A derrocada da incorporadora chinesa Evergrande teve seu capítulo derradeiro na quinta-feira, 20 de agosto, com a condenação de seu fundador, Hui Ka Yan, à prisão perpétua, por crimes de fraude e uso ilegal de recursos públicos.
O empresário foi condenado juntamente com outras 56 pessoas, incluindo seus filhos Xu Zhijian e Xu Tenghe, com as sentenças variando de 22 meses a 18 anos de prisão. Seus bens foram confiscados e suas empresas multadas em um total de 15,82 bilhões de yuans (US$ 2,4 bilhões), segundo informações das agências de notícias Bloomberg e Xinhua.
A Evergrande e Hui também foram considerados culpados de emissão fraudulenta de títulos, violação das normas de divulgação de informações e suborno. O empresário foi acusado ainda de desviar ativos da empresa por meio de mecanismos de dividendos.
Segundo a decisão do Tribunal da Província de Guangdong, entre 2016 e 2021, a Evergrande e Hui inflaram ativos e ocultaram passivos por meio de fraude financeira sustentada e em larga escala. A acusação afirma ainda que a empresa e seu fundador subornaram instituições financeiras para conseguir linhas de crédito e recursos de seguros.
A condenação coloca fim ao que é considerada uma das maiores falências da China e estopim da crise imobiliária que acometeu o país no começo da década de 2020, após a incorporadora dar um calote em suas obrigações no fim de 2021.
O impacto foi enorme, considerando que o mercado de construção e incorporação respondia por 25% do PIB da China e um quarto dos financiamentos bancários na ocasião.
Hui acumulou dívidas exorbitantes durante a expansão da Evergrande, transformando a empresa na incorporadora mais endividada do mundo, ao mesmo tempo que transformava a gigante imobiliária em um conglomerado gigantesco e enriquecia pessoalmente – o empresário já foi considerado o homem mais rico da Ásia em 2017, com uma fortuna na casa dos US$ 45 bilhões.
No seu auge, a Evergrande construiu mais de 1,3 mil projetos em 280 cidades. Impulsionada pela riqueza imobiliária, expandiu também sua atuação para setores que vão desde água engarrafada a futebol profissional e veículos elétricos.
Por muito tempo, a companhia conseguiu contornar os problemas de liquidez recorrendo a magnatas da China e de Hong Kong para comprar ações e títulos da empresa. Hui também buscou financiamento junto a seus fornecedores.
No entanto, as ações de Pequim para coibir os excessos no mercado imobiliário chinês limitaram sua capacidade de endividamento, isolando Hui dos mercados de crédito.
Em 2024, os reguladores chineses acusaram a Evergrande de inflar em mais de 560 bilhões de yuans sua receita (US$ 78 bilhões) entre 2019 e 2020, reconhecendo vendas antecipadamente, uma suposta fraude que supera em muito as da Luckin Coffee, acusada de fabricar US$ 310 milhões em vendas, e da Enron, que inflou seu lucro em US$ 600 milhões, segundo cálculos da Bloomberg.
A situação fez com que a Evergrande acumulasse uma dívida de mais de US$ 300 bilhões e sobrasse com mais de 720 mil apartamentos vendidos e não concluídos. Em janeiro de 2024, a empresa teve sua liquidação decretada por um tribunal de Hong Kong, diante da falta de acordo para reestruturar seu passivo.
A condenação de Hui segue uma série de outras medidas contra grandes empresários do país. Ex-presidente do conglomerado Anbang Group, Wu Xiaohui foi condenado a 18 anos de prisão por fraude e peculato em 2018.
No mesmo ano, o presidente da gestora China Huarong Asset Management, Lai Xiaomin, foi preso em meio a um escândalo de corrupção e executado em 2021 sob acusações que incluíam suborno.