A Grant Thornton, auditoria independente do Grupo Toky, se absteve de emitir opinião sobre o balanço do segundo trimestre da companhia dona da Mobly e da Tok&Stok.

A abstenção - forma mais grave que uma auditoria pode adotar sobre um balanço - não é a primeira da Grant Thornton, que já havia se recusado a opinar no trimestre anterior, mas por um único motivo: a recuperação judicial, protocolada dias antes do fechamento daquele balanço. Três meses depois, a lista de problemas quadruplicou.

Além da dúvida sobre a capacidade de a empresa continuar operando, a auditoria elencou outros três motivos para abstenção de opinião no balanço do segundo trimestre; R$ 45,5 milhões em recebíveis de marketplace que a companhia ainda não conseguiu reconciliar; a classificação incorreta de R$ 486,7 milhões em debêntures; e a falta de esclarecimentos sobre a conversão de outro lote de debêntures em ações.

O problema do marketplace vem de uma reconciliação inacabada. A Toky vende, através de sites como o da Mobly, produtos de parceiros terceiros — os chamados sellers. Esses parceiros repassam à empresa valores referentes às vendas, mas a companhia identificou divergências entre o que os parceiros confirmam ter pagado e o que está registrado na própria contabilidade.

A empresa já provisionou R$ 45,5 milhões para cobrir essas diferenças, mas, segundo os auditores, o processo de reconciliação ainda estava em andamento na data de fechamento da revisão — o que impediu a Grant Thornton de confirmar se aquele valor é suficiente, insuficiente, ou mesmo correto.

Já o problema das debêntures é de outra natureza e envolve uma cláusula que a Toky acionou ao pedir recuperação judicial, em maio, que prevê o vencimento antecipado automático de suas debêntures públicas. Isso deveria ter feito a empresa reclassificar essa dívida de "longo prazo" para "curto prazo" no balanço, mas os R$ 486,7 milhões continuaram registrados como passivo não circulante.

Para os auditores, esse valor está classificado no lugar errado — o que faz o passivo circulante da empresa aparecer menor do que deveria; e o não circulante, maior.

A quarta razão da abstenção envolve outro lote de debêntures - desta vez, conversíveis e de posse de credores privados. Segundo a cláusula de emissão, o pedido de recuperação judicial também deveria ter disparado a conversão automática dessas debêntures em ações. Isso não ocorreu, e os auditores afirmam que a própria administração da Toky não forneceu a documentação-suporte necessária para avaliar os impactos contábeis dessa pendência.

"O mais importante é compreender as causas que impediram o auditor independente de obter essas evidências e avaliar se existem fragilidades nos processos, controles, sistemas ou na qualidade das informações produzidas pela companhia", diz Paulo Gomes, diretor do Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IIA Brasil).

Ele fala que a questão vai além dos números que não foram apresentados. "A confiança do mercado depende não apenas do que a empresa reporta, mas da sua capacidade de demonstrar, por meio de controles, processos e evidências consistentes, como chegou àqueles resultados. É nesse contexto que Auditoria Interna, gestão de riscos e governança assumem papel especialmente relevante."

A reclamação de falta de informações ecoa do outro lado do processo. Escritório especializado em insolvência e administradora judicial da Toky desde junho, a AJ Ruiz Consultoria Empresarial é responsável por fiscalizar as atividades da empresa e reportar mensalmente ao juízo.

Em seu primeiro Relatório Mensal de Atividade (RMA), a AJ Ruiz reportou prazos estourados e entregas de documentos de última hora. Segundo o RMA relativo ao período de janeiro a maio, protocolado em 3 de agosto, a AJ pediu formalmente a documentação contábil das seis empresas do grupo em 7 de julho, com prazo para 15 de julho.

A resposta da Toky foi pedir mais 40 dias. A administradora reiterou a urgência três vezes ao longo do mês — em 10, 20 e 23 de julho — até receber a última leva de documentos em 29 de julho, "às vésperas do fechamento do RMA", nas palavras da própria AJ, que reclama do "prazo reduzido" que isso lhe deixou para analisar o material.

Mesmo assim, uma lista de documentos seguiu pendente até a data do relatório - da relação de contratos vigentes a certidões fiscais e demonstrativos financeiros mês a mês de várias das recuperandas.

Mas o problema vai além do atraso. Ao vasculhar o que a empresa efetivamente enviou, a AJ identificou uma sucessão de números que não fecham entre si. Em pelo menos duas das seis empresas do grupo, o estoque físico contado não bate com o valor registrado nos livros contábeis.

Em uma delas, os documentos de inventário nem sequer permitem cruzar as informações, porque identificam as unidades "apenas pelo código da filial e pela localização, sem informar o respectivo CNPJ". Em outra companhia do grupo, o relatório de faturamento enviado pela empresa diverge dos números que ela mesma registrou na demonstração de resultado.

Há ainda contas de "partes relacionadas" — operações entre as próprias empresas do grupo — cuja composição a administradora pediu para esclarecer em praticamente todas as recuperandas, sem resposta até o fechamento do relatório. Em um dos casos, a AJ chega a registrar que nem ela conseguiu apurar os motivos da variação no saldo de caixa da companhia.

Ao todo, a expressão "será abordado no próximo relatório" — usada pela AJ toda vez que uma pendência fica sem resposta — se repete dezenas de vezes ao longo do documento, atravessando quase todas as seis empresas do grupo.

"A experiência mostra que a falta de transparência é porque tem alguma coisa errada sendo escondida. Quem não deve, não teme", diz Felipe Demori, advogado que representa minoritários que brigam por uma OPA em um caso envolvendo fundos da gestora SPX.

Demori afirma que vai notificar a companhia extrajudicialmente, cobrando esclarecimentos sobre os pontos levantados pelos auditores e pela administradora judicial.

Caso a Toky não responda, o advogado diz que pretende protocolar duas reclamações separadas na CVM - uma tratando especificamente da abstenção de opinião da Grant Thornton, outra sobre a operação com debêntures da SPX que, segundo ele, teria sido estruturada para evitar a obrigação de uma oferta pública de aquisição.

O NeoFeed entrou em contato com o Grupo Toky para solicitar posicionamento sobre os pontos levantados nesta reportagem, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço permanece aberto para manifestação da companhia.

Na B3, a ação TOKY3 acumula queda de 90,8% neste ano. O valor de mercado da companhia é de R$ 15,8 milhões.