. O consumo, por outro lado, vem melhorando e aumentando, mas em um ritmo mais lento do que a queda dos investimentos.
O comércio exterior, que sempre foi um motor para o crescimento da China, não está mais colaborando?
Se olharmos para as exportações, elas estão indo bem. Isso não aconteceu apenas no último trimestre, mas nos últimos anos, com o superávit comercial atingindo novos recordes. Mas as exportações também devem atingir um pico nos próximos anos, porque o mundo não conseguirá consumir tantos produtos chineses, fora que muitos países estão limitando as importações provenientes da China. O governo chinês reduziu a ênfase na taxa de crescimento no novo plano quinquenal porque entende que haverá desafios para manter um ritmo elevado de expansão.
"Quando um país passa por uma grande transformação, normalmente o crescimento diminui. No longo prazo, se a China conseguir crescer 4,5% ao ano, considero que seria um crescimento muito saudável"
Como assim?
O foco passou a ser mais a qualidade do crescimento. Isso significa dar muita ênfase à tecnologia avançada, tanto em hardware e manufatura quanto em serviços, como inteligência artificial. Também há uma preocupação com a desigualdade, com o governo dedicando esforços e recursos ao tema. Além disso, há uma preocupação com a proteção ambiental e com tornar o país mais verde. A China tem sido bastante bem-sucedida nessa área, com os carros elétricos. Quando um país passa por uma grande transformação, normalmente o crescimento diminui. No longo prazo, se a China conseguir crescer 4,5% ao ano, considero que seria um crescimento muito saudável.
Estamos falando de uma desaceleração estrutural, e não de uma desaceleração cíclica neste momento?
Sim. A China está passando de um modelo para outro. Acho que a transição será dolorosa. Isso é inevitável.
Mas o governo fala em crescimento entre 4,5% e 5%, pelo menos para 2026. Isso é possível sem um aumento significativo dos estímulos?
Se eles de fato estiverem preocupados, devem adotar algum tipo de política de estímulo. Mas eles têm sido bastante cautelosos com o uso de políticas agressivas há alguns anos. Eles não querem estimular demais os investimentos, porque sabem que não é saudável. Tudo depende de quão sério é o problema do emprego. Não tenho bons dados e não sei se há um problema. Mas eu diria que eles estão mais confiantes agora e não precisam usar políticas realmente extremas para estimular a economia. Acho que estão menos preocupados com o número em si.
Quanto tempo será necessário para essa mudança estrutural acontecer?
Pode levar ainda mais tempo. A questão central é aumentar o consumo. Para isso, é preciso aumentar a renda. A renda média na China não é baixa. O PIB per capita chegou a US$ 13 mil, o que é bastante alto. Mas existe uma grande desigualdade na China. Aumentar a renda das pessoas mais pobres e da população trabalhadora, será fundamental para aumentar o consumo. Esse é um ponto que o governo realmente precisa enfrentar. Isso vai levar algum tempo.
"Existe uma grande desigualdade na China. Aumentar a renda das pessoas mais pobres e da população trabalhadora, será fundamental para aumentar o consumo"
O que o governo tem feito nessa frente?
A China já fez muitas coisas no passado, como mudanças na legislação trabalhista. Isso teve um efeito significativo. A renda do trabalho na China aumentou dramaticamente desde os anos 1990. Por exemplo, onde você está baseado?
São Paulo.
Ouvi dizer que um entregador pode ganhar talvez US$ 500 por mês. Na China, em Pequim, eles podem ganhar US$ 1,5 mil por mês. A renda aumentou. Os salários cresceram aproximadamente 10% ao ano nos últimos 15 anos. Isso vale para trabalhadores de baixa qualificação. Ainda assim, considerando a velocidade do crescimento, o crescimento dos salários chineses não é tão alto em comparação com o crescimento do PIB. Nunca vi isso em nenhum outro país do mundo, porque, na maioria dos países, os salários crescem mais rapidamente do que o PIB. Mas existe uma segunda questão, relacionada a emprego e consumo, que é o impacto da inteligência artificial.
Em qual sentido?
A IA está substituindo empregos. Embora não tenhamos estudos sobre o número exato, existem muitos relatos de que recém-formados nas universidades não conseguem encontrar emprego. Esse é um desafio. Por um lado, existe escassez de mão de obra nas fábricas e na indústria. Por outro, os jovens recém-formados não conseguem encontrar empregos. Existe, portanto, um certo desencontro no mercado de trabalho que precisa ser resolvido.

Sobre a crise imobiliária, o setor já chegou ao fundo do poço ou ainda há espaço para uma deterioração maior?
Nas grandes cidades, já chegou ao fundo. Pequim, Shenzhen e Xangai. Mas, em muitas cidades menores, não dá para ter certeza. Mesmo que tenham chegado ao fundo, permanecerão nesse nível por muito tempo, porque ninguém está comprando. Na China, basicamente todas as famílias possuem uma casa. A única demanda surgirá quando as pessoas se mudarem, por exemplo, de cidades menores para cidades maiores. Por isso a recuperação para os grandes centros. Nas cidades menores, os jovens estão deixando a cidade e ninguém quer comprar imóveis. Os preços só podem cair. Não há como subir.
Então esse setor não será um motor de crescimento no futuro próximo?
Não.
A queda dos preços dos imóveis está, de alguma maneira, restringindo o consumo?
Um pouco. Quando você possui alguma coisa e o preço sobe, sente que está mais rico e passa a gastar mais. Mas não acho que o efeito real disso sobre o consumo seja tão grande. O principal ponto é, quando você compra um apartamento, você acaba reformando. Isso é consumo. Compra móveis, eletrônicos, geladeira. Também é consumo. O consumo relacionado à habitação representa talvez de 10% a 50% do consumo. É uma parcela muito grande. Essa é a razão pela qual o impacto da habitação sobre o consumo não decorre do valor dos imóveis, mas pela decisão de comprar ou não comprar.
"Vejo uma tendência de muitas empresas chinesas indo ao Brasil para produzir e investir"
Queria falar um pouco sobre os Estados Unidos. As tarifas impactaram a economia chinesa?
Não muito. Se olharmos para as exportações, o impacto direto praticamente não existe. As exportações chinesas continuam aumentando, mesmo com mais tarifas. É verdade que as exportações para os Estados Unidos caíram significativamente. Mas as exportações para o restante do mundo aumentaram significativamente. É como água. Se você constrói uma barragem para impedir que a água passe por um lugar. Se você disser que as pessoas não podem comprar da China e podem comprar, por exemplo, do Brasil, o Brasil não terá oferta suficiente. A menos que você consiga produzir mais no mundo, o que existe é apenas uma redistribuição do comércio mundial. Isso torna tudo mais caro para todos os países.
Sobre a relação entre Brasil e China, dado esse novo modelo econômico que está surgindo na China, qual é o papel do Brasil? Quais são as oportunidades para o país?
Brasil e China têm muito comércio, e o Brasil é um dos poucos países que mantêm superávit comercial com a China. A maior parte do mundo tem déficit comercial com a China. Vejo uma tendência de muitas empresas chinesas indo ao Brasil para produzir e investir. Ainda não é fácil, naturalmente, por causa das diferenças culturais, de idioma e de políticas governamentais. Mas vejo um enorme potencial para o comércio bilateral, para as relações entre os dois países, para os investimentos e também para o intercâmbio entre as duas populações.
A relação seria de exportador de commodities, como é o caso atualmente?
O Brasil tem uma força de trabalho dinâmica e muitos empreendedores. O que o Brasil pode fazer é desenvolver suas próprias indústrias. Pode ter sua própria indústria de veículos elétricos, sua própria indústria de baterias e suas próprias empresas de comércio eletrônico, por exemplo. E pode trazer o capital e a experiência da China, inclusive por meio da formação de joint ventures, em qualquer formato. Se você ficar apenas exportando produtos agrícolas e minerais, haverá uma limitação. Existe uma cadeia de valor, é preciso subir nessa cadeia. Foi isso que a China fez nos anos 1980 e 1990.
E, em relação à China e ao Brasil, vimos muitos investimentos chineses em infraestrutura e começamos a ver mais exportações e investimentos em produção local. Quais são os interesses da China no Brasil?
As empresas chinesas estão simplesmente procurando oportunidades para ganhar dinheiro. Se enxergarem potencial em um mercado, tentarão entrar. No caso da infraestrutura, trata-se de um investimento de longo prazo. Para esse tipo de investimento, é preciso ter muita paciência para ganhar dinheiro. É por isso que muitas empresas não querem fazê-lo. As empresas chinesas são muito boas em construir esse tipo de infraestrutura de maneira mais eficiente e conseguem ganhar dinheiro, embora as margens ainda sejam muito baixas.