A aproximação entre empresas americanas e chinesas é algo cada vez mais raro em meio à escalada das tensões entre Washington e Pequim, com ramificações em diversas frentes, entre elas, a tecnologia. Mas há quem esteja indo na contramão dessa relação cada vez mais conflituosa.

Esse é o caso da Apple. Segundo a agência Reuters, a empresa da maçã está treinando um modelo de linguagem de inteligência artificial (IA) especificamente para o mercado chinês e com o apoio de um grande parceiro local: o Alibaba.

Esse desenvolvimento a “quatro mãos” simboliza uma mudança na estratégia da dona do iPhone. Atualmente, a companhia depende de modelos de terceiros para alimentar os recursos de IA generativa em seus dispositivos na China.

Nesse contexto, a Apple também vinha priorizando parceiros locais para embarcar a IA nos iPhones e em outros dispositivos do seu portfólio vendidos no país, já que modelos americanos como o Claude, da Anthropic, e o ChatGPT, da OpenAI, não estão disponíveis por lá.

De acordo com a Reuters, que cita três fontes familiarizadas com esses planos, a empresa deve lançar a Apple Intelligence, seu conjunto de ferramentas de IA, na China nos próximos meses, como parte dessa estratégia.

Um modelo próprio e adaptado à China daria à companhia maior controle sobre a experiência de IA em seu maior mercado fora dos Estados Unidos. E onde a empresa tem enfrentado a competição cada vez mais acirrada de marcas locais, que vêm avançando justamente com aparelhos equipados com IA.

Na outra ponta, a ausência de recursos de IA nos iPhones chineses tem sido apontada como um fator que vem impactando negativamente as vendas do dispositivo no mercado local, já que os consumidores passaram a optar por marcas nacionais que oferecem assistentes de IA embarcados em seus aparelhos.

Em smartphones, o grande rival a ser batido no país é a Huawei. Dados da consultoria IDC mostram que a companhia liderou as vendas da categoria no mercado local no segundo semestre de 2026, com uma fatia de 22,6%, contra 18,1%, um ano antes.

Apesar de um crescimento de 24,4% nessa mesma base de comparação, a Apple encerrou o período com uma participação de mercado também de 18,1%. Há um ano, a fatia do iPhone era de 13,9% na China.

Em seu terceiro trimestre fiscal, encerrado em 27 de junho, o desempenho da companhia na China foi um dos pontos de atenção. No período, apesar de um crescimento anual de mais de 22%, a receita de US$ 18,82 bilhões no país ficou aquém das projeções, que apontavam para US$ 19,6 bilhões.

No mesmo intervalo, a receita total da Apple foi de US$ 109,4 bilhões, contra os US$ 94 bilhões reportados em igual período, um ano antes. O iPhone segue, de longe, como a maior linha no portfólio, com uma receita de US$ 54,2 bilhões – 49,5% do faturamento total.

Em meio a esses indicadores, os novos movimentos da Apple da China representam um esforço único para uma empresa estrangeira no país. E que permitiria à companhia superar obstáculos regulatórios complexos que têm limitado o acesso de outras big techs americanas.

Caso seja bem-sucedida, a Apple vai se tornar a primeira empresa a oferecer um modelo de IA proprietário no país com o aval de Pequim. Esse sinal verde veio após um longo processo regulatório concluído recentemente.

Em julho, a Cyberspace Administration of China, o órgão regulador da internet no país, registrou o serviço de IA generativa da Apple, abrindo caminho para que a Apple Intelligence chegasse aos iPhones chineses pela primeira vez.

Como parte desse arranjo, o Qwen, modelo de IA do Alibaba, será incorporado à versão do Apple Intelligence embarcada nos modelos compatíveis de iPhone, iPad, Mac e Vision Pro na China. O serviço também deve incorporar tecnologias da Baidu, outro grande player local.

As ações da Apple registravam ligeira queda de 0,02% na Nasdaq por volta das 12h50 (horário local), cotadas a US$ 305,21, avaliando a companhia em US$ 4,4 trilhões. No ano, os papéis têm alta de 12,2%.